Principais pontos
- De cada R$ 10 a mais que o setor faturou em 12 meses, quase R$ 9 vieram de preço e pouco mais de R$ 1 de serviço efetivamente prestado.
- A alta de 2,4% do setor nos últimos 12 meses até julho é a menor desde setembro de 2024.
- A média móvel do trimestre ficou zerada e, dentro dela, quatro das cinco atividades já apresentam comportamento negativo.
A estagnação dos serviços esconde o real problema: quase R$ 9 de cada R$ 10 faturados vieram de preço
A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de julho registrou estabilidade de 0,0% na atividade do setor, depois de alta de 0,1% no mês anterior e recuo de -0,2% em maio, conforme apuração publicada pelo InfoMoney. Com o Banco Central mantendo a Selic em 14% ao ano, o terceiro mês consecutivo sem avanço relevante no setor que responde pela maior parcela da economia brasileira reforça a tese de que a atividade está desacelerando — e, com ela, a justificativa para a continuidade do ciclo de cortes de juros.
O número mais revelador do relatório, porém, não estava no título: a composição entre preço e volume. Na leitura de André Matos, CEO da MA7 Capital, o dado de julho responde à pergunta sobre preços de forma quase brutal, porque o volume de serviços cresceu 0,9% em doze meses enquanto a receita avançou 7,1%. De cada R$ 10 a mais que o setor faturou em 12 meses, quase R$ 9 vieram de preço e pouco mais de R$ 1 de serviço efetivamente prestado.
O setor está faturando mais sem produzir muito mais — e isso é exatamente a inflação de serviços que o Banco Central aponta como principal risco de alta, nas palavras de Matos. Para o investidor, essa é a coordenada central do momento: a fraqueza da atividade ajuda o Copom a seguir cortando, mas a inflação embutida no faturamento do setor limita a velocidade do movimento. O dado de julho alimenta as duas forças ao mesmo tempo.
O motor em pausa: TI puxou o ano e caiu em julho
O economista sênior do Inter, André Valério, observou que a alta de 2,4% do setor nos últimos 12 meses até julho é a menor desde setembro de 2024. E, na comparação anual, apenas os serviços de TI — uma subdivisão dos serviços de informação e comunicação — são responsáveis por dois terços do crescimento total observado.
Segundo Valério, essa dependência tem explicação estrutural: ainda há sinais de arrefecimento na dinâmica do setor como um todo, reflexo da política monetária contracionista, o que ajuda a explicar a importância dos serviços de TI, um segmento asset light (com baixa intensidade de ativos), pouco sensível às taxas de juros e mais correlacionado com o ciclo econômico internacional.
A radiografia mensal da XP mostra que julho foi quase a imagem espelhada de junho: quatro dos cinco grandes segmentos de atividades registraram alta na comparação mensal, mas os Serviços de Comunicação e Informação — que vinham sendo o motor do setor — deram uma pausa. A principal surpresa negativa veio daí: queda de 2,5% na comparação mensal, com os Serviços de TI recuando 3,0% e os Serviços Audiovisuais perdendo 3,7%, após um junho excepcionalmente forte. Em contrapartida, o Transporte Aéreo registrou seu primeiro ganho mensal em várias leituras.
A casa interpretou o recuo como um ajuste parcial, e não como um ponto de inflexão: em termos anuais, o grupo ainda subiu 4,6% e registrou a maior contribuição positiva isolada para o resultado principal.
Desaceleração sem retração: onde o setor está parado
O consenso entre as casas consultadas é que o setor pina sem tombar. Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, a estagnação por dois meses seguidos é sinal de perda de ritmo e aumenta a chance de um terceiro trimestre mais fraco, embora ainda seja cedo para falar em retração do PIB. O setor continua operando perto das máximas da série, então não há queda disseminada — há uma desaceleração que já aparece com mais clareza, não apenas efeito de preços. Com juros ainda altos, crédito mais caro e consumo perdendo força, o ritmo atual parece difícil de sustentar.
Matos complementa o diagnóstico com a leitura de curto prazo: não haverá retração no terceiro trimestre porque o setor está apenas 0,2% abaixo do topo histórico. Mas o sinal de tendência piorou — na leitura de Matos, a média móvel do trimestre ficou zerada e, dentro dela, quatro das cinco atividades já apresentam comportamento negativo. O mês positivo veio de recomposição, com transporte e serviços profissionais devolvendo perdas anteriores, enquanto informação e comunicação, que era o motor do setor, caiu 2,5%. Isso sugere um setor girando em torno de um patamar, não avançando.
Pela ótica do consumo, a XP enxerga sustentação vinda do mercado de trabalho ainda apertado: os Serviços Prestados às Famílias cresceram em quatro dos últimos cinco meses em termos anuais. Do lado oposto, altas taxas de juros e a crescente carga do serviço da dívida das famílias seguem como ventos contrários relevantes. A projeção da casa é de que as receitas totais do setor cresçam cerca de 2,0% em 2026, após aumento de 2,9% em 2025.
