O Ibovespa registrou retração superior a 1%, operando na casa dos 171 mil pontos na sessão que encerra junho, o segundo trimestre e o primeiro semestre, pressionado por um duplo gatilho: a deterioração acelerada dos indicadores fiscais domésticos e a saída persistente de capital estrangeiro. Às 11h09, o principal indicador da B3 recuava 0,95%, para 171.553,33 pontos, após tocar a mínima de 170.538,48 pontos (-1,54%), em contraste com a abertura nos 173.204,72 pontos. Apenas 8 das 79 ações que compõem a carteira teórica avançavam. O movimento consolida uma sequência de perdas que, se confirmada no fechamento, marcará o quarto mês consecutivo de desvalorização para a renda variável local.
Desmontagem de Posições e Dinâmica Externa
A ausência de liquidez comprada por investidores não residentes tem se tornado o fator determinante para a falta de tração do índice. Segundo Pedro Paulo Silveira, sócio da A3S Investimentos, o fluxo de capitais aponta exclusivamente para saídas. Apenas no mês de junho, até a última sexta-feira, o montante retirado por estrangeiros somou R$ 8,754 bilhões. Bruno Takeo, estrategista da S4 Consultoria de Investimentos, correlaciona esse movimento à dinâmica do EWZ, o principal fundo de índice negociável (ETF) que replica o Brasil nos Estados Unidos, que tem batido recordes de resgates. “Essa desmontagem de posição reflete o que temos visto no Ibovespa”, afirma. A reversão do fluxo, observada desde meados de abril, está intrinsecamente ligada à reavaliação das expectativas de taxas de juros e à rotação de portfólios globais em direção aos setores de tecnologia nos mercados norte-americano e asiático.
“Apesar das dúvidas pontuais sobre inteligência artificial, o otimismo com o setor de tecnologia prevalece no exterior”, pondera Takeo.
No cenário externo, a bolsa norte-americana opera em alta, digerindo dados como o índice de confiança do consumidor Conference Board de junho e o relatório Jolts (Pesquisa de Oportunidades de Trabalho e Rotatividade) referentes a maio, que apontaram para 7,594 milhões de postos abertos, superando a mediana de mercado de 6,975 milhões. Apesar da alta do petróleo em 0,40% e do minério de ferro (+0,61% em Dalian e +0,14% em Cingapura), as commodities não conseguiram impulsionar os papéis correlatos na B3. A tensão geopolítica permanece, com o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, negando diálogos diretos com os EUA, enquanto delegações em Doha discutem a implementação de cláusulas de um memorando de entendimento com apoio do Catar.
Alerta Fiscal e Trajetória da Dívida Pública
No âmbito doméstico, os números divulgados pelo Banco Central agravam a aversão ao risco. O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 56,131 bilhões em maio, valor expressivamente superior ao rombo de R$ 33,740 bilhões observado no mesmo mês do ano anterior e acima da projeção de R$ 53,5 bilhões da Reuters. No acumulado dos cinco primeiros meses, o saldo negativo atingiu R$ 24,883 bilhões, invertendo drasticamente o superávit de R$ 69,121 bilhões do período equivalente no ano passado. A deterioração das contas públicas empurrou a dívida bruta para 81,1% do PIB (Produto Interno Bruto) em maio, patamar máximo em cinco anos (desde maio de 2021) e acima dos 80,7% antecipados.
| Indicador Fiscal (Maio/Acumulado) | Resultado 2025 | Resultado 2024 |
|---|---|---|
| Déficit Primário Mensal | R$ 56,131 bi | R$ 33,740 bi |
| Déficit Primário Acumulado (5 meses) | - R$ 24,883 bi | + R$ 69,121 bi |
| Dívida Bruta / PIB | 81,1% | Não divulgado |
A equipe de análise macroeconômica do Bradesco avalia que o cenário nominal permanece bastante pressionado. “Ainda assim, o déficit nominal continuará elevado, pressionado pelo pagamento de juros, o que resultará na elevação da dívida pública. Projetamos que a dívida bruta do governo geral cresça cerca de 4 pontos percentuais ao longo do ano, encerrando 2026 pouco abaixo de 83% do PIB”, detalha o banco. Analistas de mercado reforçam o desconforto com as despesas em ano eleitoral, que tendem a injetar liquidez na economia e pressionar a inflação de forma indireta, limitando a capacidade de desinflação da política monetária.
