O Marco e a Velocidade da Deterioração Fiscal
O Departamento do Tesouro dos EUA confirmou o que o mercado já precificava nas curvas de juros globais: a dívida pública americana ultrapassou a barreira psicológica e estrutural de US$ 40 trilhões. O saldo exato, apurado na terça-feira, atingiu US$ 40,047 trilhões. Para compreender a gravidade e a complexidade desse número, a sua composição. Desse total, US$ 32,266 trilhões estão nas mãos do público, o que inclui investidores domésticos, fundos estrangeiros e bancos centrais. Os restantes US$ 7,782 trilhões representam a dívida intragovernamental, referente aos papéis que o governo federal emitiu para si mesmo, como forma de capitalizar os fundos de previdência e assistência social locais.
A velocidade dessa expansão é o que realmente alarma os analistas de risco soberano e gestores de grandes carteiras. Segundo o Comitê para um Orçamento Federal Responsável, a marca de US$ 40 trilhões foi alcançada em menos de cinco meses após o registro de US$ 39 trilhões. Há um contraste histórico gritante que ilustra o colapso da disciplina fiscal americana: o governo dos Estados Unidos levou até o ano de 1981 para acumular seu primeiro US$ 1 trilhão em dívida. Hoje, a máquina pública adiciona trilhões de dólares ao passivo em questão de poucos meses.
A Nova Realidade Orçamentária: Quando os Juros Superam o Pentágono
O ponto de inflexão não reside apenas no estoque absoluto da dívida, mas no seu custo de carregamento. O Tesouro reportou na semana passada um déficit mensal de US$ 432 bilhões em julho, configurando o quarto maior rombo mensal da história do país. Esse resultado foi impulsionado por receitas alfandegárias negativas e pelo crescimento inercial dos benefícios previdenciários e de saúde.
Para o investidor brasileiro, que acompanha de perto o peso dos juros sobre o Orçamento da União, o cenário americano oferece um espelho distorcido, porém altamente alerta. Os Estados Unidos gastam aproximadamente US$ 7 trilhões anualmente. Desses recursos, cerca de 60% estão legalmente travados em programas obrigatórios, que englobam a Previdência Social, o Medicare (saúde para idosos), o Medicaid (saúde para baixa renda) e os cuidados aos veteranos de guerra.
O grande choque estrutural ocorreu no custo da dívida: os gastos com o serviço do endividamento atingiram a marca de US$ 1,1 trilhão. Pela primeira vez no ano fiscal de 2025, o custo dos juros superou o financiamento do Pentágono. Nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026, os juros já ultrapassaram os gastos com o Medicare, tornando-se o segundo maior item do orçamento federal, atrás apenas do sistema de aposentadoria da Seguridade Social. A leitura analítica é clara: o governo perdeu a flexibilidade fiscal. Cortes em gastos discricionários — a menor fatia do orçamento federal — são matematicamente insuficientes para estancar a sangria gerada pelo pagamento de cupons de uma dívida que rola a taxas cada vez mais punitivas.
O envelhecimento da população americana, com a geração baby boom migrando para a inatividade, pressiona structuralmente os fundos da Previdência e do sistema de saúde, enquanto as receitas de impostos sobre a folha de pagamento e a renda mostram-se insuficientes para cobrir esse passivo atuarial crescente.
A Trajetória Partidária e o Déficit Estrutural
A deterioração fiscal americana transcende ciclos políticos e provou ser imune a promessas de austeridade. Quando Donald Trump assumiu seu primeiro mandato em janeiro de 2017, a dívida pública estava em US$ 19,95 trilhões. Sob sua primeira gestão, o endividamento cresceu US$ 7,8 trilhões, com mais da metade desse montante concentrada nos nove meses finais de sua administração, marcados pela resposta fiscal à pandemia. A administração de Joe Biden adicionou US$ 8,4 trilhões ao passivo, impulsionada por pacotes de infraestrutura, subsídios à energia limpa e outras prioridades legislativas do Partido Democrata.
