Principais pontos

  • O Banco do Japão (BOJ) subiu nesta sexta-feira (18) sua taxa básica de juros para 1,25%, o maior patamar em 31 anos, e sinalizou que a autoridade monetária entrou em uma nova fase de política.
  • Segundo o CME/FedWatch, 55% do mercado prevê nova alta dos juros nos EUA em outubro.
  • Os preços dos combustíveis no Brasil seguem com ampla diferença abaixo da paridade internacional, segundo dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).

O Banco do Japão (BOJ) subiu nesta sexta-feira (18) sua taxa básica de juros para 1,25%, o maior patamar em 31 anos, e sinalizou que a autoridade monetária entrou em uma nova fase de política. A decisão veio horas depois de os dados de inflação do país mostrarem o núcleo do índice de preços ao consumidor em alta de 1,7% em agosto, contra expectativa de 1,8%. No mesmo pregão, o dólar comercial abriu praticamente estável, a R$ 5,134, o Ibovespa futuro recuava 0,24%, aos 187.815 pontos, e os juros futuros brasileiros recuavam — um contraste com o aperto monetário em curso no exterior.

Japão: a maior taxa em 31 anos e a dissidência que segurou o iene

O presidente do BOJ, Kazuo Ueda, afirmou que, com a inflação subjacente se aproximando de 2%, o foco do banco deixou de ser o de impulsionar os preços até a meta e passou a ser o de impedir que a inflação ultrapasse o alvo. "Se os riscos de a inflação subjacente ultrapassar 2% se concretizarem, isso poderá ter um impacto negativo na economia do Japão", disse ele em coletiva de imprensa.

A taxa de 1,25% é a mais alta desde 1995, mas a mensagem mais dura não impulsionou o iene. A moeda japonesa se desvalorizava no pregão, já que os investidores se concentraram na dissidência de duas autoridades, que argumentaram que o BOJ deveria manter paciência ao elevar os custos dos empréstimos. O contraste entre o discurso do presidente e o comportamento da moeda expõe a divisão interna da autoridade monetária.

Os dados de inflação japonesa foram divulgados poucas horas antes do encerramento da reunião de política. O núcleo do CPI — que exclui os preços voláteis de alimentos frescos, mas inclui os custos com combustíveis — subiu 1,7% em agosto na comparação anual, contra expectativa de 1,8%. Em julho, o avanço tinha sido de 1,8%. Um índice que elimina também os efeitos dos combustíveis, acompanhado de perto pelo BOJ por ser uma medida mais precisa das pressões de preços impulsionadas pela demanda, avançou 1,9% em agosto na base anual.

A ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, afirmou que o país não hesitará em realizar novas intervenções cambiais coordenadas. Segundo ela, o Japão manterá comunicação estreita com as autoridades financeiras de outros países e trabalhará para preservar um mercado cambial ordenado.

O que a virada japonesa muda para quem investe no Brasil

O Japão passou décadas associado a juros próximos de zero. Essa condição, historicamente, costuma estimular a busca global por ativos de maior risco, porque reduz o custo do financiamento em moeda forte e empurra investidores para praças com retornos mais altos. Quando o país muda de patamar, o cálculo de risco internacional tende a se alterar: encarece o funding global e, em geral, reduz o apetite por mercados emergentes.

Para o investidor brasileiro, esse movimento não fica restrito ao Japão. Na mesma manhã, o índice DXY, que mede o dólar contra uma cesta de moedas, subia 0,28%, aos 100,53 pontos — sinal de força da moeda americana no exterior. O chefe do Eurogrupo, Kyriakos Pierrakakis, alertou que as condições financeiras globais estão se apertando. "Enquanto essas condições persistirem, a pressão sobre os orçamentos nacionais aumentará", disse. Ele defendeu que as economias da zona do euro mantenham a trajetória fiscal acordada com as instituições da União Europeia para preservar credibilidade diante dos mercados de títulos. "Em tempos de incerteza, a credibilidade se torna um ativo econômico", afirmou.

A leitura que se extrai do conjunto é de um ambiente externo mais restritivo. Para quem tem exposição a ativos internacionais, o custo do dinheiro mais alto tende a se traduzir em prêmios de risco maiores e em maior volatilidade cambial. Quem carrega papéis ligados ao ciclo doméstico tende a sentir o efeito de forma indireta, via câmbio e via curva de juros.

