A Ripio protocolou na terça-feira (27) junto ao Banco Central o pedido de autorização para continuar operando no mercado brasileiro, movimento feito a três dias do fim do prazo regulatório e acompanhado de uma reorganização ampla da plataforma: 37 criptomoedas saem do catálogo, o saldo em reais deixa de existir e a Ripio Trade será desligada por etapas. A empresa, de origem argentina e uma das maiores corretoras de criptoativos da América Latina, chegou ao país em 2015 e afirma que seguirá atendendo clientes ao longo da adequação.
Um protocolo, duas licenças
A solicitação foi montada na modalidade de corretora de ativos virtuais, figura que habilita a empresa a intermediar negociações e a guardar criptomoedas em nome de terceiros. No mesmo pacote, a Ripio pediu aval para atuar no mercado de câmbio, o que alargaria o leque de serviços financeiros ligados a ativos digitais caso a análise seja favorável.
Entregar o pedido, porém, está longe de significar licença na mão. O regulador ainda vai verificar o cumprimento das exigências do setor e não informou prazo para concluir a avaliação.
Sobre a permanência no país, a Ripio se posicionou por escrito.
“A Ripio prioriza o mercado brasileiro desde 2015 quando tomou a decisão de expandir para o país. Qualquer que seja a adequação necessária para continuar operando conforme as regras do país, faremos”, afirmou Sebastian Serrano, CEO da Ripio, em comunicado.
O calendário que aperta o setor
As normas divulgadas pelo BC em novembro de 2025 alcançam exigências de capital mínimo e governança, passam por controles internos e segurança cibernética e chegam a regras de custódia e de combate à lavagem de dinheiro. Quem já operava precisa entregar até sexta-feira (30) a primeira etapa do pedido. Aquele que cumprir as condições do regime de transição — mecanismo que permite manter as atividades enquanto a análise corre — continua de portas abertas.
A Ripio caminha junto de outras gigantes: Mercado Bitcoin, Binance, Bybit e OKX também anunciaram protocolos nos últimos dias. No sentido contrário, Revolut, Coinext e NovaDAX comunicaram suspensão ou encerramento de serviços com criptomoedas no Brasil, indicando que a conta entre custo de conformidade e retorno esperado não fecha para todos os modelos de negócio.
O que muda para quem tem conta
O aviso chegou aos clientes em setembro: a plataforma deixaria de armazenar saldo em reais. A partir de então, o dinheiro depositado em moeda brasileira é transformado, sem custo, em wBRL — uma stablecoin, token digital desenhado para manter preço estável, emitida pela própria Ripio. A paridade é de 1 para 1 com o real, com lastro declarado em reservas mantidas em instituições financeiras reguladas.
Sacar segue possível: o usuário converte o wBRL de volta para reais e envia o valor por Pix para uma conta bancária cujo titular seja ele mesmo, numa operação que passa pelo Banco Genial.
| Movimento | Data-limite |
|---|---|
| Venda ou transferência das 37 criptomoedas retiradas | segunda-feira (26) |
| Fim dos depósitos por Pix e das negociações na Ripio Trade | 29 de outubro |
| Saldos em reais convertidos automaticamente para wBRL | 30 de outubro |
| Desligamento da versão atual da Ripio Trade | 30 de novembro |
Entre as 37 moedas removidas do aplicativo estão DAI, PYUSD, RLUSD, SUI, ONDO e XAUT. O que sobrar depois do prazo será trocado automaticamente por USDC — outra stablecoin, essa ancorada no dólar — ao preço de mercado. Já os recursos remanescentes da Ripio Trade devem ser levados para a Ripio Wallet, seguindo o roteiro que a empresa enviou aos usuários.
Não houve confirmação pública, por parte da Ripio, de que o fim da conta em reais tenha sido determinado pela regulamentação do BC, embora a data escolhida coincida com o encerramento do prazo.
A leitura para o investidor
A licença pedida não funciona como garantia de que o cardápio de produtos seguirá igual. A própria Ripio evidencia que o ajuste às regras pode vir junto com corte de ativos, troca da moeda de referência e desligamento de plataformas — decisões que alteram a rotina de quem usa a corretora.
Dois pontos pedem atenção. O primeiro é a mudança de natureza do saldo: em vez de reais em conta, o cliente passa a carregar um token emitido pela exchange, com lastro declarado, mas cuja qualidade depende do emissor — um risco de contraparte diferente do que existia antes. O segundo é o relógio. Quem tem posição em qualquer uma das 37 moedas retiradas precisa agir até as datas informadas, sob pena de ver o saldo virar USDC sem escolha.
Enquanto o BC não conclui a análise, a exchange segue remodelando estrutura e serviços, e ainda não há prazo divulgado para a decisão final. Para o investidor, acompanhar quais instituições entraram no regime de transição e revisar a concentração de custódia em uma única plataforma virou parte do trabalho de casa.
