Tese em 3 pontos
- A conversora Garabi 2 adicionou R$24,2 milhões à RAP com 20 meses de antecipação sobre o prazo da ANEEL.
- A leitura do Ativo Virtual é que a tese pode sair reforçada no longo prazo, mas segue pressionada no curto prazo pelo custo da dívida.
- A Fitch projeta pico de 4,1 vezes em 2026, com queda para 3,9 vezes em 2027 e cerca de 3 vezes em 2028.
A Taesa (TAEE11) concluiu a entrega da conversora Garabi 2 com 20 meses de antecipação, adicionou mais de R$24 milhões à receita anual permitida (RAP) e viu suas units acumularem alta superior a 7% em cinco dias, cotadas a R$41,40, com valorização de 25,55% em 12 meses.
A leitura do Ativo Virtual é que a tese pode sair reforçada no longo prazo, mas segue pressionada no curto prazo pelo custo da dívida. O avanço operacional e a promessa de desalavancagem a partir de 2027 tendem a sustentar o caso de dividendos, enquanto a alavancagem em 4,2 vezes dívida líquida sobre EBITDA e o ciclo de investimentos de R$6,7 bilhões mantêm o risco financeiro no centro da decisão.
A dívida vai piorar antes de melhorar
A mensagem da administração, segundo o material analisado, é que o endividamento atual faz parte da estratégia de comprar receita futura, mesmo com juros ainda elevados.
Entrega 20 meses antes: Garabi 2 soma receita
A conversora Garabi 2 adicionou R$24,2 milhões à RAP com 20 meses de antecipação sobre o prazo da ANEEL. O ativo estava previsto para março de 2028 e entrou com efeitos retroativos a 7 de agosto para o ciclo 2026 a 2027.
A RAP é a receita anual permitida, ou seja, a remuneração regulada que a transmissora recebe pela disponibilidade das linhas e subestações. Antecipar a entrada em operação significa transformar investimento em faturamento antes do cronograma, o que tende a melhorar o retorno sobre o capital investido.
Segundo a análise, o adicional de R$24,2 milhões na RAP reforça a tese de eficiência operacional, porque mostra capacidade de executar obras com deságio e disciplina sem abrir mão da rentabilidade. Esse tipo de entrega também ajuda a compensar, ao menos parcialmente, o envelhecimento de concessões antigas.
Aquisições e ciclo de R$6,7 bilhões: de onde virá o crescimento
Em 12 de agosto, a Taesa informou a conclusão da aquisição de cinco ativos operacionais, que adicionam aproximadamente 1.305 km de linhas de transmissão ao portfólio.
Os ativos citados são:
- Energisa Tocantins
- Energisa Tocantins 2
- Energisa Pará
- Transmissora de Energia 2
- Energisa Goiás Transmissora de Energia 1
Somando projetos em construção e aquisições, o novo ciclo de investimentos chega a aproximadamente R$6,7 bilhões. A RAP operacional já relevante deve ser complementada por parcelas de ativos em implantação, com a RAP total construída e em construção passando de R$4,55 bilhões, segundo os números apresentados.
Além de Garabi 2, a entrada parcial em operação de Tangará, Ananaí e Saíra adicionou quase R$120 milhões à RAP para o ciclo 2026 a 2027. Para o investidor de longo prazo, a leitura é que a companhia troca alavancagem presente por fluxo de caixa futuro, premissa que precisa se confirmar via energização no prazo e remuneração adequada.
Dívida em 4,2x EBITDA: por que sobe e quando pode cair
No segundo trimestre de 2026, a relação dívida líquida sobre EBITDA, indicador que mede quantas vezes a geração operacional seria necessária para quitar a dívida líquida, estava em 4,2 vezes.
A diretoria, com participação do CEO Rinaldo Pecchio e da CFO Kátia Pereira em evento recente, indicou que a alavancagem deve começar a cair em 2027, abrindo espaço para novos investimentos. A Fitch Ratings, agência de classificação de risco, projeta trajetória semelhante em sua metodologia.
A Fitch projeta pico de 4,1 vezes em 2026, com queda para 3,9 vezes em 2027 e cerca de 3 vezes em 2028.
| Ano | Projeção Fitch dívida líquida / EBITDA | Leitura |
|---|---|---|
| 2026 | 4,1 vezes | pico do ciclo |
| 2027 | 3,9 vezes | início da desalavancagem |
| 2028 | cerca de 3 vezes | normalização gradual |
Mesmo nesse ciclo pesado, a agência mantém o rating nacional AAA da Taesa, o maior possível na escala local. O risco, na visão do Ativo Virtual, é que a queda projetada depende de juros, execução de obras e integração das aquisições sem frustrações relevantes.
