O IPCA-15, prévia mensal do índice que serve de referência para a meta de inflação, avançou 0,70% em setembro e superou o intervalo projetado pelo mercado, de 0,53% a 0,55%. Com o resultado divulgado nesta sexta-feira (25) pelo IBGE, o índice acumula 4,47% em 12 meses e fica a um fio do teto de 4,50% da meta perseguida pelo Banco Central. Parte da pressão tem origem conhecida: o fim do Bônus de Itaipu devolveu à conta de luz a alta que havia sido segurada em agosto.
O detalhe que reordena a leitura está na dispersão. Todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados pelo IBGE subiram, e o mesmo ocorreu nas onze regiões monitoradas. A média dos cinco núcleos — recortes que excluem itens mais voláteis para revelar a tendência de fundo do índice — passou de 0,23% para 0,34%, enquanto o índice de difusão, que mede a parcela de itens com preço em alta, saiu de 52% para 53,7%.
O que os núcleos mostram além da conta de luz
Pablo Spyer, conselheiro da Ancord (Associação Nacional das Corretoras de Valores), prefere olhar para dentro do índice em vez de reagir ao número de manchete.
André Matos, CEO da MA7 Capital, aponta que a direção do IPCA-15 não surpreendeu — o choque esteve na intensidade da variação de preços.
Júlio Barros, economista do Daycoval, reconhece que os núcleos vieram em linha com o previsto, mas lembra que o patamar segue elevado e desafiador.
De onde vieram os 0,70%
Habitação deu a maior contribuição ao índice, com 2,07%, e a energia elétrica residencial disparou 7,42% depois que o Bônus de Itaipu deixou de ser incorporado à fatura. Gabriel Foglieni, gerente de investimentos da Eleva Invest, atribui à energia 40% do resultado do mês.
Os alimentos voltaram a pressionar: o grupo Alimentação e Bebidas subiu 0,40%, com a alimentação no domicílio avançando 0,38% após recuar 0,97% em agosto. Tomate (20,76%), arroz (2,39%) e carnes (1,30%) lideraram as altas. Christian Meduna, economista do banco BV, relaciona a saída da deflação dos produtos in natura à questão climática. Júlio Barros, do Daycoval, enxerga o encerramento de um período sazonal favorável.
Em Transportes, a variação ficou em 0,60%, com as passagens aéreas saltando 9,82% depois de recuarem 13,30% em agosto. A gasolina subiu 0,30%, contrariando projeções que apontavam retração, e a XP revisou sua estimativa para o IPCA de setembro de 0,58% para 0,68%.
| Item | Variação em setembro |
|---|---|
| IPCA-15 (mês) | +0,70% |
| IPCA-15 (12 meses) | +4,47% |
| Habitação | +2,07% |
| Energia elétrica residencial | +7,42% |
| Alimentação e bebidas | +0,40% |
| Alimentação no domicílio | +0,38% |
| Tomate | +20,76% |
| Arroz | +2,39% |
| Carnes | +1,30% |
| Transportes | +0,60% |
| Passagens aéreas | +9,82% |
| Gasolina | +0,30% |
Serviços, gasolina e a decisão de novembro
Basiliki Litvac, economista da XP, vê os serviços resistentes diante de um mercado de trabalho aquecido e sustenta que o segmento continuará no centro das atenções do Banco Central.
Na reunião mais recente, o Copom cortou a Selic para 13,75% e não sinalizou os próximos passos. Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, afirma que o resultado mistura fatores pontuais — itens administrados e voláteis devolvendo parte do alívio anterior — a uma base de preços que segue pressionada. “O resultado reforça a cautela necessária em relação à convergência da inflação e valida a postura vigilante da política monetária”, diz.
Sobre o encontro de novembro, o Daycoval projeta pausa na calibração dos juros. Foglieni, da Eleva, classifica a decisão como mais disputada. Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, entende que o IPCA-15 não interrompe necessariamente o ciclo de queda da Selic, mas encolhe o espaço para acelerar os cortes. Fábio Muirad, da Wiser Asset, aponta que um afrouxamento veloz teria custos: o diferencial de juros — o prêmio que o país paga para atrair capital externo — estreitaria, o câmbio sofreria pressão e a inflação poderia retornar por esse canal.
Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, vê na prolongação de uma política monetária apertada o remédio inevitável para domar os preços. Leonardo Costa, economista do ASA, admite piora marginal, mas não espera mudança na postura do Banco Central, e mantém a projeção de dois cortes de 25 pontos-base, um em novembro e outro em dezembro.
O que muda para quem investe
Inflação espalhada e núcleos em alta encurtam a margem do Copom para acelerar o afrouxamento — e essa é a informação que sobrevive ao dia da divulgação, mais do que o índice de manchete. Quando o Banco Central perde folga para cortar juros com rapidez, o período de juros restritivos tende a se esticar, o que historicamente costuma manter o prêmio exigido nos títulos de prazo longo e retardar o alívio no custo do crédito para empresas e famílias.
A decisão de novembro é o próximo ponto de checagem dessa trajetória. Até lá, cada leitura de preços funciona como termômetro das expectativas — e, com o acumulado em 12 meses tão próximo do teto, uma surpresa de magnitude parecida tende a ganhar peso desproporcional na formação dos juros futuros.