No caso brasileiro, o dado curioso é que os juros futuros recuam no mesmo dia em que o Japão aperta. Essa divergência sugere que o mercado local ainda enxerga espaço para alívio monetário doméstico, mesmo com o cenário externo mais duro. Historicamente, porém, apertos coordenados em várias economias desenvolvidas costumam pressionar o câmbio e a curva de juros dos emergentes ao longo do tempo. Períodos de aperto global frequentemente coincidem com maior volatilidade nos mercados acionários e com fluxos mais seletivos para a renda variável.

A consequência mais concreta para a carteira de quem investe no Brasil é o aumento da sensibilidade a notícias externas. Dias como este, em que o mercado local opera quase estável enquanto o Japão sobe juros e o dólar ganha força lá fora, tendem a antecipar um ambiente de maior dispersão entre ativos. A depender da trajetória do Federal Reserve e do BCE nas próximas semanas, o prêmio exigido para carregar risco brasileiro pode se ampliar.

FedWatch: 55% do mercado vê nova alta nos EUA em outubro

O aperto japonês encontra uma autoridade americana já em modo restritivo. Segundo o CME/FedWatch, 55% do mercado prevê nova alta dos juros nos EUA em outubro. As apostas se distribuem em torno das faixas de 4,00%-4,25%, de 4,25%-4,50% e de 3,75%-4,00%.

O pano de fundo ajuda a explicar o tom dos mercados. No início da semana, o Brent atingiu a maior cotação em quatro meses, o rendimento do Treasury de 10 anos chegou a níveis não vistos em 19 anos e as fabricantes de chips sofreram com preocupações sobre os possíveis impactos da inteligência artificial. Desde então, a alta dos juros nos EUA reforçou a percepção de credibilidade do Federal Reserve no combate à inflação, enquanto os temores sobre o fornecimento de petróleo do Oriente Médio diminuíram.

Para o investidor, o ponto de atenção é o ritmo. Se o Fed confirmar uma nova alta em outubro, o diferencial de juros entre economias desenvolvidas e emergentes tende a se estreitar, o que historicamente costuma reduzir a atratividade relativa de ativos de risco de países como o Brasil. Ao mesmo tempo, o desequilíbrio entre oferta e demanda de chips permanece favorável às perspectivas de lucro das empresas de semicondutores.

O mercado americano, aliás, já opera em direção oposta à europeia. Os índices futuros dos EUA avançam, impulsionados pelos ganhos das ações de tecnologia e pela queda dos preços do petróleo, que ajuda a melhorar o sentimento dos investidores. O Dow Jones Futuro subia 0,08%, o S&P 500 Futuro avançava 0,20% e o Nasdaq Futuro ganhava 0,46%.

Europa: expectativa de inflação sobe e Lagarde sinaliza saída

A Pesquisa de Expectativas do Consumidor do Banco Central Europeu (BCE) mostrou que os consumidores da zona do euro elevaram suas projeções de inflação no mês passado. A mediana para os próximos 12 meses subiu de 2,9% para 3,0%. A expectativa para os próximos três anos avançou de 2,7% para 2,9%, e a projeção para os próximos cinco anos passou de 2,4% para 2,5%. O BCE elevou os custos dos empréstimos na semana passada, pela segunda vez neste ano, e fontes ouvidas pela Reuters indicam que as autoridades esperam um novo aperto nos próximos meses.

No mesmo dia, a presidente do BCE, Christine Lagarde, deixou a porta aberta para uma saída antecipada do cargo. Questionada pela emissora irlandesa RTE se permaneceria até o fim de seu mandato, em outubro de 2027, respondeu: "Vamos ver". E acrescentou: "O que posso dizer neste momento é que, seja qual for o momento, tudo será conduzido da maneira mais profissional possível, como deve ser". Fontes informaram à Reuters nesta semana que a França apoiaria o holandês Klaas Knot para suceder Lagarde, como parte de um acordo em que um candidato francês seria escolhido para o cargo de economista-chefe.

