A Petrobras (PETR3; PETR4) comprometeu R$ 3,22 bilhões em bônus de assinatura — o pagamento feito à União pelo direito de explorar uma área — nos dois certames da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) realizados na quarta-feira (7). O valor equivale a 91% dos R$ 3,54 bilhões arrecadados pelo governo e representa cerca de 0,44% do valor de mercado da estatal, segundo cálculo da XP. Ao todo, a companhia arrematou 21 blocos: 19 no 6º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão e dois no 4º Ciclo da Oferta Permanente de Partilha.

O dado que reorganiza a leitura da rodada não é o total arrecadado, mas a maneira como ele se distribui. A Bacia de Campos absorveu R$ 2,766 bilhões em apenas quatro áreas de águas ultraprofundas, perto de 93% de tudo o que a estatal comprometeu na concessão. Somados, os lances por esses quatro ativos chegaram a representar aproximadamente 196 vezes os bônus mínimos exigidos. A concorrência, ainda assim, foi estreita: o consórcio formado por TotalEnergies e QatarEnergy foi o único a disputar as áreas, com propostas bem menores.

Onde exatamente a estatal colocou dinheiro

Nos dois blocos de maior valor, C-M-115 e C-M-161, a Petrobras ofereceu R$ 754 milhões por área, enquanto os bônus mínimos ficavam na casa de R$ 3,6 milhões. Em C-M-163 e C-M-216, os lances foram de R$ 629 milhões cada. Conforme a XP, as quatro áreas ficam entre 115 e 140 quilômetros de Roncador e fora do polígono do pré-sal.

ItemValor
Bônus totais arrecadados pela ANPR$ 3,54 bilhões
Compromisso da PetrobrasR$ 3,22 bilhões (91%)
Rodada de concessão (19 blocos)R$ 2,99 bilhões
Quatro áreas ultraprofundas de CamposR$ 2,766 bilhões
Rodada de partilha (2 blocos)R$ 232 milhões
Peso no valor de mercado da estatal0,44% (cálculo da XP)

Na concessão, a estatal respondeu por R$ 2,99 bilhões dos R$ 3 bilhões pagos em bônus, praticamente a totalidade da modalidade. Já na partilha, os R$ 232 milhões desembolsados pela companhia equivalem a pouco menos da metade dos R$ 530 milhões levantados.

Campos recupera peso depois de uma década

Os 12 blocos arrematados na Bacia de Campos saíram com 100% de participação da Petrobras e consumiram quase US$ 600 milhões, conforme cálculo do Morgan Stanley. Na avaliação do banco, o volume indica que a bacia — que perdeu espaço relativo para o pré-sal de Santos ao longo da última década — voltou a ganhar relevância na estratégia exploratória da companhia. A Foz do Amazonas aparece como nova fronteira, mas não desloca a região madura do portfólio.

Margem Equatorial: sete blocos divididos com a QatarEnergy

Na Bacia do Ceará, já na Margem Equatorial, a companhia garantiu sete blocos em consórcio com a QatarEnergy, com 70% de participação da estatal. A frente mantém aberta uma região de exploração distinta da de Campos e do pré-sal de Santos, com perfil geológico próprio e histórico exploratório ainda em construção.

Azurita, Cruzeiro do Sul e um bloco que ficou duas vezes sem oferta

Na partilha, a Petrobras levou os dois blocos aos quais concorreu, sem adversários: Azurita, na Bacia de Campos, e Cruzeiro do Sul, no pré-sal de Santos. Nos dois, a participação será de 100%. Em Azurita, a proposta de óleo-lucro — a parcela da produção excedente dividida com a União — foi de 30%, ou 17,5 pontos percentuais acima do piso de 12,5%, com bônus de R$ 98,4 milhões. Em Cruzeiro do Sul, a oferta ficou em 15,27%, contra mínimo de 14,13%, e o bônus, em R$ 134 milhões. Juntos, os pagamentos somam cerca de R$ 232 milhões, ou 0,03% do valor de mercado da estatal.

