Principais pontos

  • O Copom cortou a Selic para 13,75% ao ano na quarta-feira (16), em mais uma etapa do ciclo iniciado em março, e o CDI passou a rondar 13,60%.
  • Treze ações da B3 ainda oferecem dividend yield (o retorno obtido apenas com proventos) acima da renda fixa, segundo dados da Economatica.
  • O levantamento considera papéis do Ibovespa, do Índice de Dividendos (Idiv) e do IBrX 100, com o DY calculado sobre a cotação atual a partir dos proventos dos últimos 12 meses.
  • Cinco das treze companhias são incorporadoras; somadas à Log, são seis papéis expostos ao setor imobiliário.

O Copom cortou a Selic para 13,75% ao ano na quarta-feira (16), em mais uma etapa do ciclo iniciado em março, e o CDI passou a rondar 13,60%. Treze ações da B3 ainda oferecem dividend yield (o retorno obtido apenas com proventos) acima da renda fixa, segundo dados da Economatica. O ranking, porém, esconde o preço: em nove das treze, o provento não cobriu a queda da cotação.

O levantamento considera papéis do Ibovespa, do Índice de Dividendos (Idiv) e do IBrX 100, com o DY calculado sobre a cotação atual a partir dos proventos dos últimos 12 meses. Na prática, nove das treze ações entregaram retorno total negativo no período, somando dividendos e variação de preço. A projeção só se sustenta enquanto a política de dividendos e os lucros se mantiverem.

O yield que sobe porque a ação cai

O dividend yield é uma razão entre provento pago e preço do papel. Quando a cotação recua mais rápido do que o lucro, o indicador sobe sem que a empresa distribua mais — inflação estatística, não geração de caixa.

A lista reflete esse mecanismo. Cinco das treze companhias são incorporadoras; somadas à Log, são seis papéis expostos ao setor imobiliário. A concentração se explica pelo ciclo de juros: o custo de capital elevado derrubou as cotações antes que os resultados sentissem o impacto, elevando o yield pelo lado do denominador.

Azzas 2154 e Grendene: dois retratos do mesmo risco

Na Azzas 2154, o dividend yield de 16,18% convive com a maior perda da lista. O papel derreteu, e não por melhora na distribuição: a empresa anunciou neste mês a cisão que desfaz a fusão entre Arezzo e Grupo Soma, depois de meses de disputa entre os blocos de Alexandre Birman e Roberto Jatahy, que chegou à Justiça e à arbitragem. O lucro recorrente do segundo trimestre caiu mais de 60%.

Na Grendene, o caminho é outro e o resultado parecido. O papel lidera o ranking de DY mais uma vez, agora com retorno total negativo: o yield de 40% não vem de melhora nos proventos, e sim da combinação entre os dividendos extraordinários pagos em 2025 e a queda contínua da cotação. Descontados os eventos não recorrentes, o dividendo histórico da fabricante de calçados fica na faixa de um dígito.

Quatro papéis escaparam — e só um nos dois critérios

Apenas quatro papéis combinaram dividendo acima do CDI com retorno total positivo. Desses, só a Log entregou retorno nas duas pontas: yield elevado e valorização na bolsa. O ritmo, porém, não se repete — o payout voltou ao mínimo obrigatório de 25% neste ano, ante 50% em 2025, para financiar o plano de expansão. A operação segue saudável, com vacância mínima, mas o nível de distribuição não deve se repetir.

SituaçãoPapéisCasos citados
Yield acima do CDI13Azzas 2154, Grendene, Log, Cury, Moura Dubeux
Retorno total negativo9Azzas 2154, Grendene
Yield alto e retorno positivo4Log, Cury, Moura Dubeux
Positivo nas duas pontas1Log

Nas outras três, foi o dividendo que compensou a queda da cotação e manteve o investidor no azul. A Cury tem o perfil mais consistente, com distribuições crescentes ao longo de 2026, sustentadas por lucro e receita em alta, três anos seguidos de aumento nos proventos e payout em torno da metade do lucro. A Moura Dubeux aprovou no fim do ano passado um programa de dividendos em sete parcelas trimestrais, válido até o terceiro trimestre de 2027 — visibilidade rara no setor.

O que muda para quem investe por renda

O yield acima do CDI, isolado, não distingue a companhia que distribui mais lucro daquela cuja ação apenas caiu — em nove dos treze casos mapeados, foi o segundo fenômeno que explicou o número. A ressalva é que a projeção só vale se a política de distribuição e os lucros se mantiverem, e três empresas citadas já sinalizaram mudança de patamar: a Log reduziu o payout, a Grendene teve parte do dividendo inflada por evento não recorrente e a Azzas 2154 atravessa uma reorganização societária.