O rendimento do título de dez anos do Tesouro americano voltou a superar 5,2% nesta semana, num movimento que soma 130 pontos-base desde março e que a Verde Asset Management — gestora de Luis Stuhlberger — trata como bastante significativo. Na carta mensal mais recente, a casa descreve um ambiente externo mais adverso e aponta sinais de desgaste no apetite global por risco.
O que sustenta as bolsas enquanto a taxa longa sobe
Um ponto-base corresponde a um centésimo de ponto percentual — cem deles formam 1 ponto. Os Treasuries, títulos da dívida pública dos Estados Unidos, funcionam como referência de preço para boa parte dos ativos globais, e a pressão acumulada desde março não ficou restrita ao mercado americano: alcança todas as economias desenvolvidas e já começa a aparecer em outras classes de ativos. O que tem evitado quedas mais fortes nas bolsas, na leitura da gestora, é o crescimento dos lucros corporativos, ainda bastante robusto.
Em outubro, o juro do papel de 30 anos passou de 5,6%, maior nível desde 2002, e a ata da última reunião do Federal Reserve sinalizou que os dirigentes pretendem elevar os juros mais uma vez antes do fim do ano.
Quatro causas que a Verde atribui ao juro longo
A gestora distribui a responsabilidade pela escalada das taxas longas entre quatro fatores. O encarecimento do petróleo e de seus derivados, num ambiente de conflitos entre Estados Unidos e Irã e entre Ucrânia e Rússia, abre a lista. O populismo fiscal disseminado nas economias desenvolvidas aparece em seguida. O terceiro item é o aperto monetário: o Fed subiu os juros em 0,25 ponto em setembro e adotou discurso duro sobre a continuidade do ciclo. Por último, a demanda sem precedentes por capital para financiar investimentos em inteligência artificial.
Um mês antes, a casa já projetava taxas longas pressionadas por mais tempo, dado o baixo apetite político para conter o populismo fiscal. Naquela carta, apontava o primeiro sinal de repressão financeira nas economias desenvolvidas e destacava ouro e prata como ativos importantes nesse tipo de ambiente — alocação que segue mantida.
Setembro: fundo rende 0,26% contra CDI de 1,08%
O resultado do fundo em setembro dá a medida do que o ambiente externo cobrou. A carteira rendeu 0,26%, enquanto o CDI ficou em 1,08%. As perdas vieram de commodities, do juro real americano e da bolsa global, e superaram os ganhos com ações brasileiras e com posições de valor relativo em juro real — estratégia que busca capturar distorções entre papéis semelhantes. No acumulado do ano, a vantagem do fundo sobre o CDI encolheu de 1 ponto percentual, no fim de agosto, para 0,11 ponto.
Ibovespa sobe 8,8% na semana do primeiro turno
No Brasil, o quadro mudou de tom com o primeiro turno das eleições. O senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na apuração, e o mercado reduziu os prêmios de risco exigidos para carregar ativos locais. No pregão seguinte, o Ibovespa avançou 7,7% e fechou a semana com ganho de 8,8%, acima dos 209 mil pontos.
Fed decide em 28 de outubro; carteira mantém juro real nos EUA
A agenda até o fim do ano tem um ponto de checagem: a decisão do Federal Reserve marcada para 28 de outubro, que deve confirmar ou não a nova alta sinalizada na ata. Enquanto isso, a gestora ampliou de forma marginal a exposição a ações brasileiras e manteve a alocação internacional. Nos Estados Unidos, segue aplicada em juro real; no Brasil, não carrega posições direcionais em renda fixa. As proteções estruturais do portfólio (hedges) e a exposição a crédito local foram preservadas.
Para quem investe a partir do Brasil, a consequência passa pela referência de preço global. Juro longo mais alto nos Estados Unidos tende a elevar o custo do capital mundo afora e a manter o prêmio exigido para carregar risco em bolsas e renda fixa — pressão que, na carta, já aparece nos resultados do próprio fundo. O ponto de atenção para os próximos meses é se a alta das taxas longas continua a se transmitir aos demais ativos ou se os lucros corporativos seguem absorvendo o impacto.
Os números da carta
| Indicador | Nível citado |
|---|---|
| Treasury de 10 anos | acima de 5,2% nesta semana |
| Treasury de 30 anos | acima de 5,6%, maior nível desde 2002 |
| Alta do juro de 10 anos desde março | 130 pontos-base |
| Alta concentrada em setembro | 54 pontos-base |
| Alta do Fed em setembro | 0,25 ponto |
| Próxima decisão do Fed | 28 de outubro |
| Fundo Verde em setembro | 0,26% |
| CDI em setembro | 1,08% |
| Vantagem sobre o CDI no ano | de 1 ponto para 0,11 ponto |
| Ibovespa na semana do primeiro turno | +8,8%, acima de 209 mil pontos |
