A maior invasão já registrada no mercado de criptoativos começou com uma assinatura aparentemente legítima. Na quinta-feira (29), criminosos retiraram US$ 6,3 bilhões da Binance, e US$ 2,5 bilhões desse total saíram de uma única carteira da corretora em menos de quatro minutos, com a ajuda de um recurso que o Ethereum estreou em maio de 2025 para simplificar a vida do usuário: a EIP-7702. O caso mistura falha de infraestrutura, contrato inteligente malicioso e uma pergunta que a indústria vinha adiando: quanta conveniência a custódia aguenta antes de virar brecha?
Como a EIP-7702 virou vetor de ataque
Para entender o episódio, é preciso separar dois modelos de carteira no Ethereum. As tradicionais respondem a uma chave privada: sem ela, nada se move. As baseadas em contrato inteligente — programas que rodam sozinhos na rede — aceitam regras mais elaboradas, como limite de gasto ou agrupamento de várias transferências num único clique.
A EIP-7702, uma das estrelas da atualização Pectra, aproximou os dois mundos. Uma carteira comum passou a poder usar funções de contrato sem migrar saldo para outro endereço — na prática, delegando a execução de um código externo, inclusive a terceiros que paguem a taxa de rede no lugar do dono.
O ponto sensível é a persistência. Uma delegação concedida continua valendo até ser revogada ou substituída. Se o código do outro lado for malicioso, ele movimenta o saldo como se fosse o titular, sem senha nova e sem confirmação a cada envio.
A linha do tempo do saque
O alvo foi a carteira batizada de Binance 14. O criminoso preparou um contrato desenhado para sugar os fundos automaticamente e, às 17h20 de quinta-feira (horário de Brasília), enviou uma transação com 50 autorizações digitais assinadas pela própria carteira da corretora. Todas apontavam o controle para o contrato do invasor.
O volume tinha explicação técnica. Como aquele endereço processava muitas operações, o contador de transações — o nonce — mudava o tempo todo. Assinar 50 valores consecutivos desse contador elevava a chance de ao menos uma ser aceita pela rede. Foi o que aconteceu.
Quatro minutos depois, às 17h24, saíram 167.464 ETH e mais 63 tokens, incluindo cerca de US$ 1,6 bilhão em USDT. O sangramento não parou ali: como os sistemas da Binance continuavam mandando depósitos para a carteira já comprometida, novas retiradas ocorreram às 18h04 e às 18h44.
Segundo a TRM Labs, firma de análise de blockchain, o invasor usou o mesmo controle para movimentar aproximadamente US$ 823 milhões em USDC de outro endereço, a Hot Wallet 34. A autorização maliciosa ficou de pé por quase quatro horas e só foi revogada na madrugada de sexta-feira.
Os números do maior roubo da história cripto
| Métrica | Valor |
|---|---|
| Total desviado da Binance | US$ 6,3 bilhões |
| Saída da carteira Binance 14 | cerca de US$ 2,5 bilhões |
| Ethereum retirado | 167.464 ETH |
| Outros tokens movimentados | 63 |
| USDT envolvido | cerca de US$ 1,6 bilhão |
| USDC movimentado via Hot Wallet 34 | cerca de US$ 823 milhões |
| Bitcoin transferido | 18.270 BTC |
| Ativos congelados até sexta | cerca de US$ 3 bilhões |
| Autorizações na transação inicial | 50 |
| Janela do saque principal | menos de 4 minutos |
| Tempo com autorização ativa | quase 4 horas |
| Ataque anterior atribuído ao mesmo grupo (Bybit, fev/2025) | US$ 1,5 bilhão |
A pergunta que a blockchain não responde
Os registros on-chain mostram o dinheiro saindo; não mostram como o criminoso obteve assinaturas válidas. E esse é o nó, porque a EIP-7702 exige autorização legítima da carteira que será modificada — não existe tomar um endereço sem uma rubrica reconhecida pela rede.
