O diretor de tecnologia da Palantir, Shyam Sankar, afirmou que pesquisadores de inteligência artificial passaram a fumar cigarros como forma de sinalizar, uns aos outros, o quanto confiam que a tecnologia vencerá o câncer. A declaração foi feita ao programa Face the Nation, da CBS News, no domingo (11), sem que ele citasse nomes, estudos ou a origem do que descreveu. A medicina oferece o contraponto: fumantes carregam cerca de 25 vezes mais risco de câncer de pulmão do que não fumantes, segundo o CDC.
Uma tese apresentada como aparte
O comentário apareceu de forma lateral, no trecho em que a apresentadora Margaret Brennan insistia em entender por que o executivo dedica tanta atenção ao debate sobre IA. Nenhum pesquisador foi identificado, nenhuma pesquisa foi citada e Sankar não detalhou como tomou conhecimento do hábito.
No mesmo programa, o executivo colocou Sam Bankman-Fried, fundador da FTX, como o rosto mais conhecido do altruísmo eficaz entre os americanos — corrente que propõe direcionar recursos para causas de impacto máximo — e chamou o movimento de culto apocalíptico milenarista. Ele também recorreu à imagem de Blaise Pascal de um vazio em forma de divindade no coração humano, sugerindo que parte desses pesquisadores o preenche com um deus-máquina: a IAG, sigla de inteligência artificial geral, capaz de igualar o desempenho humano em qualquer tarefa.
A conta que a medicina apresenta
O tabagismo responde por cerca de uma em cada três mortes por câncer nos Estados Unidos, segundo o CDC, órgão de saúde pública do país. A fumaça do cigarro reúne pelo menos 69 substâncias reconhecidamente cancerígenas.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Mortes por câncer nos EUA ligadas ao fumo | 1 em cada 3 |
| Substâncias cancerígenas na fumaça | 69 ou mais |
| Risco de câncer de pulmão (fumantes vs. não fumantes) | ~25 vezes |
| Tipos de câncer com risco reduzido ao parar de fumar | 12 |
| Queda do risco adicional de câncer de pulmão | metade, em 10 a 15 anos |
Promessa antiga, confiança minguante
Anunciar a IA como cura do câncer deixou de ser novidade no setor. Em agosto, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, avaliou que a promessa se tornou um lugar-comum, e não uma mensagem capaz de inspirar, e que só resultados concretos de cura conquistariam a confiança do público.
Pesquisa da CBS citada por Brennan ajuda a dimensionar esse ceticismo: 50% dos americanos acreditam que a IA gerará mais problemas do que soluções, 29% esperam o contrário e 21% não souberam responder. Já a parcela que defende restrições governamentais ao uso e ao desenvolvimento da tecnologia chega a 45%.
Fumo como rede de contatos
Para o cofundador da Revamp AI, Stephen Campbell, o cigarro acaba funcionando como uma rede de contatos involuntária entre quem trabalha com IA — um jeito de criar laços e demonstrar pertencimento, e não um hábito nascido de evidência clínica.
O que isso sinaliza para o investidor
A Palantir, empresa de Sankar, vende software de análise de dados para governos e forças armadas, e boa parte de seu negócio está apoiada em IA. A narrativa do setor, portanto, depende cada vez menos apenas de capacidade técnica e cada vez mais de aceitação pública — um ativo intangível que declarações como a do executivo podem corroer.
O pano de fundo macroeconômico segue na mesma direção. Kristalina Georgieva, do FMI, alertou que a IA pode alcançar 40% dos empregos, e especialistas do setor trabalham com a expectativa de um incidente relevante envolvendo IA em até um ano.
Três pontos merecem atenção de quem acompanha o tema:
- Confiança pública se tornou variável de risco para companhias cuja avaliação de mercado depende da narrativa de IA.
- A pressão regulatória tende a crescer conforme a percepção de risco aumenta, e quase metade dos americanos ouvidos na pesquisa quer restrições ao setor.
- Projeções de executivos sobre benefícios futuros da tecnologia carregam incerteza elevada e não substituem métricas de receita, margem e fluxo de caixa.
