Prisão em São Paulo encerra quase cinco anos de busca

O empresário Josué Viana Medeiros, conhecido em Manaus como Rei das Criptomoedas, foi detido pela Polícia Militar de São Paulo no sábado (31), enquanto caminhava pela Rua Itajobi, no bairro de Perdizes, zona oeste da capital. Sobre ele pesa uma condenação de 8 anos de prisão em regime fechado por estelionato, além do esquema de captação com criptoativos que, segundo a Polícia Civil do Amazonas, movimentou mais de R$ 45 milhões e deixou cerca de 300 pessoas com prejuízo.

A captura veio quase cinco anos depois da operação que expôs o negócio, batizada de Blockchain Fake e deflagrada em novembro de 2021. Medeiros já havia sido preso antes, em janeiro de 2022, quando a Polícia Rodoviária Federal o localizou em Santarém, no Pará, no decorrer das apurações.

Reconhecimento facial: o rastro tecnológico da captura

A identificação partiu do Muralha Paulista, programa do governo estadual que reúne câmeras de segurança, leitura automática de placas e ferramentas de reconhecimento facial — softwares que comparam rostos captados nas imagens com fotografias de bases de segurança pública.

Entre os arquivos consultados está o Banco Nacional de Mandados de Prisão. Quando o cruzamento aponta compatibilidade com alguém procurado pela Justiça, o alerta chega às forças policiais, que fazem a verificação presencial. Foi assim que os militares abordaram o condenado na rua, sem precisar de uma operação montada em um endereço específico.

Na checagem, confirmaram a ordem expedida pela Justiça do Amazonas e efetuaram a prisão. Medeiros passou por exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML) e foi levado ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros. Havia previsão de audiência de custódia para o domingo (1), sem registro público posterior sobre o resultado.

A promessa de 10% ao mês e os documentos falsificados

As apurações da Polícia Civil do Amazonas começaram em 2021, a partir de denúncias de clientes que haviam aplicado em uma empresa apresentada como operadora de criptomoedas. A Delegacia Especializada em Roubos, Furtos e Defraudações (DERFD) descreveu o roteiro: contratos assinados com a promessa de rendimentos próximos de 10% ao mês, sob a justificativa de que o dinheiro seria aplicado em ativos digitais e os lucros distribuídos periodicamente.

Os ganhos anunciados, porém, não tinham correspondência com resultados reais. O então delegado titular da DERFD, Adriano Félix, relatou em janeiro de 2022 que parte das vítimas passou a desconfiar ao encontrar irregularidades na papelada entregue pelos responsáveis. Os comprovantes de investimento eram forjados — serviam para dar credibilidade e convencer o cliente de que seus recursos estavam sob gestão correta. Parte do dinheiro captado, segundo a polícia, foi direcionada a operações para esconder a origem dos valores.

Os números do caso

ItemValor
Movimentação estimadaMais de R$ 45 milhões
Investidores lesados (estimativa)Cerca de 300
Retorno prometidoAproximadamente 10% ao mês
Condenação8 anos, regime fechado
Veículos apreendidos5
BMW, Troller e Mini Cooper (Manaus)R$ 6 milhões, em conjunto
Ferrari e McLaren (Brasília e SP)R$ 5 milhões, cada

Carros de luxo, compras simuladas e suspeita de lavagem

O padrão de vida exibido foi parte central da investigação. Em Manaus, Medeiros construiu a imagem de sucesso financeiro com veículos importados — foi daí que veio o apelido Rei das Criptomoedas.

A polícia identificou um mecanismo de compras simuladas de automóveis de alto padrão, com o objetivo de dissimular a procedência dos recursos recebidos dos investidores e dificultar o rastreamento do dinheiro. Na operação de novembro de 2021, cinco carros ligados ao grupo foram apreendidos: três em Manaus — BMW, Troller e Mini Cooper — avaliados em cerca de R$ 6 milhões no total, e dois em ações em Brasília e São Paulo, uma Ferrari e uma McLaren, cada um estimado em R$ 5 milhões.

Essa etapa descreve a fase seguinte à captação: a tentativa de transformar dinheiro de origem duvidosa em patrimônio aparentemente legítimo — o que se chama de lavagem de dinheiro.

O filho e a ausência de dados sobre ressarcimento

As apurações apontaram ainda o filho de Medeiros, Josué Victor Almeida de Figueiredo Medeiros, então com 24 anos, como procurado pela polícia em janeiro de 2022. A Polícia Civil divulgou o envolvimento de pai e filho no esquema e pediu auxílio da população para localizá-lo. As informações mais recentes não esclarecem a situação judicial atual dele.

Segue em aberto também o destino do dinheiro: não há dados públicos atualizados sobre recuperação de valores nem sobre quanto do montante movimentado poderá retornar às vítimas.

O que o investidor pode extrair do caso

Três elementos do roteiro descrito pela polícia aparecem com frequência em esquemas com criptoativos. O primeiro é a rentabilidade fixa e alta: 10% ao mês é uma promessa de retorno pré-definido, incompatível com a natureza volátil dos ativos digitais, cujos preços oscilam sem garantia de resultado.

O segundo é a dependência de contratos e comprovantes emitidos pela própria captadora. Documentos assim não provam a existência de operações reais; no caso do Amazonas, eram justamente as peças fabricadas para simular segurança.

O terceiro é a falta de informação verificável sobre a destinação do dinheiro. Antes de transferir recursos para qualquer estrutura que prometa render com criptomoedas, vale checar se a empresa existe formalmente, quem são seus sócios e se há autorização para a atividade anunciada.

O desfecho mostra ainda que a tecnologia atua dos dois lados: o mesmo reconhecimento facial capaz de identificar foragidos em segundos amplia a chance de captura de condenados por fraudes financeiras anos depois dos fatos.