Os custos de financiamento da França encostaram em 5% ao ano nos títulos de 10 anos e permanecem ao redor de 4,85%, depois de estarem abaixo de 4% há apenas dois meses, em um movimento que já representa o patamar mais elevado em quase 25 anos e recolocou a segunda maior economia da União Europeia no centro do debate sobre sustentabilidade fiscal no continente.

Segundo a fonte, a perda de confiança dos investidores reflete a combinação de endividamento crescente, endividamento cada vez mais caro e impasse político prolongado. Na sexta-feira, o adicional de retorno cobrado para carregar papel francês de 10 anos no lugar do equivalente italiano bateu recorde, invertendo uma hierarquia tradicional do mercado europeu. Para quem acompanha ativos globais a partir do Brasil, a consequência tende a aparecer em custo de capital mais alto na Europa, moeda comum mais frágil e prêmio de risco maior para bolsas e crédito corporativo da região.

Retorno perto de 5% e inversão incomum com crédito privado

A reprecificação foi rápida e concentrada nas últimas semanas. A liquidação de papéis soberanos franceses empurrou as taxas para cima, apertou condições financeiras e alterou apostas sobre o rumo dos juros nas grandes economias, com investidores reduzindo expectativas de novos aumentos por bancos centrais diante do aperto transmitido pelo mercado.

Um dos sinais mais atípicos está na relação entre risco soberano e risco corporativo. Rendimentos de obrigações emitidas por diversas companhias francesas passaram a operar abaixo dos yields de títulos do governo com prazo comparável, algo fora do padrão, já que normalmente o Estado funciona como referência mínima de remuneração dentro de cada país. O índice CAC 40, que reúne as principais ações listadas em Paris, acumula recuo próximo de 10% nos últimos dois meses, refletindo a mesma mudança de percepção que atingiu a renda fixa.

A gestora Pimco, uma das maiores do mundo em renda fixa, informou na semana passada que segue com posição significativamente abaixo do mercado em papéis franceses, apostando na continuidade da pressão. O dado ajuda a entender por que qualquer estabilização recente, como a reação positiva de sexta-feira após declarações da direção do Banco Central Europeu, ainda não reverteu a tendência de cautela.

Moeda fraca e temor de contágio lembram Grécia de 15 anos atrás

O episódio ultrapassou as fronteiras francesas. Os diferenciais de rendimento exigidos para comprar dívida da Itália e da Grécia, conhecidos no mercado como spreads, também avançaram nas últimas semanas, enquanto o euro perdeu força à medida que o receio ligado a Paris se espalhou. Neste mês, a divisa comum desvalorizou-se em relação a todas as demais moedas do G10.

Para a Europa, o roteiro desperta o pesadelo da crise grega de cerca de quinze anos atrás, que quase fragmentou a zona do euro. O receio principal entre especialistas é o de transmissão para papéis de outros países, com deterioração simultânea de confiança, câmbio e financiamento.

A França, porém, amplia a escala do teste. Membro fundador do bloco que originou a União Europeia e tradicional agente estabilizador, o país soma economia de €3 trilhões e estoque de dívida em torno de €3,6 trilhões, aproximadamente dez vezes o volume carregado pela Grécia em 2010. O tamanho transforma qualquer dificuldade de rolagem ou correção fiscal em tema sistêmico, e não apenas local.

Há, ao mesmo tempo, amortecedores que não existiam da mesma forma em 2010. Paris mantém acesso a mercado, os bancos — grandes detentores de papéis soberanos franceses — operam com capitalização superior à daquele período e a Europa conta hoje com mecanismos de socorro mais robustos. A capacidade de ação coordenada, contudo, parece limitada: a Alemanha lida com obstáculos próprios e o Banco Central Europeu mantém o foco no combate à inflação, sem sinalizar disposição para afrouxar a política monetária ou desenhar socorro emergencial dirigido a um único país.

Autoridades do BCE afirmam não enxergar necessidade de instrumentos extraordinários no momento. A presidente Christine Lagarde teria dito a ministros das Finanças, em encontro reservado na semana passada, que a instituição dispõe de ferramentas para estabilizar cotações se preciso. O integrante da diretoria do Bundesbank Michael Theurer avalia que não existe atualmente uma crise sistêmica de dívida soberana, embora os riscos tenham aumentado de forma relevante.

Dívida acima de 120% do PIB e juros maiores que educação

Os desequilíbrios franceses não surgiram de repente e tampouco são exclusivos entre economias avançadas, mas a persistência da piora terminou por alarmar o mercado. O país não registra superávit orçamentário há mais de cinquenta anos. A dívida pública deve ultrapassar 120% do PIB nos próximos doze meses, ante patamar inferior a 100% em 2019.