A combinação de expectativas de inflação mais altas com a indefinição sobre a sucessão no comando do BCE tende a manter a volatilidade nos mercados europeus. Para o investidor brasileiro com exposição a ativos internacionais, a trajetória de juros da zona do euro é relevante porque influencia o diferencial de retorno entre renda fixa europeia e emergente.

Onde o mercado brasileiro abre nesta sexta

Os investidores digerem nova pesquisa Datafolha sobre o cenário eleitoral, enquanto no exterior ações e títulos têm comportamento misto ao final de uma semana marcada por decisões de política monetária. Confira os principais indicadores na abertura:

AtivoAberturaVariação
Ibovespa futuro187.815 pts-0,24%
Mini-índice (WINV26)187.675 pts-0,25%
Dólar comercialR$ 5,134 / R$ 5,135-0,06%
Dólar futuro5.143,00+0,07%
Minidólar (WDOV26)5.147,50+0,13%
Bitcoin Futuro (BITFUT)401.700,00+2,30%
DXY100,53+0,28%

O Ibovespa futuro oscila aos 188 mil pontos, o dólar comercial gira em torno de R$ 5,13 e os juros futuros recuam. O mini-índice com vencimento em outubro de 2026 (WINV26) abriu em baixa de 0,25%, aos 187.675 pontos. O minidólar com vencimento em outubro (WDOV26) abriu em alta de 0,13%, cotado a 5.147,50. O Bitcoin Futuro (BITFUT) abriu o dia com ganho de 2,30%, aos 401.700,00.

A estabilidade relativa do câmbio doméstico contrasta com a força do dólar no exterior, medida pelo DXY. Essa diferença sugere que fatores locais — entre eles a expectativa em torno da pesquisa eleitoral — têm compensado parte da pressão externa sobre o real.

Commodities: petróleo cede e minério de ferro avança

Os preços do petróleo operam em baixa, com o aumento do fornecimento de petróleo bruto saudita ajudando a aliviar os temores de interrupções no Oriente Médio. O WTI recuava 1,26%, a US$ 100,63 o barril, e o Brent cedia 2,00%, a US$ 102,72 o barril.

O minério de ferro negociado na bolsa de Dalian subia 0,70%, a 715,50 iuanes (US$ 106,67), na terceira sessão consecutiva de ganhos. O movimento é impulsionado por uma produção de metal líquido maior do que a esperada, embora a incerteza sobre a demanda, o aumento dos estoques portuários e as margens apertadas do aço mantenham os preços a caminho de uma segunda perda semanal.

O recuo do petróleo ajuda a aliviar a pressão inflacionária global, mas também reduz a receita de players ligados ao setor. Já a alta do minério tende a favorecer as companhias exportadoras brasileiras do setor, embora a persistência de incertezas sobre a demanda chinesa mantenha o cenário sem sinal claro.

Bolsas globais: Ásia em alta, Europa em queda e futuros dos EUA positivos

Os mercados da Ásia-Pacífico fecharam em alta, com o Nikkei, do Japão, liderando os ganhos da região. O BOJ elevou sua taxa básica em 25 pontos-base, para 1,25%, o nível mais alto desde 1995. O desempenho da região ocorre num momento em que o presidente dos EUA, Donald Trump, se prepara para receber seu homólogo chinês, Xi Jinping, em Washington na próxima semana.

Na Europa, o STOXX 600 recuava 0,48%, o DAX alemão cedia 0,69%, o FTSE 100 britânico caía 0,69%, o CAC 40 francês perdia 0,68% e o FTSE MIB italiano recuava 0,94%. O índice de referência pan-europeu chegou a recuar 0,3%, para 640,63 pontos, após subir mais de 1% nas duas últimas sessões. A semana europeia foi marcada pela retração nos preços do petróleo e pelas decisões sobre taxas de juros de vários bancos centrais.

A divergência entre Ásia e Europa reforça a leitura de que o mercado está precificando de forma distinta os ciclos monetários de cada região. Enquanto o Japão sinaliza uma nova fase, a Europa convive com expectativas de inflação em alta e dúvidas sobre a liderança do BCE.

