A conversão do Ibovespa para a moeda americana apontou retração de 21,13% em 26 de outubro deste ano, no primeiro pregão após o segundo turno presidencial vencido pelo presidente Lula, do PT, sobre Flávio Bolsonaro, do PL. O percentual coloca a sessão como a quinta pior baixa diária da série histórica, conforme apuração da consultoria Elos Ayta, com desempenho inferior até aos pregões mais negativos da pandemia.
Para o investidor brasileiro, o dado interessa menos pelo resultado eleitoral em si e mais pela combinação que ele expõe. Quando a bolsa recua e o real perde valor ao mesmo tempo, a conta em dólares tende a ficar bem pior do que a variação observada em reais. Essa ótica costuma guiar a percepção de estrangeiros e ajuda a compreender reações abruptas de fluxo internacional a acontecimentos locais.
Quando a bolsa recua e o real perde valor ao mesmo tempo, a conta em dólares tende a ficar bem pior do que a variação observada em reais.
Pregão após segundo turno superou os dois piores dias da pandemia
O recuo em moeda americana no pregão posterior à votação ficou acima das marcas registradas no auge da turbulência da Covid-19. Em 12 de março de 2020, o indicador havia cedido 18,44% em dólares, seguido por baixa de 17,59% em 16 de março de 2020. O tombo de outubro, portanto, ultrapassou com folga as duas sessões que até então simbolizavam o estresse extremo da pandemia para quem acompanha o Brasil de fora.
A diferença entre a leitura em reais e a leitura em dólares está no centro da análise. O Ibovespa em dólares nada mais é do que o índice da B3 convertido para a moeda americana, o que permite comparar o retorno de um estrangeiro após o efeito do câmbio. Em momentos de aversão a risco, a queda das ações coincide com a saída de divisas e a depreciação do real, ampliando o prejuízo convertido.
Conversão pela Ptax explica perda ampliada para quem olha de fora
O cálculo utilizado pela Elos Ayta emprega a Ptax, a taxa de câmbio de referência apurada pelo Banco Central e amplamente adotada em contratos e estatísticas oficiais. Ao aplicar essa paridade sobre a pontuação do pregão, o estudo capta simultaneamente o comportamento do mercado de ações e o movimento da divisa.
Na avaliação de Einar Rivero, CEO da consultoria, esse duplo impacto precisa ser considerado ao interpretar séries longas. A oscilação dos papéis responde por parte da variação, mas a desvalorização da moeda nacional pode aumentar de forma relevante o tamanho final da perda em dólares. Por isso, leituras em moeda americana tendem a apresentar quedas mais fundas em episódios de tensão cambial.
O executivo pondera ainda que uma baixa dessa ordem, isoladamente, não equivale a uma piora das condições institucionais do mercado brasileiro. Na visão dele, o episódio ilustra sobretudo a capacidade de fatos políticos e econômicos para alterar depressa o valor atribuído aos ativos domésticos e a maneira como investidores de outros países enxergam o risco local.
Seis das dez piores sessões ocorreram antes do Plano Real
O histórico organizado pela Elos Ayta mostra forte concentração de tombos extremos no período anterior à estabilização monetária de julho de 1994. Seis entre as dez maiores baixas em dólares aconteceram antes do Plano Real, fase marcada por inflação elevada e trocas frequentes de padrão monetário.
| Data | Variação em dólares | Marco associado |
|---|---|---|
| 21 ago 1968 | -25,15% | Recorde negativo da série |
| 21 fev 1983 | -24,12% | Ajuste cambial abrupto do período |
| 7 dez 1979 | -23,28% | Ajuste cambial abrupto do período |
| 20 mar 1990 | -22,88% | Primeiros dias do Plano Collor, com bloqueio de ativos financeiros |
| 26 out deste ano | -21,13% | Primeiro pregão após o segundo turno presidencial |
| 12 mar 2020 | -18,44% | Auge da turbulência da pandemia de Covid-19 |
| 16 mar 2020 | -17,59% | Auge da turbulência da pandemia de Covid-19 |
| 22 out 2008 | -16,67% | Crise financeira internacional |
| 20 out 1987 | -16,54% | Colapso global conhecido como Segunda-feira Negra |
Os episódios de 1979 e 1983 coincidiram com desvalorizações intensas e abruptas da moeda brasileira, as chamadas maxidesvalorizações, o que potencializou a conta em dólares. Já a sessão de março de 1990 ocorreu logo no início do Plano Collor, caracterizado pelo bloqueio de recursos financeiros. Crises de origem externa também deixaram marcas profundas, como a Segunda-feira Negra de 1987 e a crise global de 2008.
Dimensão em dólares sinaliza sensibilidade do Brasil ao humor externo
Para quem mantém exposição à bolsa, a mensagem prática pode indicar maior sensibilidade do retorno em moeda forte a choques simultâneos de ações e câmbio. Em fases de incerteza política ou econômica, a desvalorização do real costuma andar junto com a queda dos papéis, o que eleva a volatilidade percebida por fundos globais e pode influenciar decisões de alocação entre países.
O fato de um pregão eleitoral superar pandemias e crises globais na série em dólares não transforma aquele dia em referência para projeções, mas reforça o peso do câmbio na avaliação internacional do Brasil. Acompanhar o Ibovespa nas duas moedas permite separar o que foi perda de preço dos ativos e o que foi efeito da conversão cambial.
