De tesouraria cripto a plano de recompra
A SkyAI encerrou por completo sua exposição a Solana e redirecionou o caixa para os próprios papéis. A companhia — que nasceu como Sharps Technology, no ramo de dispositivos médicos — vendeu toda a posição que mantinha em SOL e, com US$ 223,8 milhões em caixa apurados em 16 de outubro, abriu oferta pública para recomprar até US$ 201,3 milhões em ações e warrants.
O documento foi protocolado na segunda-feira na SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos. A oferta alcança até 95% de cada classe de ações e de warrants em circulação — warrants são títulos que conferem ao dono o direito de comprar ações no futuro por preço já definido. O pagamento sai integralmente do caixa disponível, sem financiamento novo, e quem aderir vende seus papéis de volta à empresa por valor fixo.
O formato final difere do que havia sido sinalizado em 11 de outubro, quando o anúncio da recompra previa amarrar a oferta à cotação do SOL. Essa cláusula foi retirada, e o preço deixou de depender do token.
A SkyAI afirma que seguirá desenvolvendo uma plataforma financeira que combina infraestrutura de stablecoin — criptomoeda lastreada em ativo de referência, em geral o dólar — na rede Solana com ferramentas de inteligência artificial.
A conta que a tesouraria deixou
A trajetória foi montada em pouco mais de um ano. Em agosto de 2025, a empresa levantou mais de US$ 400 milhões numa colocação privada — captação feita diretamente com investidores selecionados, sem oferta aberta ao mercado. No mês seguinte, comprou mais de 2 milhões de SOL, posição que, na cotação de então, superava US$ 400 milhões.
O fechamento de 2025 expôs o tamanho da aposta: cerca de 2,08 milhões de tokens, base de custo de US$ 403,1 milhões — perto de US$ 194 por unidade. A mercado, essas mesmas moedas valiam US$ 250,1 milhões, o que deixava algo como US$ 153 milhões em perdas não realizadas, ou seja, prejuízo contábil de posições ainda não vendidas.
| Métrica | Valor |
|---|---|
| Caixa em 16 de outubro | US$ 223,8 milhões |
| Teto da recompra | US$ 201,3 milhões |
| Fatia de cada classe | até 95% |
| SOL no fim de 2025 | ~2,08 milhões de tokens |
| Custo de aquisição | US$ 403,1 milhões (~US$ 194 por token) |
| Valor de mercado no fechamento de 2025 | US$ 250,1 milhões |
| Perda não realizada | ~US$ 153 milhões |
Um setor inteiro no vermelho
O caso da SkyAI não é isolado. Em fevereiro de 2026, companhias de capital aberto que carregavam SOL em tesouraria somavam prejuízo contábil conjunto superior a US$ 1,5 bilhão, num ambiente em que a desvalorização do token e o recuo das avaliações na bolsa se alimentavam mutuamente.
O próprio SOL chegou a cerca de US$ 62 em junho. De lá para cá, recuperou parte do terreno e era negociado perto de US$ 104 na segunda-feira, segundo a CoinGecko.
O que os números dizem ao acionista
Na bolsa americana, o papel fechou a segunda-feira em US$ 2,79, com ganho de 5,3% no dia. No acumulado de um mês, sobe cerca de 65%; em 12 meses, ainda amarga queda de aproximadamente 41%, conforme dados do Yahoo Finance.
A leitura que se impõe é a de uma companhia que trocou uma aposta direcional no preço do SOL por devolução de capital. Ao se dispor a comprar até 95% de cada classe, a SkyAI abre aos atuais sócios uma rota de saída a preço fixo e conhecido — algo relevante num papel que, apesar do rali recente, segue bem abaixo do patamar de um ano atrás. Do outro lado, fica a promessa de uma plataforma que une stablecoin na Solana e inteligência artificial, hoje a única frente operacional declarada pela empresa. A pergunta que se coloca é quanto valor permanece na estrutura depois que a tesouraria em cripto deixar de existir.
