Um aporte de US$ 2 bilhões em stablecoin está no centro de uma disputa judicial que alcança a Casa Branca. J. Benjamin Greenberg, acionista da Circle Internet Financial — emissora da USDC, moeda digital atrelada ao dólar, formato conhecido como stablecoin —, protocolou na quinta-feira (22 de outubro) uma ação no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito de Columbia contra Donald Trump, a World Liberty Financial, empresas afiliadas e Steve Witkoff, enviado especial americano para o Oriente Médio. A alegação é que o arranjo que permitiu à MGX, veículo de Abu Dhabi ligado à realeza dos Emirados Árabes Unidos, injetar US$ 2 bilhões na Binance por meio da USD1 retirou da Circle a possibilidade de disputar esse fluxo com a sua própria stablecoin.

O que a petição sustenta

Na versão do acionista, o presidente americano, seu enviado especial e a empresa de cripto da família abriram uma via para que governos estrangeiros movimentassem recursos com a USD1 — e essa via teria custado à Circle parte do mercado que ela vinha ocupando. A peça trata o arranjo como corrupção e pede que a Justiça reconheça violação à Cláusula de Emolumentos Estrangeiros, dispositivo da Constituição dos EUA que veda a autoridades federais receber vantagens de governos de fora sem autorização do Congresso.

Greenberg afirma ser dono de 10 mil ações ordinárias da Circle, dado usado na petição para demonstrar interesse direto no desfecho da causa. Procurada, a Circle não quis se manifestar sobre o litígio em andamento. World Liberty e Casa Branca não responderam aos pedidos de comentário até a publicação desta matéria.

O caminho do dinheiro entre Abu Dhabi e a Binance

A operação que embasa o processo foi montada em 2025: a MGX aplicou US$ 2 bilhões na exchange Binance, com a liquidação feita na stablecoin USD1, emitida pela World Liberty Financial. Reportagens de fevereiro apontaram que outro veículo de investimento apoiado pelo xeque Tahnoon bin Zayed Al Nahyan acertou a compra de 49% da World Liberty por US$ 500 milhões — movimento que conecta a estrutura da família Trump a capital da realeza emiradense.

A governança da World Liberty tem nomes do círculo presidencial: Zach Witkoff, filho de Steve Witkoff, é cofundador da empresa, assim como Trump e os três filhos do presidente.

Os pedidos feitos ao tribunal

A petição não se limita a discutir o passado; ela tenta travar movimentos futuros. Os requerimentos centrais são:

  • declaração de que os atos do presidente contrariam a Constituição americana;
  • liminares que impeçam Trump e Witkoff de perseguir interesses financeiros do mesmo tipo sem aval do Congresso;
  • prestação de contas dos bilhões recebidos de Estados estrangeiros pelo presidente e por suas empresas;
  • devolução, pelas companhias que detêm esses recursos, dos valores aceitos;
  • indenização compensatória e punitiva.

Até a publicação desta matéria não havia decisão judicial sobre o caso, que está na fase inicial de análise da petição.

O histórico que virou tema de campanha

Os negócios cripto do clã presidencial ganharam peso eleitoral. Um relatório da Public Citizen, entidade sem fins lucrativos de defesa do consumidor, calcula que os empreendimentos digitais ligados a Trump e à família renderam US$ 1,4 bilhão ao presidente em 2025, ao mesmo tempo em que investidores acumularam perdas de aproximadamente US$ 4,7 bilhões. O levantamento se soma a outros episódios sob escrutínio, como a aceitação de um jato do governo do Catar.

Com as eleições de meio de mandato de 2026 a menos de duas semanas e a votação antecipada já aberta em parte dos estados americanos, democratas em campanha transformaram o tema em arma. O senador Mark Warner divulgou peça publicitária que cifra em mais de US$ 600 milhões o que o presidente teria embolsado somente com sua memecoin — ativo digital sem lastro, criado em torno de uma piada ou de uma personalidade.

ItemValor
Aporte da MGX na Binance via USD1US$ 2 bilhões
Compra de 49% da World Liberty por veículo do xeque TahnoonUS$ 500 milhões
Ganhos atribuídos à família Trump com cripto em 2025US$ 1,4 bilhão
Perdas atribuídas a investidores no períodoUS$ 4,7 bilhões
Ações ordinárias da Circle em posse do autor10 mil

O que a ação significa para quem investe

A Circle não é ré no processo. O risco para a emissora da USDC é indireto, mas relevante: a ação transforma em debate judicial a disputa por liquidez entre stablecoins privadas e uma moeda digital vinculada ao círculo de poder americano. Se o tribunal acolher algum dos pedidos, o precedente mexe na forma como stablecoins podem ser usadas para liquidar operações de grande porte com capital estrangeiro — exatamente o tipo de fluxo que sustenta a infraestrutura do mercado cripto.

Para o investidor brasileiro, o caso importa por duas frentes. A primeira é competitividade setorial: a USDC perde tração sempre que um operador institucional escolhe liquidar em USD1, e isso afeta a economia do emissor, seus parceiros e produtos que carregam exposição a stablecoins. A segunda é regulatória: uma decisão sobre conflito de interesses na Casa Branca tende a contaminar o ritmo de aprovação de regras para ativos digitais nos EUA, com reflexo direto em corretoras, fundos e tokens negociados no Brasil.

Acompanhar o processo vale mais pelo calendário do que pelo mérito imediato. Liminares pedidas logo no início costumam definir o tom do caso, e qualquer sinalização do tribunal sobre o uso da USD1 em fluxos soberanos será lida pelo mercado como termômetro do apetite regulatório americano para o setor.