O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) registrou deflação de -0,32% em agosto, segundo levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) reproduzido pela fonte, superando as projeções do mercado. Com o resultado, o acumulado em 12 meses passou de 4,44% em julho para 4,22% em agosto, permanecendo dentro do intervalo de tolerância da meta, cujo teto é de 4,50%.

A leitura do Ativo Virtual é que a fotografia benigna contrasta com o filme ainda pressionado: quatro dos nove grupos caíram por efeitos pontuais, enquanto serviços intensivos em trabalho rodam a 7,18% em 12 meses e o mercado já discute menos se o Copom (Comitê de Política Monetária) corta 0,25 ponto percentual em setembro e mais qual será o ritmo até dezembro.

Deflação na manchete, pressão nos detalhes: o contraste que interessa ao investidor

Quatro dos nove grupos pesquisados pelo IBGE recuaram em agosto, com destaque para Habitação e Transportes. O grupo Habitação caiu -1,87%, após o recuo de -7,63% na energia elétrica residencial em função do crédito pontual do Bônus de Itaipu nas contas de luz. Transportes registrou variação de -0,86%, com influência da queda de -13,17% nas passagens aéreas e de -0,91% nos combustíveis.

No detalhamento de combustíveis citado pela fonte, a gasolina recuou -0,59%, o diesel caiu -0,80% e o etanol teve baixa de -3,95%. Alimentação e bebidas cedeu -0,34%, sustentada pela terceira queda consecutiva da alimentação no domicílio, de -0,61%, com baixas expressivas em batata-inglesa (-19,89%), cenoura (-11,22%), cebola (-11,07%) e tomate (-10,94%).

Na direção oposta, Despesas Pessoais avançou 1,30%, refletindo alta de aproximadamente 20% no preço do cigarro depois do reajuste do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). Os bens industriais subiram 0,43%, pressionados por móveis e utensílios, com +0,6%, e vestuário, com +0,12%. As carnes voltaram a subir, com +0,61%, enquanto serviços como conserto de automóvel, cabeleireiro e manicure também mostraram aceleração, segundo a fonte.

Grupo / itemVariação em agosto
Habitação-1,87%
Energia elétrica residencial-7,63%
Transportes-0,86%
Passagens aéreas-13,17%
Combustíveis-0,91%
Alimentação e bebidas-0,34%
Despesas Pessoais+1,30%
Bens industriais+0,43%

Bônus de Itaipu e passagem aérea: o efeito pontual que tirou 0,33 p.p. do índice

O recuo de 7,63% na energia elétrica residencial tirou 0,33 ponto percentual do índice cheio. A conta foi apresentada por Volnei Eyng, CEO da Multiplike, para quem o Bônus de Itaipu não tende a se repetir nos próximos meses, o que devolve ao índice um componente relevante de alta na comparação mensal seguinte.

O mesmo raciocínio vale para serviços. A variação de apenas 0,33% em serviços contou com ajuda pontual das passagens aéreas, mas as métricas subjacentes continuam exigindo atenção. Para o investidor pessoa física, a consequência prática é que o custo de vida captado pelo IPCA cheio de agosto subestima a persistência de preços menos voláteis, aqueles que costumam acompanhar salários e contratos.

Basiliki Litvac, economista da XP, calcula que a variação em 12 meses dos serviços subjacentes está em 4,98%, e a dos serviços intensivos em trabalho, em 7,18%, ambas ainda bem acima de níveis compatíveis com a meta. O Bradesco projeta, na mesma direção, que a inflação deve voltar a subir nos próximos meses, liderada pelo preço dos alimentos, enquanto os serviços devem seguir próximos do nível atual.

O balanço de riscos segue assimétrico e altista por causa da resiliência dos serviços, dos riscos eleitorais e dos impactos do El Niño no fim do ano, na avaliação de Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.

Câmbio, El Niño e mercado de trabalho aquecido no radar de preços

No radar prospectivo, clima, commodities e câmbio seguem como os principais riscos monitorados pelas casas. Diogo Guillen, economista-chefe do Itaú, destaca que o El Niño deve pressionar os preços dos itens in natura, enquanto a alta esperada das proteínas no último trimestre tende a se disseminar para outros componentes da cesta, com impactos tanto sobre alimentos quanto sobre serviços.

Claudia Moreno, economista do C6 Bank, projeta que a inflação deve voltar a ganhar força, diante de um mercado de trabalho aquecido e da perspectiva de desvalorização do real. A combinação descrita pela fonte historicamente costuma sustentar repasses em serviços e reduzir o espaço para quedas adicionais em alimentação fora do domicílio, o que ajuda a entender por que a deflação de agosto é tratada como alívio passageiro.

A síntese da fonte é que, embora a fotografia de agosto confirme o avanço do processo desinflacionário na margem, a presença de incertezas fiscais, cambiais e climáticas impõe uma postura de cautela na condução do ciclo de flexibilização monetária.

Copom com corte contratado, ritmo em aberto: Selic entre 13,25% e 13,75%

A leitura benigna do IPCA de agosto fortaleceu as apostas no mercado financeiro para a próxima decisão do Copom. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, avalia que o dado corrobora o cenário de desinflação e, somado à desaceleração da atividade econômica, dá ao Banco Central mais certeza para um corte de juros de 0,25 ponto percentual. A expectativa de redução de 0,25 ponto percentual na Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) na reunião de setembro é compartilhada por diferentes analistas ouvidos.

André Valério, economista sênior do Inter, diz não haver dúvidas sobre o corte na próxima reunião da semana que vem, mas há dúvidas sobre o ritmo à frente. A expectativa do Inter é de que o Copom mantenha o ritmo pelo restante das reuniões do ano, com a Selic chegando a 13,25% em dezembro. A XP mantém a mesma projeção de Selic em 13,25% ao fim de 2026 e de IPCA em 5% para 2026 e em 4,2% em 2027.

Arnaldo Lima, da Polo Capital, destaca que o resultado traz alívio adicional ao Banco Central e reforça a expectativa de redução de 0,25 ponto percentual da Selic. Ele projeta ainda mais um corte de 0,25 ponto percentual, seguido de pausa, estacionando a taxa terminal em 13,50%. Na mesma linha, Matheus Pizzani, economista do PicPay, mantém a projeção de taxa terminal em 13,50%, enquanto Gabriel Pestana, economista da Genial Investimentos, prevê o corte de 0,25 ponto no Copom, mantendo a estimativa de Selic em 13,75% ao final de 2026.

Casa / economistaProjeção citada na fonte
InterSelic a 13,25% em dezembro, mantendo o ritmo de cortes
XPSelic a 13,25% ao fim de 2026; IPCA de 5% em 2026 e 4,2% em 2027
Polo CapitalMais dois cortes de 0,25 p.p. e pausa, com terminal a 13,50%
PicPayTaxa terminal em 13,50%
Genial InvestimentosCorte de 0,25 ponto e Selic a 13,75% ao final de 2026