Um relatório do Citi divulgado em 5 de outubro coloca Klabin (KLBN11) e Irani (RANI3) à frente da Suzano (SUZB3) entre as companhias de papel e celulose mais favorecidas por uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro à Presidência. O critério não é porte nem escala: é o quanto de receita cada uma extrai do mercado doméstico e o quanto depende do câmbio.

O banco parte de um cenário de ajuste fiscal acompanhado de juros menores e real valorizado. Nessa combinação, as companhias de maior exposição doméstica aparecem em posição relativamente melhor que a Suzano. A ressalva importa: a valorização do real não ajuda Klabin e Irani, apenas as machuca menos do que machuca a Suzano, cujo resultado mais dolarizado amplifica o efeito da moeda brasileira.

O pano de fundo do setor ajuda a dimensionar o exercício. Boa parte da receita das fabricantes de papel e celulose é formada em dólar, enquanto custos e dívidas se repartem entre as duas moedas. Uma troca de governo entra nessa equação na medida em que mexe no câmbio e na taxa de juros — não por si só.

O espelho cambial: o que muda quando o real se enfraquece

Na hipótese contrária, com desvalorização do real, o ranking se inverte. A Suzano tende a capturar um ganho cambial maior, ao passo que o impulso para Klabin e Irani é proporcionalmente menor, reflexo da concentração de receitas no mercado interno. São duas leituras de um mesmo vetor, e a posição relativa de cada companhia depende de qual lado do câmbio o investidor projeta para os próximos trimestres.

Dívida alta nas duas pontas, proteção em apenas uma

O endividamento é o segundo eixo da análise do Citi. Segundo o banco, Suzano e Klabin ainda carregam níveis relativamente elevados de dívida — o que muda é a moeda em que o passivo foi contratado e a moeda em que a receita entra.

Na Suzano, o passivo é fortemente dolarizado, mas encontra proteção natural em receitas predominantemente atreladas ao dólar. Na Klabin, a parcela em moeda americana também é significativa, porém a receita tem mais peso em reais e maior sensibilidade aos juros brasileiros. Dessa assimetria nasce a avaliação de que juros em queda e um real mais forte podem melhorar a trajetória de desalavancagem da Klabin.

CompanhiaTickerPerfil de receitaEndividamentoSensibilidade a um real mais forte
SuzanoSUZB3Mais dolarizadoElevado e em dólar, com proteção naturalAlta
KlabinKLBN11Maior peso domésticoElevado, com parcela em dólarMenor
IraniRANI3Maior peso domésticoNão detalhado no relatórioMenor

O que o relatório muda para quem tem exposição ao setor

A discussão desloca o foco de uma pergunta simples — qual companhia cresce mais — para duas variáveis que o investidor pessoa física acompanha de perto: a trajetória da Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira, e o comportamento do real. Com juros em queda, companhias de dívida relevante e receita em moeda local tendem a registrar alívio na alavancagem. Com o real mais fraco, quem tem receita dolarizada tende a ver o resultado inflado pelo câmbio. Historicamente, esses dois movimentos raramente aparecem com a mesma intensidade ao mesmo tempo — e é essa alternância que o relatório organiza em forma de comparação.

O risco, para quem olha o setor, é tratar a eleição como variável única. O próprio material do Citi condiciona o ranking a um cenário específico de política econômica: ajuste fiscal que derrube os juros e fortaleça o real. Se esse cenário não se materializar, a ordem entre as três companhias se reorganiza — sem que nenhuma delas deixe de responder ao câmbio e ao custo da dívida.