Outros destaques: Buffett, ouro venezuelano e Casas Bahia

Warren Buffett deixará o cargo de presidente do Conselho da Berkshire Hathaway. Ele será substituído por seu filho, Howard. A mudança encerra um ciclo na gestora que se tornou referência global de investimento de longo prazo.

O governo da Venezuela e a oposição estão prestes a fechar um acordo para transferir as reservas de ouro do banco central, avaliadas em cerca de US$ 4 bilhões, do Banco da Inglaterra para o Federal Reserve Bank de Nova York, segundo o Financial Times. A Reuters não conseguiu verificar imediatamente a informação.

A Casas Bahia realizou uma emissão de notas comerciais de cerca de R$ 368 milhões. A companhia não divulgou o nome do fundo.

Combustíveis seguem abaixo da paridade internacional

Os preços dos combustíveis no Brasil seguem com ampla diferença abaixo da paridade internacional, segundo dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). O diesel A S10 apresentava defasagem de 114%, ou R$ 3,72, ante 119%, ou R$ 3,88, no dia anterior. A gasolina A registrava diferença de 38%, ou R$ 1,15, contra 37%, ou R$ 1,12, na véspera.

A Petrobras (PETR3;PETR4) anunciou há nove dias reajuste nos preços da gasolina. Sobre o diesel, a estatal reajustou os preços ontem. A Abicom publica o estudo diariamente, de segunda a sexta, exceto em feriados.

A defasagem expressiva é um dado relevante para quem acompanha o setor de energia: ela indica que a política de preços da estatal tem mantido os combustíveis domésticos abaixo do referencial internacional, o que historicamente costuma pressionar as margens da companhia e alimentar discussões sobre a sustentabilidade do modelo.

Seca no Norte pode encarecer o frete para Manaus em até 150%

A seca causada pelos impactos do El Niño na região Norte do Brasil pode elevar o custo do transporte de contêineres para Manaus em até 150%. O dado consta de estudo da A&M Infra, da Alvarez & Marsal, encomendado pela Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac).

Em um cenário de restrição de dois metros no calado, a capacidade é reduzida em 35% e o custo unitário aumenta 63%. Num cenário mais severo, com redução de 3,2 metros no calado disponível para os navios, a capacidade de transporte cai 55%. "O efeito ocorre porque, mesmo transportando menos carga devido às limitações de calado, grande parte dos custos da viagem permanece", afirma o estudo. A estiagem também provoca atrasos, omissões de escalas, armazenagem adicional e pode exigir soluções logísticas alternativas.

O efeito para o investidor é indireto, mas relevante: custos logísticos maiores tendem a pressionar a margem de empresas que dependem da Zona Franca de Manaus e de cadeias produtivas na região Norte, além de potencialmente se refletir em preços ao consumidor.

O que observar na semana que vem

O calendário da próxima semana tem como principal evento o encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, em Washington. Será o segundo encontro entre os dois líderes neste ano, num momento em que buscam estabilidade em uma relação tensa. O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que os países farão "alguns anúncios sobre agricultura e barreiras não tarifárias". Os operadores estarão atentos ao andamento das negociações sobre uma redução mútua de tarifas acordada, que abrange US$ 30 bilhões em mercadorias.

No Brasil, o reajuste no Bolsa Família coloca o varejo no radar. O JPMorgan vê Grupo Mateus, Pague Menos e Assaí entre os possíveis beneficiados pela injeção de renda.

No front corporativo e geopolítico, a China pressiona o Irã para conter os houthis após apelo da Arábia Saudita. Riade procurou a China depois que os houthis avançaram pela costa do Mar Vermelho e nas proximidades do Estreito de Bab el-Mandeb. A Spirit AI, startup chinesa de IA incorporada, afirma que os cérebros dos robôs humanoides devem alcançar um avanço significativo em meados de 2027, mas sua implantação em residências pode levar pelo menos oito anos, já que o desenvolvimento de modelos enfrenta um gargalo de dados.

No cenário político doméstico, o ministro Kassio Nunes Marques, do STF, afirmou que "não é preciso alterar o tom para ser ouvido. A delicadeza e a gentileza também têm força". A declaração foi dada na abertura da sessão do TSE e ocorreu no contexto da despedida do ministro Antônio Carlos Ferreira, do STJ.