Principais pontos

  • Os fundos Kappa e Zeta encerraram agosto com altas de 3,80% e 5,82%, impulsionadas principalmente pela exposição à bolsa.
  • No acumulado de 2026 até agosto, os retornos de 6,36% e 3,83% equivaliam a 68% e 41% do CDI.
  • A leitura é que a gestora trocou prêmio de juro por exposição cambial justamente quando enxerga perda de fôlego da atividade.

Os fundos Kappa e Zeta encerraram agosto com altas de 3,80% e 5,82%, impulsionadas principalmente pela exposição à bolsa. O desempenho, descrito em relatório de gestão da Kapitalo, uma das maiores casas independentes de fundos multimercados (fundos que podem operar em ações, juros, câmbio e commodities) do país, superou com folga o ganho mensal do mercado, mas manteve os dois veículos atrás do referencial em 2026.

No acumulado de 2026 até agosto, os retornos de 6,36% e 3,83% equivaliam a 68% e 41% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário, taxa que serve de referência para a renda fixa). A leitura é que a gestora trocou prêmio de juro por exposição cambial justamente quando enxerga perda de fôlego da atividade. Segundo a fonte, os dois fundos seguem as mesmas estratégias, com níveis diferentes de risco.

Mês forte esconde ano fraco: o contraste que o cotista precisa entender

O contraste entre agosto e o acumulado do ano é o ponto central para quem acompanha multimercados. A alta mensal foi atribuída pela casa sobretudo às aplicações em ações, o que mostra sensibilidade elevada à renda variável após um período de defasagem frente ao CDI.

FundoRetorno em agostoRetorno em 2026 até agostoProporção do CDI no ano
Kappa3,80%6,36%68%
Zeta5,82%3,83%41%

A diferença de intensidade entre os dois resultados mensais reflete a proposta de cada veículo: mesma direção estratégica, com doses distintas de volatilidade. Para o investidor pessoa física, a consequência prática é que um mês de 5,82% no Zeta não recompõe automaticamente a distância acumulada para o CDI, referência que baliza o custo de oportunidade no Brasil.

Real no lugar de juro: a troca tática dentro do Brasil

Nos portfólios Kappa e Zeta, a Kapitalo reduziu as apostas em juros reais (taxas já descontada a inflação) e em juros nominais (taxas cheias, sem desconto da inflação) no Brasil e ampliou a exposição à moeda brasileira. A troca sugere preferência por capturar movimento do câmbio em vez de carregar taxas domésticas.

Na renda variável local, a casa manteve as posições compradas (apostas na valorização) em ações brasileiras, enquanto cortou as posições em ações globais. O desenho indica convicção maior no mercado doméstico de ações naquele momento, com redução da dependência do exterior.

Dólar canadense, cobre e açúcar: o novo mapa externo em setembro

O início de setembro trouxe ajustes fora do país. A gestora informou redução das posições aplicadas em juros — isto é, que ganham com a queda das taxas — no Reino Unido e na Zona do Euro, ao mesmo tempo em que elevou as aplicações em dólar canadense.

Uma desaceleração mais intensa da atividade pode compensar parte das pressões sobre a inflação, na avaliação repassada pela gestora.

Em commodities, o movimento foi amplo: início de investimentos em cobre, abertura de posição vendida (aposta na queda) em açúcar e diminuição das posições vendidas em petróleo e ouro, além de zeragem das posições compradas em milho. A combinação aponta para rotação entre energia, metais e agrícolas, sem manutenção de aposta altista no grão.

No plano geopolítico, a casa continua a descrever o conflito no Oriente Médio entre Estados Unidos e Irã como sem perspectiva de solução no curto prazo.

Inflação em dois tempos: alívio imediato, pressão adiante

Para os Estados Unidos, a expectativa relatada é de nova decisão de juros apertada e condicionada aos dados de inflação de agosto. A mensagem reforça a dependência de cada número de preços para calibrar a política monetária americana.

No Brasil, a avaliação é que os sinais de desaceleração da atividade se confirmaram em agosto. Os dados de confiança da Fundação Getulio Vargas (FGV), instituição que mede o sentimento de empresas e consumidores, sugeririam continuidade da perda de força da economia durante o segundo semestre.

Serviços, El Niño e salários no radar de preços

A gestora descreve dinâmica mais favorável para a inflação brasileira no curto prazo, com novos riscos em horizontes mais longos. Um deles é o debate sobre o fim da escala 6 por 1 — regime de seis dias de trabalho para um de descanso — cujo efeito sobre preços poderia ser parcialmente absorvido por ganhos de produtividade e por ajustes do mercado de trabalho, mas tenderia a pressionar especialmente a inflação de serviços.

O outro risco citado é o El Niño, fenômeno climático que altera chuvas e temperaturas. A transmissão inicial para a inflação poderia se concentrar nos alimentos in natura já no último trimestre deste ano, enquanto eventuais quebras de safra alcançariam grãos e carnes, sobretudo a partir da segunda metade de 2027.

A intensidade desses impactos, segundo a análise atribuída à Kapitalo, vai depender em boa medida da atividade econômica e da evolução da massa salarial. Um esfriamento mais forte da economia tenderia a amortecer parte dessas pressões sobre os preços, o que conecta diretamente a aposta menor em juros e maior em câmbio ao diagnóstico de economia em desaceleração.