Métrica fiscal da FrançaValor
Economia€3 trilhões
Estoque da dívidacerca de €3,6 trilhões
Dívida em relação ao PIB em 2019menos de 100%
Dívida projetada em 12 mesesacima de 120% do PIB
Conta de juros em 2027acima de €90 bilhões
Meta de déficit para 20275%
Plano apresentado por Marine Le Pen3,7% no próximo ano

A conta de juros deve superar €90 bilhões em 2027, ultrapassando inclusive o orçamento anual da educação e absorvendo fatia crescente dos recursos públicos. O órgão independente que acompanha as finanças francesas alerta para o perigo de uma espiral de endividamento, situação em que o aumento dos encargos exige mais emissões, que por sua vez elevam novamente os juros.

A trajetória ajuda a explicar a desconfiança. Ao assumir em 2017, Emmanuel Macron prometeu tirar Paris da armadilha dos déficits com redução de tributos sobre empresas e reformas estruturais, e os primeiros resultados foram positivos. Políticas que lhe renderam o rótulo de presidente dos ricos, porém, alimentaram a insatisfação popular que desaguou nos protestos dos Coletes Amarelos em 2018 e 2019. Em seguida, a pandemia e o choque inflacionário demandaram centenas de bilhões de euros em suporte a famílias e empresas, após anos de estímulo ao gasto em resposta a várias crises recentes.

A fragmentação surgida das eleições legislativas de 2024 agravou o quadro. Raros pontos de convergência entre extrema esquerda e extrema direita serviram apenas para derrubar gabinetes minoritários que tentavam promover consolidação. O atual primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, enfrenta o mesmo dilema que desgastou antecessores: corrigir as contas exige contenção de despesas e elevação de tributos, medidas impopulares para o eleitor comum, em momento no qual a desaceleração econômica já comprometeu os objetivos fiscais.

Neste ciclo, o governo propôs forte contenção de gastos para 2027 apenas para buscar déficit de 5%, meta que será descumprida neste ano. A líder da extrema direita, Marine Le Pen, tentou atenuar parte do ceticismo ao divulgar programa que, segundo ela, levaria o déficit a 3,7% já no próximo ano. Investidores receberam bem a sinalização, mas prevalece forte dúvida sobre a viabilidade de ajuste dessa magnitude em prazo tão curto. O ministro das Finanças, Roland Lescure, voltou a dizer que Paris não precisa de intervenção divina para sair da crise e, questionado em Londres sobre qual conselho daria ao sucessor, respondeu com apelo à coragem para adotar medidas corretas mesmo sob risco eleitoral.

Protestos estudantis, orçamento travado e eleição presidencial em sete meses

Longe das mesas de operação, a crise fiscal convive com pressão social intensa. Centenas de milhares de jovens participam de manifestações em todo o país, com episódios de violência, milhares de detenções e centenas de feridos entre manifestantes e policiais. Os atos começaram no fim de setembro, espalharam-se nacionalmente e ganharam nova convocação para terça-feira.

Estudantes pedem mais verbas para enfrentar superlotação de salas e deterioração da infraestrutura escolar, além de criticar a opção do governo por ampliar despesas militares enquanto congela outras rubricas. A pauta imediata gira em torno de €10 bilhões, equivalentes a R$55 bilhões, e inclui a destinação de cerca de 3 mil professores para escolas com carência de profissionais, promessa anunciada na semana passada e considerada insuficiente pelos organizadores.

O embate chegou à Assembleia Nacional, onde o deputado da esquerda radical Louis Boyard, de 26 anos, confrontou o ministro da Educação, Edouard Geffray, com cobranças sobre as demandas da juventude e a necessidade de abrir os cofres públicos. A liderança sindical estudantil secundarista, representada por Marius Mesnil, afirma que o movimento não pretende definir a origem dos recursos e reivindica apenas condições dignas de estudo. Em Estrasburgo, o estudante de 17 anos Sohan Boudjadi relatou dificuldade em manter esperança diante de um sistema que, em sua visão, prejudica pessoas e famílias.

Com a disputa presidencial marcada para daqui a sete meses e Macron impedido de concorrer a novo mandato, Marine Le Pen e o esquerdista Jean-Luc Mélenchon passaram a capitalizar o descontentamento, ambos com promessa de ruptura com o modelo econômico da última década. Um dos candidatos defende objetivos fiscais vistos por analistas como pouco críveis, enquanto outro levanta a hipótese extrema de cancelamento de dívidas. O ex-ministro das Finanças Michel Sapin, que comandou a pasta nos anos 1990 e entre 2014 e 2017, descreve uma combinação de atividade fraca, gravidade orçamentária e incerteza eleitoral, na qual a instabilidade política alimenta e amplia temores concretos.

Para o investidor brasileiro com exposição global, o ponto sensível está no calendário. As discussões sobre orçamento, concentradas agora, devem se estender até a eleição de 2027 e além, mantendo a França sob vigilância contínua. Esse horizonte prolongado tende a sustentar volatilidade em juros europeus, câmbio e ações francesas, com potencial de respingo em carteiras diversificadas e em fundos com parcela aplicada no exterior. Acompanhar a evolução dos spreads, a trajetória da dívida em proporção do PIB e os sinais do BCE sobre eventual estabilização pode indicar se o mercado caminha para acomodação ou para nova rodada de estresse.