O petróleo encerrou a terça-feira praticamente sem sair do lugar, em uma sessão que colocou frente a frente o volume de oferta que continua escoando do Oriente Médio e o risco de novas interrupções ligadas à escalada militar na região. O Brent, referência internacional, subiu 26 centavos (0,3%) e terminou o dia a US$ 100,58 o barril. O WTI, dos Estados Unidos, avançou um centavo e fechou a US$ 89,44.

O dado que melhor explica essa acomodação não está no campo de batalha, e sim na logística. Nos últimos sete a dez dias, petroleiros retiraram do Oriente Médio cerca de 12 milhões de barris por dia de petróleo e 2 milhões de barris/dia de produtos refinados, segundo o presidente-executivo da Vitol. Sem esse fluxo, a pressão de oferta tende a aparecer com muito mais força sobre os preços.

Arábia Saudita reforça a rota do Mar Vermelho

O príncipe Abdulaziz bin Salman, ministro da Energia da Arábia Saudita, informou que o Oleoduto Leste-Oeste, que chega a Yanbu, centro exportador do reino no Mar Vermelho, havia bombeado 5,8 milhões de barris até a manhã de terça-feira. O número sinaliza que Riad consegue manter o escoamento mesmo com o acirramento das hostilidades na região.

Uma balança com vetores em direções opostas

A sessão foi marcada por forças que puxam o preço em sentidos contrários. De um lado, exportações robustas e a liberação planejada pelo Grupo dos Sete (G7) de reservas de emergência de diesel e petróleo. De outro, a possibilidade de novos desarranjos no abastecimento do Oriente Médio.

VetorEfeito sobre o preço
Exportações de 12 milhões de bpd do Oriente MédioAlívio
Reservas de emergência de diesel e petróleo do G7Alívio
Ataques de houthis apoiados pelo IrãPressão de alta
Preparação militar russa apontada por KievPressão de alta
Ciclone no Golfo do MéxicoPressão de alta

As frentes que podem tirar o preço da inércia

Os aeroportos sauditas de Jazan e Najran sofreram dois ataques na noite de segunda-feira, com três pessoas feridas e danos limitados, conforme a autoridade de aviação do reino. A ofensiva ocorre enquanto forças iemenitas apoiadas por Riad tentam retomar território dos houthis, depois de semanas de avanço rebelde e de bombardeios intensificados em apoio à campanha.

No flanco ucraniano, o presidente Volodymyr Zelenskiy afirmou que as informações mais recentes sugerem preparação russa para um ataque em grande escala. A Rússia foi o terceiro maior produtor mundial de petróleo em 2025, atrás de Estados Unidos e Arábia Saudita, e as sanções que mantêm a energia russa fora dos mercados globais sustentam os preços desde a invasão da Ucrânia em 2022. Um acordo de paz poderia liberar mais volume russo para exportação.

Nos Estados Unidos, o Centro Nacional de Furacões apontou 100% de chance de formação de um ciclone nos próximos sete dias no Golfo do México. Uma tempestade na região pode elevar os preços ao comprometer a produção de petróleo e gás natural e danificar infraestrutura energética.

O que a estabilidade do preço significa para quem investe

Com o Brent ancorado na casa dos US$ 100 e o WTI perto dos US$ 89, o petróleo deixa de ser, no curto prazo, o principal vetor de choque inflacionário — desde que o fluxo de oferta se mantenha. Para quem acompanha renda fixa e bolsa brasileira, um petróleo comportado tende a reduzir a pressão sobre o IPCA e, por consequência, sobre a trajetória da Selic, embora a equação siga sensível a qualquer escalada.

O ponto de atenção é a assimetria do cenário. A oferta adicional do G7 e o volume que deixa o Oriente Médio diariamente seguram o preço, mas uma interrupção relevante — por conflito ou por tempestade — pode devolver o prêmio de risco ao barril em poucas sessões. Na direção oposta, a remoção das sanções à Rússia, num eventual acordo de paz, empurraria a oferta para cima. O que separa um dia de calmaria de uma nova disparada está, portanto, menos no noticiário político e mais na capacidade de o fluxo marítimo continuar rodando.