O retorno de Trump ao poder, em janeiro de 2025, não alterou a inércia expansionista do Estado americano. Desde então, a dívida já avançou US$ 3,8 trilhões, totalizando US$ 11,6 trilhões de alta acumulada em seus dois mandatos até o momento. Além disso, o pacote legislativo do segundo mandato de Trump, batizado como "One Big Beautiful Bill", tem projeção do Escritório de Orçamento do Congresso para adicionar mais US$ 4,7 trilhões ao rombo fiscal.
| Marco Fiscal | Variação da Dívida / Custo Estrutural |
|---|---|
| Gestão Trump 1 (a partir de jan/2017) | + US$ 7,8 trilhões |
| Gestão Biden (jan/2021 - jan/2025) | + US$ 8,4 trilhões |
| Gestão Trump 2 (a partir de jan/2025) | + US$ 3,8 trilhões |
| Gasto Anual Total (EUA) | ~ US$ 7 trilhões |
| Pagamento Anual de Juros da Dívida | US$ 1,1 trilhão |
A Intervenção de Emergência na Curva de Juros
Diante da falta de apetite dos credores globais e da fuga de investidores estrangeiros, o Tesouro dos EUA precisou intervir diretamente na própria curva de juros para evitar um colapso nos leilões. Na quarta-feira, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, recorreu a uma manobra de engenharia financeira: anunciou a duplicação do volume de recompra (buyback) de títulos de longo prazo, entre 10 e 30 anos, para pelo menos US$ 4 bilhões por operação. Na prática, o Tesouro está atuando como comprador de última instância na curva longa para artificialmente sustentar os preços dos papéis e comprimir as taxas.
Essa medida é uma resposta direta à escalada dos rendimentos (yields) dos Treasuries de 30 anos, que atingiram na terça-feira os níveis mais altos desde 2007. Dias antes, um leilão de US$ 25 bilhões nesses papéis de longo prazo exigiu o maior rendimento desde 2021, demonstrando a aversão do mercado à nova oferta de dívida.
Para o investidor de renda fixa, o conceito chave para monitorar esse cenário é o prêmio de prazo (term premium) dos títulos de 10 anos. Esse indicador mede a remuneração extra exigida pelo mercado para emprestar ao governo americano por uma década, refletindo o risco de inflação futura e o temor com a oferta massiva de novos títulos. O prêmio subiu nesta semana para o maior nível em mais de uma dúzia de anos. John Canavan, analista-chefe da Oxford Economics, alerta que a demanda estrangeira — que historicamente representa quase um terço de todos os Treasuries em circulação — está caindo de forma consistente ao longo do último ano. Esse movimento deixa a rolagem da dívida nas mãos de compradores domésticos mais sensíveis a preços, o que tende a ampliar a volatilidade do mercado de capitais.
O Impacto na Alocação Global e o Risco para Emergentes
A presidente do Comitê para um Orçamento Federal Responsável, Maya MacGuineas, pondera que esse endividamento não é apenas um registro contábil abstrato, mas um imposto invisível que chega ao bolso do cidadão, agrava a inflação estrutural e limita a capacidade de resposta a crises externas. O declínio fiscal de uma potência global torna-se, assim, uma trajetória previsível e de difícil reversão.
Para o investidor pessoa física no Brasil, a consequência prática desse movimento é o aumento do custo de oportunidade do capital global. Quando a curva longa americana exige prêmios de risco cada vez maiores, a liquidez tende a migrar de ativos de risco e de mercados emergentes em busca da segurança (agora cara) dos Treasuries. A intervenção do Tesouro americano via recompra de títulos mitiga o choque de curto prazo, mas não resolve o descompasso entre as receitas alfandegárias e de renda e os gastos obrigatórios de uma população que envelhece. O cenário impõe prudência redobrada na alocação patrimonial, uma vez que a rolagem da dívida americana continuará a ditar o piso mínimo de remuneração para o risco em qualquer latitude.