Resultado do 2T26: operação forte, lucro pressionado por juros
Os destaques do segundo trimestre de 2026 mostram operação resiliente, mas resultado final afetado pelo custo financeiro.
A receita líquida regulatória cresceu 9,5%, somando R$1.334,7 milhões no semestre. O EBITDA regulatório, lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização em visão regulatória, avançou 10,5% nos seis primeiros meses, para mais de R$1,1 bilhão, com margem EBITDA regulatória próxima de 85%, alta de 0,8 ponto percentual.
O ponto de atenção foi o lucro líquido regulatório, que caiu 16,4%, para R$399,4 milhões, refletindo o peso maior das despesas financeiras do ciclo de expansão. Ou seja, a companhia operou bem na linha operacional, mas pagou mais caro pelo capital que financia o crescimento.
Dividendos de até 100% do lucro regulatório: o que esperar
Mesmo com a dívida elevada, a Taesa manteve o perfil de forte distribuidora, com anúncio de R$206,8 milhões em proventos no período analisado.
A partir do exercício social de 2025, a política passou a prever distribuição entre 90% e 100% do lucro líquido regulatório. Antes, a referência era de 50% do lucro em IFRS, depois ajustada para 75% do regulatório, até chegar à faixa atual, mais próxima da geração de caixa.
O dividend yield médio dos últimos cinco anos, que relaciona dividendos pagos ao preço da ação, foi de 10,48%, contra yield atual próximo de 7,24%, segundo dados de mercado citados. A história mostra crescimento de 2019 a 2022, inclusive na pandemia, seguido de queda em 2023 com o aumento dos investimentos.
A expectativa citada é de novo anúncio de dividendos em novembro. Para a tese, o que precisa ser verdade é que o lucro regulatório comporte o payout elevado sem comprometer covenants, reservas estatutárias e o cronograma de obras.
Valuation e análise técnica: P/L, preço justo e níveis de preço
Na cotação de R$41,40, a TAEE11 negocia a P/L, indicador de preço sobre lucro, de 8,80 vezes. O patamar aparece abaixo do benchmark de 10 a 12 vezes citado para o Brasil e de 15 vezes para os Estados Unidos, o que pode sugerir desconto relativo, com a ressalva do maior endividamento.
Em relação ao setor, a média citada é de 8,09 vezes, o que deixa o papel próximo dos pares. Na média própria dos últimos 10 anos, desde 2016, o múltiplo é de 8,17 vezes, com poucos anos abaixo da média, como 2024, 2021, 2020 e 2018.
Pela fórmula de Benjamin Graham aplicada via Investidor10, o preço justo citado é de R$49,88, o que implicaria potencial de cerca de 20%. Trata-se de referência quantitativa de terceiros, não de garantia de retorno, e tende a variar com lucro, juros e crescimento.
No gráfico semanal, de médio prazo, o papel rompeu a resistência de R$41,26 após testar médias, com máxima recente de R$43,18 na semana de 17 de novembro de 2025. A superação do topo anterior sinaliza reversão de tendência de baixa para alta no médio prazo, embora sem indicar continuidade indefinida. Para baixo, a perda do fundo citado poderia levar a teste na faixa de R$35,96 a R$35,75.
O que muda para investidores
Para quem avalia TAEE11, o trade-off atual pode ser resumido em três pontos:
- No cenário positivo, antecipações como a de Garabi 2, integração das cinco aquisições e queda da alavancagem de 4,1 vezes para cerca de 3 vezes até 2028 tendem a sustentar RAP, caixa e dividendos elevados.
- No cenário adverso, juros persistentemente altos, atrasos em obras ou frustração de sinergias podem manter a dívida pressionada e limitar o lucro distribuível, mesmo com payout de até 100%.
- No valuation, o múltiplo próximo da média histórica e do setor, combinado ao preço justo de R$49,88 citado, indica que parte do otimismo com a alta de 7% pode já estar refletida, o que eleva a importância de acompanhar energizações, endividamento e próximos proventos.
A decisão, portanto, tende a depender do horizonte e da tolerância a alavancagem: quem prioriza previsibilidade de dividendos pode ver reforço na tese de longo prazo, enquanto quem prioriza balanço mais leve pode preferir aguardar a confirmação da desalavancagem projetada para 2027.
