A MBRF Global Foods (MBRF3) suspendeu a emissão de títulos de dívida em dólar que vinha preparando — seria a primeira captação de alto rendimento da companhia no exterior em cinco anos. Sob a antiga Marfrig Global Foods, a empresa conversou com investidores no início da semana sobre uma operação com vencimentos de sete a dez anos e recuou diante do encarecimento do crédito global. Os papéis são do tipo junk bond, ou seja, dívida classificada como grau especulativo. O recuo ocorre enquanto a companhia tenta administrar uma dívida de aproximadamente R$ 45 bilhões.

Para quem acompanha a ação, o adiamento não é só uma questão de janela. A despesa financeira já corrói fatia relevante do caixa: no segundo trimestre, avançou cerca de 20% na comparação anual e consumiu cerca de três quartos do fluxo de caixa operacional, conforme o relatório financeiro. Com a dívida líquida em 3,4 vezes o Ebit, o espaço para reduzir alavancagem sem dinheiro novo a custo baixo encolhe.

Treasuries no maior nível desde 2002 estreitam a janela

O gatilho do recuo está no mercado de títulos americano. Na quinta-feira, os juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos (os Treasuries) bateram o maior patamar desde 2002, em uma escalada que encarece o financiamento de empresas dispostas a investir ou a refinanciar passivos. Do lado corporativo, os papéis de alto rendimento emitidos nos EUA registraram, no trimestre fechado em 30 de setembro, o pior desempenho mensal e trimestral desde 2022 — sinal de que o apetite por risco também diminuiu.

Recompra de 2029 e o horizonte de desalavancagem até 2027

Sem a emissão externa, a companhia mexeu na própria estrutura de dívida: no início da semana, anunciou uma oferta de recompra para os títulos que vencem em 2029. A avaliação sobre o momento ideal para voltar aos mercados internacionais segue aberta, sem prazo definido.

O quadro de alavancagem, porém, tem outros obstáculos. A desaceleração na operação de carne bovina nos EUA e o custo elevado do dinheiro dificultam os esforços de redução de dívida, enquanto a oferta reduzida de gado pressiona o principal negócio da empresa. Para a Fitch Ratings, o ambiente adverso — que abrange as barreiras às exportações destinadas ao mercado chinês — torna improvável que a companhia inicie um processo consistente de desalavancagem antes de 2027.

Custo do crédito, gado escasso e restrição à China

Criada por Marcos Molina, hoje presidente do conselho, a MBRF virou gigante global de alimentos com a aquisição da BRF concluída no ano passado. A operação hoje vai do frango e da carne suína a congelados como pizzas e lasanhas. Isso ampliou a escala do negócio — e também o tamanho do passivo a ser gerenciado.

São três pressões simultâneas sobre o caixa: o custo do crédito em dólar, a oferta restrita de gado nos EUA e as barreiras comerciais ao mercado chinês. Enquanto os juros globais seguirem no patamar atual, a recompra de títulos e a gestão do passivo existente tendem a ocupar o lugar de uma nova emissão. O relógio da desalavancagem segue, assim, correndo contra o calendário apontado pela Fitch.