Petrobras adiciona R$ 50,9 bi em um dia e ignora a queda do Brent
A Petrobras (PETR3; PETR4) encerrou o pregão de segunda-feira (5) com R$ 50,9 bilhões a mais em valor de mercado, alcançando R$ 751,03 bilhões — o segundo recorde consecutivo da companhia. As preferenciais PETR4 fecharam em alta de 8,19%, a R$ 55,36, e as ordinárias PETR3 subiram 6,68%, a R$ 60,40. Na sexta-feira anterior (2), a estatal já havia marcado seu maior valor de mercado até então, de R$ 700,08 bilhões.
O contraste com o petróleo é o dado que organiza o pregão. O contrato mais líquido do Brent para dezembro, referência internacional que baliza a política de preços da companhia, recuou 1,89%, a US$ 100,32, na Intercontinental Exchange (ICE), em Londres. O barril caiu e a ação subiu no mesmo dia.
Essa divergência importa porque o Brent costuma ancorar o comportamento do papel. Quando os dois se descolam, o mercado tende a precificar um fator que não está na commodity — neste caso, a leitura política do resultado eleitoral.
O gatilho eleitoral por trás do avanço
O primeiro turno da corrida presidencial reposicionou os ativos brasileiros. Flávio Bolsonaro (PL) ficou à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), abriu 2,2 milhões de votos de vantagem e passou a ser apontado como favorito para o segundo turno, previsto para 25 de outubro. O Ibovespa (IBOV) subiu 7,70%, aos 206.911,89 pontos — nível que não alcançava desde 14 de abril e maior alta diária desde março de 2020. A reação ficou conhecida no mercado como trade Flávio.
Para Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, “O desempenho robusto do IBOV reflete a leitura positiva dos agentes econômicos sobre a corrida eleitoral. Mais do que o alívio imediato, o resultado das urnas trouxe uma sensível melhora nas perspectivas para a trajetória da dívida pública, ancorando a confiança do mercado em um cenário econômico mais estável a partir de 2027”.
O que o Citi enxerga em um governo Flávio
Em relatório setorial, o Citi coloca a Petrobras como a empresa de óleo e gás com maior potencial de se beneficiar de uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro. A casa lista os vetores que sustentam a tese — preços de combustíveis mais próximos da paridade internacional, movimento que tende a elevar a concorrência na distribuição, eventual redução de opex (despesas operacionais) e capex (investimentos) e um provável novo programa de desinvestimentos, ou seja, venda de ativos. Os analistas Gabriel Barra, Pedro Gama e Pedro Ferreira de Mello acrescentam que o debate sobre privatização também ganharia força, ainda que o banco veja o tema com ceticismo dada a complexidade do processo. A liquidez elevada e a forte presença da petroleira no Ibovespa, com peso de aproximadamente 13,5%, completam o argumento.
O que a aposta eleitoral muda para quem tem o papel
Dois recordes seguidos indicam que a reprecificação não se esgotou em uma única sessão. A consequência prática para quem acompanha o papel é uma troca de referência. A ação passa a responder menos ao petróleo e mais ao noticiário político das próximas semanas — cada pesquisa, declaração ou movimento de campanha tende a mexer na expectativa embutida no preço até a votação de 25 de outubro.
Esse tipo de movimento costuma ser assimétrico. Se o cenário esperado se confirmar, a leitura do mercado pode se consolidar; se a narrativa mudar, a parcela do preço que hoje reflete a aposta tende a se ajustar, e o fator commodity, que ficou em segundo plano neste pregão, volta a pesar. Nenhum dos caminhos é garantido, e é essa sensibilidade que define o perfil de risco do papel no curto prazo.
A distância entre os dois — uma alta de 8,19% enquanto o Brent recuava 1,89% — só se sustenta com um motivo que não vem do petróleo.
