A Prio (PRIO3) encerrou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido de US$ 516,6 milhões, alta de 707% em doze meses — oito vezes o ganho do mesmo intervalo de 2025. No mesmo dia, a Vibra (VBBR3) reportou R$ 2,4 bilhões de lucro líquido ajustado, acima de quatro vezes o apurado no 3T25. Na ponta oposta, GPA (PCAR3), Dexco (DXCO3) e Tenda (TEND3) divulgaram prejuízo ou perda de rentabilidade.
Os balanços desta quinta-feira (5) dividiram as companhias em dois grupos com lógicas distintas de formação de resultado. O primeiro reúne negócios cujo caixa depende do preço de commodities e do volume embarcado. O segundo vive do crédito ao consumidor e precisa de juro mais baixo para girar a demanda. Petróleo valorizado e produção maior explicam o desempenho do primeiro grupo; crédito seletivo e despesa financeira explicam a fraqueza do segundo.
Prio: produção maior, mais vendas de petróleo e Brent caro no mesmo trimestre
Os números da petroleira vieram das demonstrações financeiras em IFRS. A receita líquida alcançou US$ 1,37 bilhão, expansão de 146% em doze meses, enquanto o Ebitda ajustado — o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização — chegou a US$ 1,09 bilhão, com avanço de 235%. A explicação da companhia combina produção em crescimento, volume maior de petróleo comercializado e Brent mais caro, a referência internacional que baliza o preço do barril.
O que torna o trimestre da Prio distinto na temporada é a simultaneidade dos três vetores. Quando volume e preço sobem juntos, o custo fixo da operação se dilui mais rápido e o lucro cresce em ritmo superior ao da receita. Foi o que ocorreu: a receita líquida avançou 146%, e o lucro, 707% — uma diferença que mostra o quanto o resultado da petroleira está exposto à variável preço.
Vibra: R$ 4,3 bilhões de Ebitda e despesa financeira em queda
Na maior distribuidora de combustíveis do país, o Ebitda ajustado somou R$ 4,3 bilhões no 3T26, contra R$ 1,8 bilhão no 3T25 — mais que o dobro. O lucro líquido ajustado de R$ 2,4 bilhões ficou acima de quatro vezes o valor de um ano antes. Segundo a empresa, vendas maiores e despesas financeiras menores compuseram o resultado.
A queda de despesa financeira tem efeito multiplicador sobre o lucro, porque incide no resultado sem passar pelo custo operacional. Em um ambiente de juro alto, esse item costuma ser o primeiro a explicar a diferença entre uma operação que melhora e um lucro que salta.
O outro lado: GPA, Dexco e Tenda ainda sentem o crédito restritivo
O GPA (PCAR3) encerrou o 3T26 com R$ 220 milhões de prejuízo líquido nas operações continuadas — o resultado das unidades que seguem no negócio depois das vendas de ativos —, contra ganho de R$ 142 milhões no 3T25. A companhia conseguiu melhorar a rentabilidade operacional com corte de despesas e foco em negócios mais rentáveis, mas o ajuste não foi suficiente para fechar o trimestre no azul.
A Dexco (DXCO3), dona de marcas como Deca, Hidra, Portinari e Ceusa, registrou R$ 142 milhões de prejuízo líquido, revertendo lucro de R$ 14,2 milhões visto no 3T25. O efeito da desmobilização de fábricas aparece com peso no resultado do trimestre.
Na Tenda (TEND3), o lucro líquido recuou quase 50%, com margens menores e mais distratos — o cancelamento de contratos de compra de imóvel já assinados. A construtora associou o desempenho a um cenário de crédito mais restritivo para as famílias e a dificuldades operacionais na Caixa Econômica Federal, depois de um primeiro semestre de resultados recordes.
