As ações de construtoras recuam quase 40% em relação às máximas recentes, operando nos patamares mais baixos das últimas 52 semanas. O segmento de baixa renda absorveu o impacto mais severo da correção, embora analistas do Bradesco BBI avaliem que a desvalorização dos papéis exagerou o movimento de fundamentalização dos fundamentos.
Reação do mercado versus realidade operacional
O descontentamento dos acionistas decorre de expectativas frustradas com os volumes de vendas reportados no segundo trimestre. A leitura do mercado, contudo, desconsiderou um componente crucial de rentabilidade: os tickets médios (preço médio por unidade comercializada) registraram alta de 6% na comparação anual e de 3% frente ao trimestre anterior. Segundo o BBI, esse ganho deve mais do que compensar a leve redução na quantidade de unidades negociadas nos resultados futuros. A pressão vendedora foi amplificada por uma posição elevada dos investidores antes da divulgação dos dados, somada a ruídos eleitorais internos e a um cenário geopolítico global mais turbulento.
Baixa renda: múltiplos e desempenho das companhias
No subsetor de habitação econômica, as ações passaram a ser precificadas por múltiplos Preço/Lucro (P/L), indicador que relaciona o preço do ativo ao lucro líquido por ação, em torno de 4 vezes em média. Esse patamar representa os níveis mais descontados dos últimos 12 meses. O BBI mantém a Cury (CURY3) como a escolha prioritária da casa, com o papel negociado a 6,1 vezes o P/L projetado para 2027. Tenda (TEND3) e Direcional (DIRR3) acompanham a lista, precificadas a 4,4 vezes e 5,2 vezes o resultado esperado, respectivamente.
| Empresa (Ticker) | Variação em Lançamentos (1º Semestre vs Ano Anterior) |
|---|---|
| Tenda (TEND3) | +59% |
| Direcional (DIRR3) | +11% |
| MRV (MRVE3) | -7% |
| Cury (CURY3) | -9% |
| Plano & Plano (PLPL3) | -21% |
Média e alta renda: dinâmica de lançamentos e seletividade
O segmento de médio e alto padrão enfrenta um ciclo de maior rigor, caracterizado por desaceleração nos lançamentos, redução na velocidade de vendas e crescimento no volume de distratos (cancelamentos de contratos). A queda nos novos projetos foi generalizada, mas com intensidades distintas.
| Empresa (Ticker) | Variação em Lançamentos |
|---|---|
| Cyrela (CYRE3) | -13% |
| Lavvi (LAVV3) | -34% |
| Helbor (HBOR3) | -57% |
| Even (EVEN3) | -59% |
Nesse contexto, o banco reforça o viés construtivo para Cyrela e Moura Dubeux (MDNE3). Esta última apresentou expansão de 37% nos lançamentos e se destacou no volume comercializado, com alta de 70% no acumulado do ano.
O que isso significa para o investidor
A compressão nos múltiplos reflete uma reprecificação de risco diante de um ambiente macroeconômico ainda em transição. Para o investidor pessoa física, a atual dinâmica exige atenção aos resultados operacionais trimestrais e à trajetória da taxa Selic, que influencia diretamente o custo do financiamento imobiliário e o poder de compra do público-alvo das construtoras. A divergência entre segmentos indica que a seletividade na análise de balanços e no acompanhamento de vendas será determinante para identificar empresas com margens resilientes e fluxo de caixa sustentável.
Riscos em evidência
- Continuidade da pressão de cancelamentos e redução no ritmo de vendas, especialmente nos segmentos de maior ticket, o que pode comprimir margens operacionais.
- Exposição a incertezas políticas internas e volatilidade externa, fatores que tendem a postergar decisões de compra de imóveis novos.
- Risco de execução caso o aumento do ticket médio não sustente as projeções de rentabilidade diante da possível alta nos custos de insumos e mão de obra.
O acompanhamento dos relatórios trimestrais do segundo semestre e a divulgação de novas métricas de vendas serão os catalisadores para validar se a correção de preços já precificou os desafios do setor ou se abre espaço para uma recomposição fundamentada.
