Tailândia abre ETFs de cripto ao varejo, e a demanda é a incógnita

A partir de sexta-feira, a bolsa de valores da Tailândia passa a admitir ETFs de Bitcoin (BTC) e Ether (ETH), abrindo ao investidor de varejo local uma via regulada de exposição a criptomoedas. A projeção da CoinShares, gestora especializada em ativos digitais, é bem mais contida: captação inicial estimada em dezenas de milhões de dólares, patamar distante de uma corrida bilionária.

Um ETF é um fundo negociado em bolsa, com cotas compradas e vendidas como ações. Na versão à vista, o veículo mantém o ativo físico sob custódia de terceiros. É esse formato que a Tailândia libera agora — e é ele que terá de convencer o investidor local a trocar rotas que já conhece.

A concorrência já está posta

Para a CoinShares, o obstáculo é que os tailandeses não estão diante de terreno virgem. Quem quer exposição a cripto já pode comprar fundos internacionais ou negociar os próprios tokens diretamente. Os ETFs locais teriam, então, de atrair um público novo ou apresentar motivo convincente para que o investidor migre de rota.

Existe ainda um passo burocrático no caminho. Antes de qualquer negociação começar, cada produto precisa obter o aval do regulador e fechar os arranjos de custódia e de distribuição.

Hong Kong serve de contraponto

Para calibrar o que se pode esperar, a CoinShares usa Hong Kong como referência. A cidade é um dos principais centros financeiros do mundo e, ainda assim, concentra apenas 0,42% dos ativos em ETPs de criptomoedas do planeta. A sigla ETP designa produtos negociados em bolsa, categoria que engloba ETFs e veículos assemelhados.

O volume global dá a dimensão da assimetria. Em dados da própria CoinShares referentes ao fim de setembro, esses produtos administravam US$ 172,9 bilhões, dos quais US$ 733 milhões estavam em veículos com sede em Hong Kong.

IndicadorValor
Ativos globais em ETPs de criptoUS$ 172,9 bilhões
Ativos em veículos de Hong KongUS$ 733 milhões
Participação de Hong Kong0,42%

A conclusão que a casa extrai desses números é que o tamanho do mercado global não se converte automaticamente em apetite local. Uma praça com a densidade financeira de Hong Kong ficou com uma fatia inferior a meio ponto percentual, mesmo dispondo de anos de operação e de uma base de investidores sofisticados.

Varejo ganha acesso; rota externa fica restrita

As regras criam dois regimes distintos. O investidor pessoa física tailandês passa a poder comprar ETFs de cripto listados na bolsa local. Do outro lado, os veículos sediados no exterior deixam de estar disponíveis ao público amplo: quem quiser adquiri-los por uma corretora do país precisará se enquadrar como investidor institucional ou como pessoa de patrimônio líquido ultraelevado.

Esse arranjo encurta o universo de compradores dos produtos internacionais e, ao mesmo tempo, deixa os veículos locais sem concorrência direta dentro do mercado doméstico — algo sensível em um segmento em que tamanho e liquidez influenciam custos.

Duas gestoras aparecem como candidatas

A MFC Asset Management estreou em 2024 o Bitcoin ETF Tracker Fund, de código MBTCETF-UI, que aplica no iShares Bitcoin Trust (IBIT), da BlackRock, líder do segmento de ETFs à vista de Bitcoin por patrimônio. A ONE Asset Management, por sua vez, tornou-se naquele mesmo ano a primeira gestora tailandesa com aval regulatório para um fundo ligado a um ETF de Bitcoin.

Nenhuma das duas confirmou planos de lançar um ETF de cripto listado localmente, e não há prazo divulgado para o início das negociações.

O que observar daqui para frente

  • Aprovação. Nenhum produto vai a mercado sem o aval do regulador tailandês.
  • Custódia e distribuição. Sem esses arranjos fechados, o ETF não sai do papel.
  • Migração de investidores. O deslocamento de fundos estrangeiros e da negociação direta depende de custo, liquidez e conveniência das novas opções.

A experiência de Hong Kong indica que regras claras, isoladamente, não produzem fluxo. O caso tailandês será um teste de execução: interessa menos a data de estreia e mais o tamanho das primeiras captações, que a CoinShares projeta modestas.