Expectativas para a Taxa Selic e Dados de Emprego
Apesar do quadro fiscal desafiador, o mercado de derivativos mantém apostas em afrouxamento monetário. Investidores seguem precificando pelo menos mais um corte de 25 pontos-base (unidade de medida equivalente a 0,01% na taxa de juros) na taxa Selic, hoje estabelecida em 14,25% ao ano. A sondagem para a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária, órgão do Banco Central responsável pela definição da taxa básica de juros) de agosto sofreu uma migração expressiva em apenas uma semana.
O ajuste na curva de juros doméstica convive com dados locais em evidência. O Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, que mapeia admissões e demissões formais) de maio será divulgado às 14h, acompanhado de declarações do ministro do Trabalho, Luiz Marinho. A mediana das estimativas do Projeções Broadcast aponta para a criação líquida de 120 mil vagas com carteira assinada, ante as 85.888 geradas em abril. O indicador será dissecado pelos agentes econômicos para calibrar as projeções da autoridade monetária.
O que isso significa para o investidor
A convergência entre o descontrole primário e a rotação de capital externo cria um ambiente de prêmio de risco elevado para a renda variável doméstica. Para o investidor pessoa física, a dinâmica sinaliza que os múltiplos de avaliação (métrica que compara o preço da ação a indicadores fundamentais como lucro ou receita) podem sofrer compressão até que haja clareza na trajetória fiscal e na curva de juros futura. No cenário otimista, a confirmação da desaceleração econômica no Caged e a manutenção da tendência de queda da Selic podem oferecer suporte técnico aos 170 mil pontos, estimulando operações de carry trade e a busca por ativos isentos de tributação ou com histórico de Juros sobre Capital Próprio (JCP, remuneração tributada que as empresas distribuem aos acionistas). No espectro pessimista, a aprovação de propostas com alto custo orçamentário, somada à persistência de saídas estrangeiras, tende a pressionar a curva de juros futuros e fortalecer o dólar, reduzindo a atratividade relativa dos ativos locais frente aos mercados desenvolvidos.
Riscos em Monitoramento
- Aprovação da PEC de aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde: proposta em votação no Senado, classificada pela equipe econômica como “pauta-bomba” com impacto fiscal significativo.
- Reprecificação do Federal Reserve: dados robustos do mercado de trabalho e posturas mais firmes do banco central norte-americano estão fazendo a curva de juros local incorporar a possibilidade de uma ou duas altas de juros no segundo semestre, segundo Silvio Campos Neto, economista sênior da Tendências Consultoria.
- Tensão Geopolítica no Oriente Médio: a negativa de diálogos diretos entre Irã e EUA introduz volatilidade adicional nos mercados globais, podendo afetar o apetite por ativos emergentes e commodities.
- Despesas de ano eleitoral: o aumento do gasto público sem contrapartida de arrecadação pode acelerar a inflação e limitar a margem de manobra para cortes adicionais da taxa básica.
A agenda econômica das próximas semanas permanecerá focada na interação entre os dados de emprego nos Estados Unidos e a evolução das contas públicas brasileiras. O mercado observará se o déficit primário de maio representa um pico isolado ou o início de uma trajetória de deterioração sustentada, enquanto a votação de emendas constitucionais no Senado testará a disciplina fiscal do governo. A trajetória do Ibovespa, que acumula queda de 1,19% no período e fechamento anterior em 173.205 pontos (-0,05% no dia, recuo mensal de 0,33%, mas alta de 7,50% no primeiro semestre), dependerá diretamente da capacidade do fluxo doméstico de absorver a venda externa e do alinhamento entre a prática de gastos públicos e as metas de resultado primário.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
