Strive fecha captação de US$ 630 milhões sem detalhar fatia destinada a Bitcoin
A Strive encerrou em 20 de outubro a sua oferta pública inicial ampliada de ações preferenciais SATS, com captação bruta de US$ 630 milhões. O comunicado da companhia confirma o tamanho da operação, mas deixa em aberto a pergunta que mais interessa a quem acompanha a tese do papel: quanto desse caixa será efetivamente convertido em Bitcoin (BTC).
A empresa é comandada por Matt Cole, que acumula a presidência do conselho de administração e a direção executiva. O modelo de negócio é o de uma tesouraria de Bitcoin — companhia listada que carrega BTC no balanço como ativo estratégico central, em vez de mantê-lo apenas como aplicação financeira acessória.
A aritmética da oferta
A colocação envolveu 7 milhões de papéis, cada um precificado a US$ 90. Descontados comissões de subscrição, descontos e despesas, a estimativa da Strive é de US$ 608,15 milhões em recursos líquidos — o montante que de fato chega ao caixa.
| Item | Valor |
|---|---|
| Ações vendidas | 7 milhões |
| Preço por ação | US$ 90 |
| Captação bruta | US$ 630 milhões |
| Recursos líquidos estimados | US$ 608,15 milhões |
| Valor declarado por ação | US$ 100 |
| Dividendo anual sobre o valor declarado | 15% (US$ 15 por ação) |
| Retorno anualizado sobre o preço da oferta | 16,67% |
No formulário entregue à SEC, o regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos, a Strive listou as finalidades pretendidas para os recursos: compras de Bitcoin, capital de giro, ativos geradores de renda, despesas de capital, recompras de ações e aquisições, dentro de um guarda-chuva de fins corporativos gerais. A compra de BTC aparece, portanto, como uma hipótese entre várias — sem percentual definido, sem prazo e sem compromisso de execução.
O dividendo que define o custo do papel
As SATS pagam 15% ao ano sobre um valor declarado de US$ 100 por ação. O valor declarado é a referência contábil fixada para o cálculo do provento, e não o preço desembolsado pelo investidor na oferta. Na hipótese de pagamento integral, isso representa US$ 15 por ação a cada ano. Como o papel saiu a US$ 90, o retorno anualizado equivale a 16,67% do preço de entrada.
Os proventos são cumulativos: valores não declarados em determinado período se acumulam e só são desembolsados quando o conselho delibera pela distribuição. O cronograma previsto indica pagamentos em cada dia útil a partir de 9 de novembro, sempre sujeitos à declaração formal. O primeiro pagamento, se aprovado na íntegra, incorpora o que se acumulou desde o fechamento da oferta, em 20 de outubro.
Sem dívida, com um compromisso fixo
Jeff Walton, diretor de risco da Strive, afirmou que a companhia opera sem dívidas e sem vencimentos a honrar, com a gestão voltada a um único compromisso: distribuir os proventos aos detentores das preferenciais.
O cenário de 7.372 BTC
Numa simulação com o Bitcoin cotado a US$ 82.500, o caixa líquido de US$ 608,15 milhões compraria cerca de 7.372 BTC antes de taxas e custos de execução. A base de comparação é o estoque já divulgado pela Strive: 36.818 BTC. Com a alocação integral, o total subiria para aproximadamente 44.190 BTC, patamar ligeiramente superior aos 44.000 BTC reportados pela Metaplanet, referência japonesa do mesmo modelo de tesouraria.
A conta, porém, é hipotética em duas frentes. A primeira é que a empresa não se comprometeu a usar todo o caixa em BTC. A segunda é que o preço de US$ 82.500 serve apenas como referência de cálculo, não como projeção para a cotação da criptomoeda.
O que observar daqui para frente
A estrutura combina dois relógios distintos. O primeiro é contratual: o dividendo de 15% ao ano é saída de caixa recorrente, e o comunicado não detalha qual será a fonte de recursos para sustentá-lo — BTC, por si só, não gera cupom. O segundo é discricionário: a compra de cripto depende de decisão da administração e pode ser diluída entre as demais finalidades listadas no documento enviado à SEC.
Para o investidor pessoa física, o ponto de acompanhamento é a divulgação periódica do estoque de BTC e de qualquer atualização sobre a alocação dos recursos captados. Enquanto não houver número oficial, o mercado trabalha com a hipótese máxima — a de que os US$ 608,15 milhões se convertam em 7.372 BTC —, e hipótese não é fato.
