Um tombo de 13,88% em uma única sessão — o maior desde a pandemia — e perda acumulada de 14% em cinco pregões levaram o Ibovespa a 176.608 pontos. O dado central do relatório do Itaú BBA, porém, não é a queda em si: com a liquidação, o índice passou a ser negociado a 8,1 vezes o lucro projetado, contra 10 vezes na média dos últimos dez anos. Na prática, o investidor passou a pagar R$ 8,10 por cada R$ 1,00 de lucro esperado para os próximos 12 meses.

O ponto mais fino do documento aparece quando as duas maiores companhias da Bolsa saem da conta. Sem Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), o índice negocia a 9 vezes o lucro projetado — mais de 1,5 desvio-padrão abaixo da referência histórica de 11,9 vezes. O desvio-padrão, aqui, é só a régua que mede o quanto o múltiplo está distante do padrão: quanto maior a distância, mais fora do normal está o preço. O barateamento, portanto, não se explica apenas pelas gigantes de commodities.

Onze dos 16 setores e 65% das companhias fora da média

A amplitude do movimento aparece em dois recortes do documento. Dos 16 setores acompanhados pelo Itaú BBA, 11 negociam abaixo de suas médias históricas. Em paralelo, quase 65% das empresas do Ibovespa carregam múltiplos inferiores à média dos últimos cinco anos.

A dispersão dentro do índice também merece atenção. Enquanto o indicador de small caps — ações de menor capitalização de mercado, mais sensíveis ao ciclo doméstico — cedeu 25% no período, as áreas ligadas a commodities ficaram mais protegidas: papel e celulose, agronegócio e mineração aparecem entre os destaques positivos.

Educação, varejo, transporte e saúde concentram os maiores descontos

Os setores mais penalizados são justamente os de receita doméstica. Educação, varejo, transporte e saúde operam entre 36% e 52% abaixo de suas médias históricas, segundo o banco. Já os múltiplos mais comprimidos da Bolsa estão em construção civil, educação e petróleo e gás.

As sete ações e a métrica usada para cada uma

Três indicadores organizam a lista do Itaú BBA. A taxa interna de retorno (TIR) real representa o rendimento anual esperado de um ativo já descontada a inflação. O dividend yield mostra quanto uma empresa distribui em proventos diante do preço da ação. O FCF yield compara o caixa livre gerado com o valor de mercado.

EmpresaTickerMétrica citada pelo banco
SabespSBSP3TIR real entre 12,4% e 18,1%
OrizonORVR3TIR real entre 12,4% e 18,1%
AxiaAXIA3retorno real estimado de 14,8%
CuryCURY3dividend yield de 12,9% (2027) e 14,9% (2028)
XP Inc.XP (BDR XPBR31)7 vezes o lucro projetado; dividend yield de cerca de 7% em 2027
Rede D'OrRDOR3desconto de 35% frente ao histórico
PetrobrasPETR4dividend yield de aproximadamente 12% em 2027; FCF yield de 17%

No grupo de concessões e utilities, a faixa de retorno real atribuída a Sabesp e Orizon fica bem acima da taxa real de longo prazo da economia brasileira. No imobiliário, a Cury se destaca pela capacidade de geração de dividendos. No financeiro, a XP aparece com o múltiplo de 7 vezes o lucro projetado associado a um rendimento de proventos próximo de 7% para 2027. Na saúde, a Rede D'Or carrega desconto de 35% diante do próprio histórico. E a Petrobras segue na seleção pelo critério de geração de caixa, com FCF yield de 17% projetado.

Utilities e shoppings como substitutos de renda fixa

Uma parte do relatório trata da preferência tática por setores defensivos — aqueles cuja receita oscila menos com o ciclo — e por companhias com caixa robusto. No grupo que o banco classifica como bond proxies, ações usadas por investidores como alternativa à renda fixa por distribuírem fluxo previsível, utilities e shoppings passaram a oferecer retornos implícitos bastante superiores ao juro real de longo prazo.

O Itaú BBA cita Orizon (ORVR3), Equatorial (EQTL3), Copasa (CSMG3), Axia (AXIA3) e Sabesp (SBSP3) entre as empresas com os maiores retornos reais da Bolsa no momento.

O que o desconto muda para quem já tem exposição

O próprio relatório reconhece que a volatilidade de curto prazo segue elevada. Ou seja: múltiplo baixo não funciona como piso para preço de ação, e novas revisões de lucro podem manter o mercado pressionado mesmo depois de uma correção dessa magnitude.

A régua de comparação, ainda assim, mudou. Um índice a 8,1 vezes lucro, com 11 de 16 setores abaixo do histórico, pode indicar que parte do pessimismo já está embutida nas projeções — o que não elimina o risco, apenas desloca o foco. A conclusão do banco é que a correção já recolocou boa parte do mercado brasileiro em patamares de valuation considerados atrativos, com ênfase em quem prioriza geração de caixa, dividendos e ativos defensivos.