Richard Teng, co-CEO da Binance, afirmou na sexta-feira que as primeiras apurações apontavam para o comprometimento do computador de um engenheiro de DevOps da empresa, com suspeita inicial de acesso a um contêiner de serviços usado pela corretora. A investigação posterior encontrou outros pontos de comprometimento, o que indica um ataque mais complexo do que se supunha.
A Binance sustenta que não há evidência de vazamento das chaves privadas das carteiras e ainda não conseguiu determinar como os invasores produziram as autorizações usadas em redes diferentes. Uma das hipóteses em análise é o comprometimento da infraestrutura que assina transações — ou seja, os próprios sistemas da corretora teriam emitido permissões de aparência legítima.
Essa leitura ganha força porque o ataque não ficou restrito ao Ethereum. Os criminosos também transferiram 18.270 bitcoins, centenas de milhões de XRP e recursos em carteiras de redes que sequer usam a EIP-7702, casos de Bitcoin, Solana e Tron. A atualização do Ethereum explica parte do saque, não a invasão inteira.
O rastro que aponta para a Coreia do Norte
A TRM Labs identificou semelhanças com ataques anteriores atribuídos a hackers norte-coreanos, entre eles o assalto de US$ 1,5 bilhão contra a Bybit em fevereiro de 2025. A firma de análise afirma ter elevada confiança no envolvimento do mesmo grupo criminoso. A autoria, porém, ainda não foi confirmada pela Binance.
Um risco que já estava no radar
O episódio reacendeu o debate sobre a EIP-7702, proposta que teve o cofundador do Ethereum Vitalik Buterin entre seus autores e que busca reduzir etapas para usar aplicações descentralizadas. A documentação técnica do próprio padrão reconhece o perigo da delegação de permissões: um contrato autorizado recebe poderes amplos para agir em nome da carteira.
Em junho de 2025, a casa de trading Wintermute verificou que mais de 80% das delegações feitas via EIP-7702 apontavam para cópias de um mesmo contrato malicioso, montado para transferir fundos automaticamente. Não se trata, portanto, de uma vulnerabilidade que permita roubar criptomoedas de qualquer usuário. O risco nasce quando uma autorização válida é entregue a código hostil — por golpe que induz a assinatura ou por comprometimento de quem gera essas assinaturas. No caso da Binance, as investigações apontam para a segunda hipótese.
O que isso significa para o investidor
O primeiro recado é sobre risco de contraparte. Quem mantém criptoativos em corretora não depende apenas da cotação: depende da disciplina operacional de assinatura, do monitoramento de permissões e da capacidade de reagir em minutos. A autorização maliciosa ficou ativa por quase quatro horas, janela em que três saques distintos ocorreram — um sinal de que detecção e revogação precisam ser automáticas, não manuais.
O segundo recado é sobre a natureza da recuperação. Cerca de US$ 3 bilhões já foram congelados, principalmente com apoio dos emissores de stablecoins, que têm poder de bloquear endereços. Congelar, porém, não é devolver: o valor bloqueado não necessariamente volta ao caixa da corretora nem aos clientes. A Binance afirma que cobrirá as perdas com recursos próprios e com o SAFU, seu fundo de proteção ao usuário.
O terceiro recado atinge quem usa carteiras com delegação habilitada. Permissões antigas seguem válidas até ser revogadas, e revisar esse histórico deixou de ser preciosismo técnico para se tornar higiene básica de custódia. A conveniência de agrupar transações e delegar taxas tem preço, e o preço é a necessidade de auditar periodicamente quem tem poder sobre o saldo.
Por fim, o episódio não condena a segurança do Ethereum nem invalida a EIP-7702 como projeto de usabilidade. Ele desloca o foco para o elo humano e operacional: uma funcionalidade criada para facilitar a vida do usuário amplia o estrago quando os mecanismos de autorização são comprometidos. Em um mercado que já acumula perdas bilionárias em ataques sucessivos, a lição prática é que a camada de assinatura — e não apenas a chave privada — virou o alvo prioritário dos criminosos.