O trimestre em números
Os resultados divulgados nesta quinta-feira, lado a lado:
| Empresa (ticker) | Métrica do 3T26 | Valor | Comparação anual |
|---|---|---|---|
| Prio (PRIO3) | Lucro líquido | US$ 516,6 mi | +707% |
| Prio (PRIO3) | Receita líquida | US$ 1,37 bi | +146% |
| Prio (PRIO3) | Ebitda ajustado | US$ 1,09 bi | +235% |
| Vibra (VBBR3) | Lucro líquido ajustado | R$ 2,4 bi | acima de 4x |
| Vibra (VBBR3) | Ebitda ajustado | R$ 4,3 bi | vs. R$ 1,8 bi no 3T25 |
| SmartFit (SMFT3) | Lucro líquido recorrente | R$ 248 mi | +40% |
| GPA (PCAR3) | Prejuízo em operações continuadas | R$ 220 mi | reverte lucro de R$ 142 mi |
| Dexco (DXCO3) | Prejuízo líquido | R$ 142 mi | reverte lucro de R$ 14,2 mi |
| Tenda (TEND3) | Lucro líquido | queda de quase 50% | margens menores |
| Irani (RANI3) | Dividendos intercalares | R$ 13,98 mi | 25% do lucro do 3T26 |
SmartFit: R$ 248 milhões mesmo com abertura acelerada de academias
A Smart Fit (SMFT3) teve lucro líquido recorrente — aquele que desconsidera efeitos pontuais — de R$ 248 milhões no 3T26, 40% acima do mesmo intervalo de 2025. O ganho veio apesar do ritmo veloz de inaugurações, movimento que normalmente pressiona custo no curto prazo por causa da estrutura montada antes de a unidade maturar.
Dois fatores sustentaram a margem: a receita por aluno, que cresceu, e o avanço do TotalPass, benefício corporativo de acesso a academias que amplia a base de usuários sem exigir a mesma estrutura de uma unidade própria.
Oncoclínicas: 74,6% dos créditos abrangidos já aderiram ao plano
A Oncoclínicas (ONCO3) informou ao mercado novas adesões ao plano de recuperação extrajudicial — mecanismo pelo qual a companhia negocia dívidas diretamente com os credores e leva o acordado à homologação judicial. Os credores que já concordaram somam mais de R$ 4,3 bilhões em créditos, o equivalente a 74,6% da base abrangida pelo plano.
O percentual funciona como termômetro da renegociação: quanto mais próxima do total for a adesão, maior a chance de o acordo ser homologado e passar a valer também para quem não assinou. É a métrica que o mercado acompanha para medir a viabilidade da reestruturação.
Irani, Axia e Viridis: dividendos, saída da SEC e terras raras
A Irani (RANI3) aprovou R$ 13,98 milhões em dividendos intercalares do 3T26 — parcela do lucro distribuída ao longo do exercício, e não apenas no fechamento do ano. O valor equivale a 25% do lucro líquido do período, com aval do Conselho de Administração dado na quarta-feira (4).
A Axia Energia (AXIA3) confirmou que o cancelamento do registro na SEC, o regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos, passou a valer. Com isso, a companhia deixa de responder às obrigações de reporte das Sections 13(a) e 15(d) do Securities Exchange Act de 1934, o que reduz exigências de divulgação e custos de manutenção dessa dupla prestação de contas.
Já a Viridis Mining and Minerals anunciou na quarta-feira (4) um acordo vinculante de fornecimento de longo prazo com a Solvay para as terras raras do projeto Colossus, em Poços de Caldas (MG). O contrato garante comprador para a maior parte da produção planejada e é tratado como passo relevante para viabilizar o financiamento e a construção do empreendimento.
Commodities de um lado, crédito do outro: o que muda para a carteira
Quem olha a temporada pelo retrovisor vê lucros extraordinários em energia. Quem olha adiante encontra duas fontes de risco de naturezas diferentes. Em Prio e Vibra, boa parte do resultado depende de variáveis de preço fora do controle das empresas — o Brent, no primeiro caso, e o volume de combustível vendido, no segundo. Se o preço da commodity ceder, a comparação anual fica mais difícil, ainda que a operação siga igual.
No varejo e na construção, o gatilho é outro: o custo do crédito. Enquanto as condições de financiamento seguirem apertadas, resultados como os do GPA, da Dexco e da Tenda tendem a continuar sensíveis, mesmo com corte de despesas. Historicamente, esse grupo recupera margem depois que o ciclo de juros vira, e não antes — o que coloca o custo do dinheiro no centro da agenda dessas companhias nos próximos balanços.
A consequência prática do 3T26 é que o trimestre separou quem tem preço a favor de quem depende de demanda financiada. Antes de comparar empresas de setores diferentes, vale olhar a origem do lucro: se ele vem de preço, de volume ou apenas de despesa menor. São fontes de resultado com durabilidades distintas.
