Reforma contábil dos EUA mira o caixa das empresas
Um relatório publicado pela Tempo, blockchain com apoio da Stripe, aponta que as normas contábeis em discussão nos Estados Unidos podem eliminar um dos maiores obstáculos ao uso corporativo de stablecoins. O FASB — conselho que define os padrões contábeis americanos — apresentou a minuta em agosto, e o texto permite que tokens que cumpram determinados requisitos passem a ser lançados como equivalentes de caixa: a linha do balanço que reúne aplicações de liquidez imediata e baixo risco, tratadas quase como dinheiro em conta. O mercado de moedas digitais atreladas ao dólar já supera US$ 300 bilhões, segundo a DefiLlama.
Por que o critério contábil pesa tanto
Na regra vigente, uma tesouraria pode carregar stablecoins integralmente lastreadas em dólar e, ainda assim, não conseguir lançá-las entre as disponibilidades divulgadas. O efeito aparece em dois pontos: índices de liquidez perdem precisão e cláusulas de contratos de empréstimo — os covenants — podem ser acionadas por um critério que não mede a qualidade real do ativo. Com a mudança, pagamentos e liquidações em stablecoin deixariam de produzir esse ruído contábil.
Resgate direto define o enquadramento
A minuta analisada pela Tempo exige que a companhia tenha direitos diretos de resgate junto ao emissor. Adquirir USDC em uma exchange, por exemplo, não garante o enquadramento. A Tempo cita o caso da Coinbase, que no balanço anual de 2025 enquadrou USDC e demais stablecoins usadas em pagamentos na categoria de equivalentes de caixa, com respaldo de seu acordo de resgate com a Circle.
Consulta pública, GENIUS Act e vigência
O texto do FASB segue aberto a comentários até 19 de novembro; depois disso, o conselho avalia as contribuições, fecha a redação e define quando a norma passa a valer. A discussão vem na esteira da GENIUS Act, aprovada em julho de 2025 como a primeira estrutura regulatória federal abrangente dos EUA para stablecoins de pagamento. A lei começa a valer em janeiro de 2027 ou 120 dias depois de os reguladores federais fecharem as normas de implementação, o que vier antes.
| Marco | Situação |
|---|---|
| Comentários à minuta do FASB | até 19 de novembro |
| GENIUS Act | aprovada em julho de 2025 |
| Vigência da GENIUS Act | janeiro de 2027 ou 120 dias após as regras finais |
| Mercado de stablecoins em dólar | acima de US$ 300 bilhões |
Vale separar as duas camadas. A GENIUS Act impõe exigências voltadas aos emissores, entre elas a composição das reservas e o direito de resgate. A minuta do FASB trata de como quem detém stablecoins as registra nos próprios balanços.
A disputa pelo dólar como pano de fundo
Enquanto a parte contábil avança, a administração Trump avalia formas de estimular o uso de stablecoins atreladas ao dólar fora dos Estados Unidos. A avaliação envolveria o Tesouro, o Departamento de Estado e a agência americana de financiamento ao desenvolvimento (DFC), além de parcerias com companhias privadas para tocar projetos no exterior — movimento que tenderia a reforçar o papel da moeda americana como principal ativo de reserva global.
Leitura para o investidor
Para quem acompanha criptoativos e empresas de pagamento listadas, o relatório sinaliza um detalhe pouco glamouroso, mas decisivo: a adoção corporativa de stablecoins depende menos da tecnologia do token e mais do desenho jurídico do direito de resgate. É esse contrato que define se o ativo entra no caixa ou fica numa linha de menor liquidez — e, portanto, se ele serve ou não à tesouraria de uma companhia aberta.
Duas consequências práticas merecem atenção. A primeira é a comparabilidade: se a regra passar, balanços de empresas que já operam com stablecoins poderão ser lidos de forma mais direta. A segunda é o calendário. Existe um intervalo entre a aprovação da GENIUS Act, a definição das regras de implementação e a vigência efetiva, e é nesse intervalo que as escolhas contábeis das companhias vão se desenhar.
