Na safra 2026/27, o etanol de milho deve somar 12 bilhões a 13 bilhões de litros no Brasil; em 2035/36, o intervalo projetado pela Pesquisa Econômica do Bradesco é de 23 bilhões a 24 bilhões de litros, conforme o cenário apresentado na 9ª Conferência Nova Cana. No mesmo horizonte, a eletrificação dos veículos tem potencial para retirar 12 bilhões de litros do consumo de gasolina e etanol — os combustíveis do ciclo Otto, que movem os automóveis de passeio. A oferta tem trajetória conhecida; o destino dessa produção, não.
O ponto mais sensível do estudo, porém, não está no combustível e sim no insumo. Para operar a capacidade projetada em 2035, as usinas precisariam de aproximadamente 95 milhões de toneladas de milho, volume que as coloca na mesma fila da pecuária e das exportações do grão. O etanol de milho deixou de ser apenas uma equação de consumo e passou a ser também uma equação de custo de matéria-prima e de abertura de mercados que ainda não existem em escala.
A oferta que já está contratada
Do total de etanol produzido em 2035/36, a fatia do milho deve ficar em 42% a 43%, ainda com capacidade instalada ociosa que poderia ser acionada caso preço e demanda permitam. Os aportes seguem a lavoura: além do Centro-Oeste, há projetos no Matopiba — região de cerrado que abrange áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — e no Sul do país, movimento que tende a encurtar o custo logístico de abastecer essas praças com etanol.
A cana, que sustenta a base do setor, já conta com estrutura consolidada e tem no clima sua principal fonte de incerteza sobre a produtividade. No milho, a dúvida é de outra natureza: dimensionar até onde a expansão consegue ir. O próprio banco trata o mercado de etanol de milho como a maior incógnita do segmento, pela dificuldade de estimar quantos litros essa oferta adicional encontrará para escoar.
95 milhões de toneladas: o novo gargalo está no milho
Com o parque industrial desenhado para 2035, a demanda potencial das usinas por milho se aproxima de 95 milhões de toneladas. A pecuária e o mercado externo compram o mesmo grão, e a avaliação apresentada é de que o cereal tende a ficar mais caro quando a procura doméstica e a internacional avançam juntas. Para manter o milho dentro do país, as usinas podem precisar pagar prêmio, o que pressiona a rentabilidade no longo prazo. O custo da biomassa entra na mesma conta.
O contrapeso está nos coprodutos. As receitas com DDG — grãos secos de destilaria, usados na alimentação animal — e com óleo de milho precisam ser somadas ao resultado das empresas, segundo a avaliação apresentada. Sem elas, a conta do milho ficaria ainda mais apertada.
O cenário em números
| Indicador | Horizonte | Projeção do Bradesco |
|---|---|---|
| Produção de etanol de milho | safra 2026/27 | 12 a 13 bilhões de litros |
| Produção de etanol de milho | 2035/36 | 23 a 24 bilhões de litros |
| Fatia do milho na produção de etanol | 2035/36 | 42% a 43% |
| Demanda de milho das usinas | 2035 | perto de 95 milhões de toneladas |
| Superávit de etanol em Mato Grosso | até 2035 | próximo de 11 bilhões de litros |
| Eletrificados nas vendas de veículos | a partir de 2030 | cerca de 50% |
| Eletrificados na frota | 10 anos | mais de 30% |
| Consumo do ciclo Otto | período do estudo | redução potencial de 12 bilhões de litros |
| Etanol na navegação (mistura de 10%) | até 2035 | 3 a 4 bilhões de litros |
| Diesel consumido pelo agro | anual | cerca de 6 bilhões de litros |
| Potencial de etanol no agro | substituição integral do diesel | perto de 11 bilhões de litros |
Eletrificação retira 12 bilhões de litros da conta
Do lado do consumo, a eletrificação corre mais rápido do que o próprio banco projetava há dois anos. O cenário trabalhado inclui veículos eletrificados — híbridos e híbridos plug-in entre eles — em cerca de 50% das vendas a partir de 2030, e participação superior a 30% da frota em um horizonte de dez anos. Competitividade das montadoras chinesas, chegada de modelos mais acessíveis e a possibilidade de juros menores, que favoreceriam a renovação da frota, sustentam esse avanço.
O efeito sobre o combustível é direto: o estudo calcula que a eletrificação pode eliminar 12 bilhões de litros de demanda do ciclo Otto ao longo do período analisado. O etanol hidratado ainda tem espaço para ganhar participação, sobretudo quando a produção fica próxima de novos mercados consumidores, mas esse avanço ocorreria num mercado de combustíveis pressionado pela eletrificação. Ganhar terreno da gasolina, sozinho, tende a não fechar a conta de longo prazo.
Navegação e máquinas agrícolas: demanda que depende de regulação
Para reduzir a dependência dos automóveis, o transporte marítimo e o maquinário agrícola aparecem como rotas alternativas, com a vantagem de uma demanda mais previsível. Um exercício do banco indica que uma mistura de 10% de etanol na navegação brasileira poderia consumir de 3 bilhões a 4 bilhões de litros até 2035, em cálculo que leva em conta a equivalência energética entre os combustíveis. Tirar esse potencial do papel exige regulamentação, armazenagem e estrutura de mistura nos portos, além de projetos que criem escala de utilização.
No campo, as máquinas movidas a etanol estão em desenvolvimento. O diesel consumido pelo agronegócio a cada ano soma cerca de 6 bilhões de litros, e a substituição integral desse volume levaria o potencial a cerca de 11 bilhões de litros de etanol, conforme os cálculos do banco. Além de ampliar o mercado do biocombustível, esse movimento contribuiria para a segurança do abastecimento e reduziria a exposição do agro às oscilações do mercado de diesel.
O combustível sustentável de aviação, o SAF, completa a lista de oportunidades, mas foi posicionado em um horizonte mais longo, por depender de investimentos adicionais em infraestrutura.
O risco do setor migra da demanda para o custo
A tese de crescimento do etanol de milho, portanto, deixa de ser uma aposta apenas em volume e passa a depender de três variáveis: o preço do grão, o ritmo da eletrificação e a velocidade da regulamentação para usos alternativos. São fatores que não se resolvem no curto prazo e que deslocam o risco do setor da demanda por combustível para o custo de produção e para a capacidade de diversificar clientes.
Para quem acompanha o tema por meio de empresas ligadas ao agronegócio, ao etanol e à cadeia de máquinas e logística, o cenário do Bradesco sinaliza que a expansão anunciada tende a cobrar rentabilidade no meio do caminho: prêmio pago pelo milho, concorrência com pecuária e exportação e excedente regional de etanol, que em Mato Grosso pode chegar perto de 11 bilhões de litros até 2035.
- Safra 2026/27: termômetro da expansão, com produção estimada em 12 bilhões a 13 bilhões de litros de etanol de milho.
- 2030: marco a partir do qual os eletrificados podem representar cerca de 50% das vendas de veículos.
- 2035/36: horizonte em que o milho responderia por 42% a 43% do etanol e as usinas demandariam perto de 95 milhões de toneladas do grão.
Os mercados alternativos — navegação, máquinas agrícolas e, mais adiante, a aviação — são hoje a peça que daria às usinas previsibilidade de planejamento e menos dependência da disputa com a gasolina pelo consumidor. Enquanto eles não se converterem em contratos, infraestrutura e regras claras, cada litro adicional de etanol tende a pressionar ainda mais a busca por compradores.
