Principais pontos

  • Apenas 10% dos profissionais relatam que seus clientes pretendem elevar a exposição em renda variável, uma retração de 11 pontos percentuais frente a julho.
  • A estimativa média dos assessores para o Ibovespa — o principal indicador de desempenho das ações negociadas na B3 — no fim de 2026 caiu para 172 mil pontos, ante 184 mil na pesquisa anterior.
  • A instabilidade política e eleitoral aparece logo em seguida, com 71%, avanço de 8 pontos e o maior nível já registrado para esse item na série.

A apetite por risco dos investidores atendidos por assessores da XP despencou ao menor patamar desde maio de 2023, impulsionado pela correção da Bolsa brasileira e pela sombra do pleito presidencial. Apenas 10% dos profissionais relatam que seus clientes pretendem elevar a exposição em renda variável, uma retração de 11 pontos percentuais frente a julho.

O teto do Ibovespa encolhe para 2026

A deterioração do humor não se limita ao fluxo de curto prazo; ela altera a bússola de longo prazo do mercado. A estimativa média dos assessores para o Ibovespa — o principal indicador de desempenho das ações negociadas na B3 — no fim de 2026 caiu para 172 mil pontos, ante 184 mil na pesquisa anterior. O número passa a prever queda ante o desempenho atual, após o índice subir na esteira de um dólar mais fraco e, mais recentemente, de um IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15, medidor de inflação) mais baixo que as projeções. Na manhã desta quarta-feira, a referência já rondava os 176 mil pontos.

A mudança de expectativa fica clara nas faixas de projeção. O intervalo entre 150 mil e 170 mil pontos passou a ser o mais citado, alcançando 45% das menções. Na outra ponta, a fatia que espera o índice abaixo de 170 mil pontos saltou para 50%, enquanto aqueles que projetam um cenário acima de 200 mil pontos encolheu para apenas 2%.

O ruído eleitoral domina a percepção de risco

O levantamento, realizado entre 7 e 23 de agosto com 103 respostas de assessores afiliados à XP e assinado por Fernando Ferreira, Raphael Figueredo, Caio Souza e Antonio Mello, escancara o peso do calendário político. A XP repetiu uma pergunta feita em dezembro de 2025 sobre a influência do cenário eleitoral, e 63% dos assessores relatam algum grau de impacto nas carteiras, ante 57% oito meses antes. A resposta mais frequente, com 33% das menções, aponta alguma movimentação sem mudanças significativas. Logo atrás, 30% afirmam que os clientes já se posicionam de forma relevante, ante 22% em dezembro. A fatia que diz que o pleito ainda não influencia, mas deve ganhar força, caiu de 37% para 28%, enquanto apenas 9% acreditam que não haverá afetação.

O tema assume proporções inéditas na matriz de riscos. Riscos fiscais no Brasil seguem como a principal preocupação, citados por 79% dos entrevistados, alta de 6 pontos percentuais. A instabilidade política e eleitoral aparece logo em seguida, com 71%, avanço de 8 pontos e o maior nível já registrado para esse item na série. Juros mais altos que o esperado no Brasil aparecem em terceiro, com 41%, enquanto riscos geopolíticos e guerra recuaram fortemente, de 31% para 18%. O Ibovespa acumulou perda de 3,9% em reais em agosto até o dia 25.

Fator de RiscoMenções AtuaisVariação Mensal
Risco Fiscal79%+6 p.p.
Instabilidade Política71%+8 p.p.
Juros Altos no Brasil41%Estável
Riscos Geopolíticos18%-13 p.p.

Para reverter esse quadro e elevar o apetite por risco, a maioria dos profissionais aponta a necessidade de uma mudança de rumo na política econômica, citada por 67% dos assessores. O item superou a expectativa por cortes de juros no Brasil, que recuou para 59%, e a queda de juros nos Estados Unidos e no mundo, com 34%. O indicador proprietário de sentimento da casa reflete esse pessimismo, estacionado em 3, em uma escala de 0 a 100.

O que muda para o investidor com a precificação do risco

A leitura desses dados indica que o mercado já iniciou um processo de antecipação do ruído eleitoral, precificando um teto mais baixo para a Bolsa no próximo ciclo. Historicamente, períodos de elevada incerteza fiscal e política tendem a comprimir os múltiplos das empresas e a elevar a volatilidade, o que justifica a migração de recursos para a renda fixa. Para o investidor pessoa física, a consequência direta é o aumento do custo de oportunidade: manter posições em renda variável exige uma margem de segurança maior, uma vez que o consenso dos profissionais aponta para um cenário de juros locais ainda restritos e de ausência de catalisadores externos capazes de aliviar a pressão doméstica.

O refúgio da Renda Fixa e a estagnação das carteiras

Apesar da piora no sentimento, a alocação efetiva ficou praticamente estável. A maior parte optou por não se mexer: 73% pretendem manter a alocação atual inalterada, avanço de 9 pontos percentuais e a segunda maior leitura de toda a série histórica. A parcela de assessores cujos clientes mantêm entre 0% e 10% do portfólio em renda variável caiu para 50%, enquanto a faixa de 10% a 25% subiu para 35%. Somadas, as alocações de até 25% respondem por 85% das respostas.

A renda fixa segue como a classe de ativos mais demandada, ainda que tenha perdido espaço, com o interesse recuando para 77%, queda de 7 pontos percentuais. Fundos de renda fixa ficaram estáveis em 51%, e o interesse em FIIs (Fundos de Investimento Imobiliário) avançou para 29%. O sentimento dos próprios assessores em relação à Bolsa também piorou: a nota média recuou de 6,6 em julho para 5,7 em agosto, o nível mais baixo desde janeiro de 2025. A parcela que atribui nota 7 ou superior caiu para 43%, recuo de 16 pontos, enquanto 44% deram nota 5 ou menos, alta de 20 pontos.