O histórico de Cruzeiro do Sul explica o destaque. A área não recebeu proposta em duas ocasiões: em 2019, foi ofertada com bônus de R$ 1,15 bilhão e exigência mínima de 29,5% de óleo-lucro; em 2022, as condições caíram para R$ 134 milhões e 14,1%, e ainda assim não houve interessados. Mantidos esses parâmetros, a estatal ficou com o bloco nesta rodada. Azurita está próxima a Tartaruga Verde e Espadarte, enquanto Cruzeiro do Sul faz vizinhança com Tupi e Sépia.

O retrato completo da rodada

Na concessão, apenas 49 dos 308 blocos ofertados receberam propostas, o que gerou R$ 3 bilhões em bônus. Campos concentrou R$ 2,97 bilhões, ou 99% do arrecadado na modalidade. Na partilha, sete dos 13 blocos foram arrematados, com R$ 530 milhões em bônus: Santos respondeu por R$ 337 milhões (64%) e Campos, por R$ 193 milhões. O 4º Ciclo da Oferta Permanente de Partilha teve o maior número de áreas arrematadas desde o início desse modelo, superando as cinco de 2025.

A distância entre o volume de áreas colocadas na mesa e o de áreas efetivamente levadas ajuda a dimensionar o apetite do setor. Uma rodada em que poucos lances respondem por quase todo o valor arrecadado tende a refletir seletividade dos operadores, concentrada em regiões que já contam com infraestrutura, histórico de produção ou vizinhança conhecida — e não uma corrida ampla por fronteiras novas.

PRIO leva Magnetita e Hematita e estuda ligação a FPSO

Outra companhia listada na B3 que apareceu entre as vencedoras foi a PRIO (PRIO3), com os blocos Magnetita e Hematita, na Bacia de Campos. Os bônus somaram aproximadamente R$ 95 milhões, cerca de 0,2% do valor de mercado da empresa. As áreas ficam perto de Wahoo e Frade. Segundo a XP, a PRIO declarou que avaliará os recursos prospectivos dos blocos e que, confirmado o potencial, eles poderiam ser desenvolvidos por meio de uma conexão à FPSO Valente, unidade que opera no campo de Frade. Para o Morgan Stanley, as duas áreas funcionam como fonte de opcionalidade de longo prazo — por ampliação de recursos ou monetização futura —, com efeito limitado sobre os investimentos de curto prazo.

Bônus é 0,44% do valor de mercado; o capital de exploração vem depois

XP e Morgan Stanley relativizam o impacto financeiro imediato. As duas casas avaliam que as áreas adquiridas ampliam o leque de exploração dos próximos anos, sem alterar de forma relevante a trajetória de investimentos no curto prazo. Para quem acompanha a estatal, o ponto de atenção está na distribuição do risco exploratório: a maior parte do desembolso ficou em um único polo, com concorrência restrita, e o retorno depende da confirmação de reservas — um processo que historicamente costuma levar anos até se converter em produção e caixa.

Há duas dimensões distintas embutidas no resultado. A primeira é o pagamento imediato: os R$ 3,22 bilhões em bônus, equivalentes a 0,44% do valor de mercado da companhia. A segunda é o compromisso de capital que vem depois, com estudos sísmicos, perfuração e desenvolvimento das áreas arrematadas, cuja dimensão só se define após a avaliação de cada bloco. É essa segunda etapa que costuma determinar o retorno de longo prazo de uma rodada.

O Morgan Stanley também identifica seletividade na forma como a companhia ocupou o pré-sal, o que sugere disciplina na alocação de capital. A entrada nos sete blocos do Ceará, ao lado da QatarEnergy, preserva a Margem Equatorial como frente em aberto. A PRIO, por sua vez, condiciona qualquer desenvolvimento à avaliação prévia dos recursos prospectivos das duas áreas que arrematou.