O cancelamento definitivo de R$ 2,2 bilhões em autuações tributárias fez a B3 (B3SA3) avançar 3,73%, a R$ 17,24 às 11h14 da sessão de quarta-feira (2), segundo apuração do InfoMoney. Segundo a fonte, a Câmara Superior do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), instância máxima de julgamento administrativo tributário, anulou dois autos de infração da Receita Federal ligados às vendas de ações do CME Group realizadas em 2015 e 2016, com valor atualizado até junho de 2026.

Alívio de R$ 2,2 bi limpa risco de cauda, mas não altera o resultado contábil

A consequência direta para quem acompanha B3SA3 está na redução de incerteza jurídica, não no caixa. A leitura é que o ganho está na redução de um risco de cauda relevante para a tese, não em um ingresso financeiro imediato. Tanto o Goldman Sachs quanto a Ativa Investimentos avaliaram a decisão como positiva, mas sem impacto material nas demonstrações financeiras.

O ponto técnico explica o porquê. Os autos questionavam a inclusão de variações cambiais positivas no custo de aquisição da participação da B3 no CME Group para apurar o ganho de capital sujeito a IRPJ (Imposto de Renda da Pessoa Jurídica) e CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido). Como os processos eram classificados contabilmente como de perda possível — categoria que indica probabilidade de derrota inferior a provável e, por isso, não exige provisão no balanço — o desfecho favorável tende a simplesmente extinguir a contingência, sem reversão de provisão ou crédito no resultado.

O mercado precificou a retirada de um passivo contingente bilionário que pairava sobre a tese, mesmo que o efeito prático seja a manutenção do status contábil atual.

Para o investidor pessoa física, o efeito prático é a diminuição de um dos principais riscos negativos mapeados para a tese de B3, relacionado a disputas judiciais e tributárias. Historicamente, esse tipo de passivo costuma pesar sobre o múltiplo da companhia por ampliar a percepção de volatilidade regulatória, mesmo quando não provisionado.

Por que a ação subiu 3,73% mesmo sem efeito financeiro imediato

A reação de preço reflete a precificação de risco. Quando um auto de R$ 2,2 bilhões — montante equivalente a múltiplos trimestres de lucro — deixa de existir na esfera administrativa, o prêmio de risco exigido pelo mercado para carregar o papel tende a recuar. Segundo a fonte, o Goldman Sachs classificou justamente a redução desse risco como o vetor positivo da decisão.

A Ativa Investimentos seguiu linha semelhante, ao apontar avaliação positiva porém sem impacto material nos resultados. A convergência das duas casas reforça a interpretação de que o evento é de natureza qualitativa para a tese: melhora a visibilidade e reduz a cauda negativa, sem alterar projeções de receita, margem ou lucro no curto prazo.

O que observar a partir de agora

O encerramento na Câmara Superior do Carf indica caráter definitivo na esfera administrativa, o que encerra a discussão sobre esses dois autos específicos. Para quem monitora a companhia, o acompanhamento passa a se concentrar em eventual reflexo na percepção de risco regulatório e no custo de capital implícito, não em ajuste de balanço.

Valuation ainda com desconto relevante frente aos pares globais

O Goldman Sachs manteve recomendação de compra com preço-alvo de R$ 21 em 12 meses e estima que a B3 negocia a 9,2 vezes o EV/Ebitda (Valor da Firma sobre EBITDA) projetado para 2027, abaixo das 16,4 vezes dos pares globais. A diferença de múltiplo sugere que, mesmo após a alta pontual, o mercado ainda atribui desconto à operadora da B3 em relação a bolsas internacionais comparáveis.

MétricaValor / Detalhe
Valor anulado pelo CarfR$ 2,2 bilhões até jun/2026
Cotação na sessão (11h14)R$ 17,24 com alta de 3,73%
Preço-alvo Goldman Sachs (12 meses)R$ 21
EV/Ebitda (Valor da Firma sobre EBITDA) 2027 - B39,2 vezes
EV/Ebitda pares globais16,4 vezes

A distância entre 9,2 vezes e 16,4 vezes ajuda a explicar por que o banco manteve a visão construtiva mesmo sem efeito contábil do Carf. O desconto relativo reflete, entre outros fatores, a sensibilidade da B3 ao ciclo doméstico de juros, ao volume negociado e ao ambiente tributário local — justamente o tipo de risco que a decisão desta quarta-feira atenua parcialmente.

Em termos práticos, a anulação dos autos ligados ao CME Group não cria valor novo no demonstrativo, mas remove um passivo contingente que pressionava a narrativa de risco. Para o acompanhamento da tese, o dado central deixa de ser o valor em disputa e passa a ser a estabilidade regulatória que o desfecho sinaliza.