A Petrobras (PETR3;PETR4) estuda elevar em cerca de R$ 1 por litro o preço do diesel vendido nas refinarias e aguarda a publicação de medidas do governo federal que absorveriam o impacto antes que ele chegue ao consumidor. Segundo apuração da Reuters com duas fontes a par das discussões, o reajuste seria a resposta da estatal à defasagem de R$ 3,20 por litro estimada pela Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) — o número que, na prática, explica todo o movimento e que não aparece no destaque inicial da notícia.

R$ 2,12 por litro: a conta que sustenta o reajuste invisível

O desenho da operação combina duas peças. Na véspera, o governo anunciou, por meio de medida provisória (MP), um novo subsídio ao diesel inicialmente fixado em R$ 1 por litro, que será somado ao benefício de R$ 1,12 por litro já em vigor, conforme declarou à imprensa o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, na quarta-feira. Somadas, as duas subvenções chegam a aproximadamente R$ 2,12 por litro.

Do lado da petroleira, o diesel comercializado nas refinarias estaria em torno de R$ 3,30 por litro, de acordo com os cálculos de uma das fontes. É contra esse patamar que a defasagem é medida. "Com mais um real, a defasagem que está grande quase zera. Claro que, se o petróleo e o diesel continuarem aumentando, o governo vai ter que pensar em novas soluções", afirmou a fonte.

IndicadorValor
Preço do diesel nas refinarias da PetrobrasR$ 3,30/litro
Subsídio atualR$ 1,12/litro
Novo subsídio anunciado em MPR$ 1,00/litro
Subsídio total potencialR$ 2,12/litro
Defasagem média estimada pela AbicomR$ 3,20/litro
Petróleo no exterioracima de US$ 100/barril

A leitura do Ativo Virtual é que a engenharia proposta cria um reajuste em duas camadas: a estatal recupera margem internamente, enquanto o mecanismo de subvenção neutraliza o repasse. Mesmo assim, uma das fontes reconhece que o total dos subsídios, caso efetivado, pode não ser suficiente para eliminar por completo a diferença frente ao preço internacional — embora traga "alívio importante".

Quem ganha e quem paga a conta

O beneficiário central é a própria Petrobras, que corrige preços sem sacrificar volume de venda e sem desgaste direto com o consumidor — "A Petrobras aumentará um real e, para o consumidor, o efeito será neutro", resumiu a fonte. Já o financiamento recai sobre o setor de petróleo e gás. Pela apuração, o governo teria espaço fiscal para a medida graças ao aumento da arrecadação do setor, que inclui royalties, participação especial, recursos da PPSA (Pré-Sal Petróleo S.A.), taxas de exportação e os próprios resultados da estatal, que pagaria mais dividendos com o maior lucro. Há ainda um imposto de exportação de petróleo implantado temporariamente justamente para viabilizar programas de subsídios e desonerações de combustíveis.

"O governo tem de onde tirar porque está arrecadando mais com royalties, participação especial, PPSA, taxas de exportação e resultados da própria Petrobras, que pagará mais dividendos com mais lucro", disse a fonte.

Para quem acompanha as ações da companhia, a leitura analítica é dupla: de um lado, a proposta reduz as preocupações de que a estatal teria abandonado sua política comercial de alinhamento de preços — tema que voltou ao centro do debate depois de a companhia revisar, horas depois, um anúncio de aumento de R$ 0,19/litro na gasolina, episódio que analistas viram como risco à previsibilidade. De outro, o aumento do lucro que financia dividendos também é a fonte da arrecadação que banca o subsídio — um circuito que tende a ser debatido pelo mercado.

Importadoras privadas no mesmo barco

O desenho atual do programa passa pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis): produtores e importadores concedem o desconto no preço de venda, registram o abatimento nas notas fiscais e são reembolsados depois pela agência. Um programa mais robusto de subsídios poderia ajudar também empresas privadas do setor, incluindo as que enfrentam dificuldade para importar com os preços externos elevados. O dado relevante aqui: o Brasil importa cerca de 25% de suas necessidades de diesel, e parte do consumo doméstico é atendida por refinarias privadas locais. A matéria da Reuters registra, inclusive, que a ampliação do benefício favorece a Petrobras, mas divide analistas quanto aos efeitos sobre as distribuidoras.

Por que a defasagem explodiu agora

A estimativa da Abicom de R$ 3,20 de diferença média não decorre apenas do petróleo oscilando acima de US$ 100 o barril, pressionado pela intensificação da guerra no Irã. A menor oferta global do combustível, provocada pelos ataques de drones ucranianos a refinarias da Rússia, agravou o quadro. A Petrobras, quando questionada sobre defasagem, costuma argumentar que suas bases logísticas têm maior eficiência e abrangência no território nacional, razão pela qual cálculos voltados a empresas menores não seriam adequados para a petroleira.

O que observar

Nada está fechado. A empresa informou em nota, na madrugada desta quinta-feira, que aguarda a publicação dos atos legais necessários antes de avaliar e implementar qualquer nova subvenção. Uma segunda fonte reforça que a expectativa é de uma portaria do Ministério da Fazenda, com desoneração "de mais de um real". Os pontos em aberto que tendem a definir o tamanho do alívio para a estatal são o formato final da medida, a eventual desoneração tributária adicional e o prazo de vigência. Os ministérios da Fazenda, do Planejamento e de Minas e Energia não comentaram o assunto imediatamente. A companhia, por sua vez, afirmou que não antecipa movimentos sobre reajustes de preços.