André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital, adds ao debate a distinção nominal versus real: o volume de serviços acumula alta de 1,9% no ano, já descontado o efeito dos preços, enquanto a receita nominal cresce em ritmo superior — o que mostra que parte relevante do avanço do faturamento ainda vem da inflação.
O que os bancos projetam para Selic e PIB
Na ponta da taxa de juros, Valério projeta que a moderação deve persistir pelos próximos meses, entrando em 2027, o que permitirá ao Copom seguir com os ajustes na Selic. Para a reunião de setembro, outro corte de 25 pontos-base é consenso, mas o Inter espera que o Copom siga cortando nas reuniões restantes do ano, com a Selic alcançando 13,25% em dezembro.
Matheus Pizzani, economista do PicPay, concorda que a maior fraqueza do setor de serviços, vista sob a ótica do hiato do produto, abre espaço para o BC dar prosseguimento ao ciclo de calibragem nas próximas reuniões — embora a maior rigidez dos preços deste setor, que no curto prazo devem ser afetados em proporção diminuta pela desaceleração, siga como impeditivo para um avanço mais significativo do que apontam as projeções atuais. Para o PicPay, a projeção de PIB de 2026 (+1,70%) e a Selic no fim do ano (13,50%) permanecem inalteradas.
| Instituição | Indicador | Projeção |
|---|---|---|
| Inter | Selic em dezembro | 13,25% |
| PicPay | Selic no fim do ano | 13,50% |
| PicPay | PIB 2026 | +1,70% |
| XP | PIB 2026 | 1,7% |
| XP | PIB 2027 | 1,0% |
| XP | PIB 3º tri 2026 (trimestral) | 0,0% |
| XP | PIB 3º tri 2026 (anual) | 1,6% |
| ASA | PIB 3º tri 2026 | +0,2% |
O Monitor XP para o crescimento do PIB do 3º trimestre está em 0,0% na comparação trimestral e 1,6% na anual, com projeção de PIB de 2026 mantida em 1,7%, arrefecendo para 1,0% em 2027. Já Leonardo Costa, do ASA, avalia que a PMS de julho se mostrou mais fraca que o esperado e projeta crescimento de +0,2% para o PIB do 3º trimestre, com continuidade da desaceleração gradual na segunda metade do ano.
Para o investidor: o que essa leitura muda no cenário
A consequência prática da leitura — sem qualquer recomendação de operação — está em dois vetores. O primeiro é o da curva de juros: se a atividade confirma a moderação, o caminho de Selic projetado pelas casas se torna mais plausível; historicamente, trajetórias descendentes da taxa básica tendem a reprecificar renda fixa prefixada e inflação. O segundo vetor é o que trava esse movimento: a inflação de serviços, hoje visível na diferença entre receita nominal de 7,1% e volume de 0,9% em 12 meses, costuma ser a variável que o BC observa com mais desconfiança antes de acelerar cortes.
Caruso ainda aponta um desdobramento relevante para o financiamento do crescimento: com juros em patamar elevado e maior seletividade bancária, sustentar investimento e capital de giro exige ampliar as alternativas de funding. Nesse desenho, mercado de capitais, securitização, FIDCs, crédito estruturado e instrumentos lastreados em recebíveis tendem a ganhar importância, especialmente para empresas médias que não podem depender exclusivamente do crédito bancário tradicional. O desafio, resume o executivo, não é apenas gerar demanda, mas garantir condições financeiras para que as empresas transformem essa demanda em investimento e expansão.
O quadro externo também pesa. Para Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, a estagnação dos serviços brasileiros ocorre num momento em que o crescimento mundial ficou menos uniforme: investimentos em tecnologia sustentam parte da atividade global, mas conflitos, protecionismo e inflação resistente dificultam uma redução contínua dos juros lá fora. Para o Brasil, esse ambiente chega pelo dólar, pelas commodities, pelo custo do financiamento e pelo comportamento dos fluxos internacionais de capital.
O que observar a partir daqui
Três marcadores organizam a agenda. Primeiro, a reunião de setembro do Copom, em que outro corte de 25 pontos-base já é tratado como consenso entre as casas ouvidas. Segundo, as reuniões restantes do ano, que definirão se a Selic caminha para o patamar projetado pelo Inter (13,25%) ou pelo PicPay (13,50%) em dezembro. Terceiro, as próximas leituras da PMS e os monitores de PIB do terceiro trimestre — o alerta, como sintetiza Murad, não está em retração, mas na falta de força para avançar: o setor cresce de fato, mas o aumento do faturamento dependeu muito mais de preços e composição do que de volume.
