Cinco empresas confirmaram nesta quarta-feira (28) o protocolo de pedidos de licença para atuar com ativos virtuais no Banco Central. Com Avenia, Liqi, Bloquo, Nonco e Lumx na lista, o total de processos mapeados no setor chega a 22 — e o prazo para que as instituições já ativas no país apresentem a primeira etapa da documentação termina nesta sexta-feira (30).

Um pelotão de infraestrutura, não de varejo

Nenhuma das cinco é uma exchange desenhada para o investidor pessoa física. O grupo trabalha nos bastidores: emite stablecoins, monta trilhos de remessa internacional, fornece liquidez e vende tecnologia para bancos e fintechs que querem oferecer cripto sem construir a própria estrutura. É um perfil distinto do de Mercado Bitcoin, Binance, Ripio, Bybit e OKX, que também constam no levantamento e disputam o cliente final.

A ida desse tipo de companhia para o pedido formal mostra o alcance da norma, que atinge quem presta serviços com ativos virtuais — inclusive nas frentes de pagamento e câmbio, onde as stablecoins circulam com mais força.

EmpresaFoco de negócioModalidade pedida ao BC
AveniaEmissora da stablecoin BRLA desde 2023Custódia, intermediação, câmbio e conta de pagamento
LiqiTokenização e blockchain como serviçoIntermediária de ativos virtuais
BloquoStablecoins, câmbio e liquidezCorretora de ativos virtuais
NoncoNegociação institucional e balcão OTCNão divulgada
LumxRemessas internacionais com stablecoinsIntermediária de ativos virtuais

O calendário de 30 de outubro e o regime de transição

O prazo desta sexta-feira não encerra o processo: vale para a primeira etapa da documentação de quem já operava no país. Cumpridas as condições do regime de transição, a empresa segue atendendo clientes enquanto o BC avalia o pedido. Protocolar, portanto, é ponto de partida — a licença definitiva depende da análise da autarquia, e novos pedidos podem ser divulgados até o fim da semana.

O que a norma de novembro de 2025 exige

As regras publicadas em novembro de 2025 valem para todas as prestadoras de serviços de ativos virtuais e cobram requisitos de prevenção à lavagem de dinheiro, controles internos, segurança cibernética, governança e capital. A régua recai sobre quem presta serviço com ativos digitais a terceiros, não sobre o investidor que apenas monta posição. Para casas acostumadas a estruturas enxutas, o custo de conformidade deixa de ser opcional.

Avenia: BRLA em busca de uma licença mais ampla

A Avenia emite a BRLA, stablecoin desenhada para acompanhar o real desde 2023, e monta trilhos de remessa internacional com ativos digitais para companhias que atuam na América Latina. O pedido ao BC vai além da intermediação: abrange custódia de cripto e autorizações para câmbio e contas de pagamento.

A empresa sustenta que a adequação começou antes das novas regras. “Estamos avançando em um processo de estruturação regulatória que começou antes mesmo da publicação das novas regras para o setor. Desde o início, nosso objetivo tem sido desenvolver uma infraestrutura de pagamentos baseada em ativos digitais com governança, segurança e conformidade”, afirmou Hector Fardin, cofundador e diretor comercial da Avenia. Segundo a companhia, clientes e parceiros não sentirão mudanças imediatas.

Liqi e Bloquo: tecnologia para terceiros e câmbio com stablecoin

A Liqi protocolou a solicitação pela Liqi Sociedade Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais S.A., unidade que intermedeia compras, vendas e trocas de cripto por conta de clientes. O modelo de Crypto as a Service — em que o banco usa a infraestrutura de terceiros para oferecer ativos digitais — já sustenta operações de Itaú, Avenue, Méliuz e Porto Bank.

A Bloquo entrou com o pedido em 26 de outubro e mira o registro de corretora, que combina intermediação e custódia. O negócio se concentra em stablecoins aplicadas a remessas internacionais, liquidez para empresas e câmbio.

Nonco e Lumx: balcão institucional e dois anos de preparação

A Nonco negocia criptoativos para instituições financeiras e empresas, incluindo balcão — a negociação direta fora de livro de ofertas, o chamado OTC — e fornecimento de liquidez. A operação local fica com a Nonco Serviços Digitais Ltda., com sede em São Paulo. A companhia não revelou a modalidade pedida nem o número do processo.

A Lumx acumulou cerca de dois anos de preparação regulatória antes de protocolar, na categoria de intermediária de ativos virtuais. Sua tecnologia liga sistemas financeiros tradicionais à blockchain para transferências internacionais com stablecoins. “Depois de dois anos de construção, nesta semana chegamos a um marco importante: o protocolo do pedido de autorização da Lumx perante o Banco Central do Brasil”, afirmou Luana Peterle, sócia e diretora jurídica e de compliance da Lumx.

O que os 22 nomes revelam — e o que não revelam

O total consolidado mistura naturezas: anúncios públicos, processos que aparecem nos registros do BC, um comunicado de atividades do Itaú (ITUB4) e um pedido já negado pelo regulador. Não se trata de um ranking de licenças outorgadas.

Para o investidor pessoa física, a consequência é indireta, mas concreta. Stablecoins usadas em remessas passam a rodar dentro de um perímetro supervisionado, o que tende a reduzir risco de contraparte nos serviços oferecidos por bancos e corretoras parceiras. Do outro lado, exigências de capital e governança encarecem a operação e favorecem grupos com estrutura para bancar conformidade — movimento que costuma concentrar mercado. A pergunta relevante daqui em diante é quais das 22 empresas obterão autorização definitiva e em qual prazo.