Principais pontos
- Na ponta curta, o DI para janeiro de 2028 ficou em 13,675%, com alta de 2 pontos-base.
- Os Treasuries reagiram na hora: o rendimento do título de dois anos, termômetro das apostas para o juro curto, virou para o território positivo e estava em 4,721% às 16h38, alta de 6 pontos-base.
- O economista-chefe da BGC Liquidez, Felipe Tavares, observou que o cenário externo adverso sugeriria abertura da curva, mas o que está no centro das decisões é a eleição.
- A leitura do Ativo Virtual é que parte do recuo dos juros longos não nasce de fundamentos de inflação ou atividade, mas de um prêmio político: a aposta em uma troca de governo capaz de destravar o ajuste fiscal.
As taxas dos DIs de médio e longo prazo fecharam em baixa nesta quarta-feira (16), com o juro para janeiro de 2035 recuando a 14,22% ante o ajuste anterior, de 14,364% — queda de 14 pontos-base. O movimento veio na contramão do cenário externo: o Federal Reserve elevou sua taxa em 25 pontos-base, para a faixa de 3,75% a 4,00%, e o petróleo Brent seguia perto de US$ 106 o barril no fim da tarde. Na ponta curta, o DI para janeiro de 2028 ficou em 13,675%, com alta de 2 pontos-base.
Os DIs (Depósitos Interfinanceiros) são contratos futuros da B3 que servem de referência para o juro esperado em cada vencimento, desenhando a curva a termo. Cada ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual.
O paradoxo: Fed sobe e a curva longa brasileira recua
O Fed anunciou o aumento de 25 pontos-base e sinalizou novos apertos nos próximos meses para conter a inflação americana. Nas projeções dos membros, há indicação de pelo menos mais uma alta de 25 pontos-base em 2026. Na entrevista coletiva, o chair Kevin Warsh afirmou que a inflação norte-americana está "alta demais" e permanece assim por "tempo demais". Os Treasuries reagiram na hora: o rendimento do título de dois anos, termômetro das apostas para o juro curto, virou para o território positivo e estava em 4,721% às 16h38, alta de 6 pontos-base.
Em tese, juro americano mais alto e petróleo acima de US$ 100 abririam a curva brasileira, ou seja, pressionariam as taxas para cima. Foi o oposto do que se viu. O economista-chefe da BGC Liquidez, Felipe Tavares, observou que o cenário externo adverso sugeriria abertura da curva, mas o que está no centro das decisões é a eleição. O mercado trabalha com a sinalização de mudança de favoritismo, em que a oposição pode vencer.
A eleição virou o prêmio embutido na ponta longa
Pesquisas recentes mostram o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em empate técnico com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa pelo Planalto, numericamente à frente em algumas simulações de segundo turno. Flávio tem a preferência da Faria Lima, que enxerga em Lula um obstáculo ao ajuste fiscal. Para essa parcela do mercado, o recuo dos juros longos funciona como antecipação de um cenário com mais disciplina nas contas públicas.
O noticiário do Supremo Tribunal Federal (STF) reforçou esse enquadramento. A corte adiou na terça-feira a decisão final sobre juntar ou não, para análise do plenário, dois casos envolvendo ministros: o de possível abertura de investigação contra Alexandre de Moraes por sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o de abuso de poder e improbidade por parte de André Mendonça. O ministro Flávio Dino pediu vista e paralisou o julgamento. Parte do mercado avalia que a crise, que colocou Moraes na berlinda, tem sido mais favorável a Flávio do que a Lula.
O que muda para quem investe em renda fixa
A curva de DIs é a referência para a precificação de títulos públicos longos, caso dos prefixados e dos papéis indexados à inflação negociados no Tesouro Direto. Quando as taxas longas recuam, as taxas ofertadas nesses títulos tendem a acompanhar o movimento, em sentido descendente. Isso afeta tanto quem planeja novas alocações quanto quem já carrega papéis marcados a mercado — nesse caso, a queda do juro implica valorização do preço unitário.
A leitura do Ativo Virtual é que parte do recuo dos juros longos não nasce de fundamentos de inflação ou atividade, mas de um prêmio político: a aposta em uma troca de governo capaz de destravar o ajuste fiscal. Movimentos dessa natureza, historicamente, costumam ser voláteis, porque pesquisas eleitorais e decisões institucionais podem reverter o prêmio com rapidez.
| Ativo | Taxa em 16/09 | Variação na sessão |
|---|---|---|
| DI janeiro/2028 | 13,675% | +2 pontos-base |
| DI janeiro/2035 | 14,22% | -14 pontos-base |
| Treasury 2 anos | 4,721% | +6 pontos-base |
O que observar: Copom, IBC-Br e a sinalização do Fed
Na noite desta quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) anuncia sua decisão sobre a Selic, hoje em 14%. Tanto a curva quanto os economistas do mercado projetam corte de 25 pontos-base, mas a atenção estará no comunicado, em busca de pistas sobre o encontro seguinte, em novembro.
O pano de fundo doméstico favoreceu o movimento de queda. O IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) recuou 0,2% em julho ante junho na série com ajuste sazonal, resultado pior que a retração de 0,1% projetada por economistas consultados pela Reuters. O dado se somou a uma sequência de números recentes que sugerem perda de força da atividade — cenário que sustenta a expectativa de novos cortes da taxa básica.
No exterior, a sinalização de pelo menos mais uma alta de 25 pontos-base pelo Fed em 2026 mantém o diferencial de juros pressionado, enquanto o Brent perto de US$ 106 preserva o risco inflacionário. É o contraste entre fundamentos externos e preço eleitoral interno que deve comandar a volatilidade da curva brasileira nas próximas semanas.
