Os títulos públicos do Tesouro Direto fecharam em queda nesta terça-feira (29), e o movimento foi comandado pelos papéis atrelados à inflação de vencimento mais distante. O Tesouro IPCA+ 2050 passou de 7,13% para 7,03%, baixa de 10 pontos-base — cada ponto-base corresponde a 0,01 ponto percentual.

A forma como o recuo se espalhou pela curva (o conjunto de taxas por prazo) é o que dá substância ao dia. Enquanto a ponta longa atrelada ao IPCA cedeu com mais força, os prefixados registraram variações bem menores. O contraste tende a indicar que os ajustes recaíram sobre as expectativas de juros reais de prazo mais distante, e não sobre a precificação de curto prazo.

A curva por vencimento

TítuloTaxa anteriorTaxa em 29/09
Tesouro IPCA+ 20507,13%7,03%
IPCA+ Juros Semestrais 20607,18%7,07%
IPCA+ Juros Semestrais 20457,31%7,21%
Prefixado Juros Semestrais 203714,10%14,02%
Prefixado 203214,15%14,08%
Prefixado 202913,90%13,87%

Na ponta longa do IPCA+, as baixas ficaram entre 10 e 11 pontos-base, enquanto os prefixados recuaram de maneira mais discreta, com quedas que não passaram de 8 pontos-base.

Desemprego perto da mínima mantém o BC no radar

Na agenda doméstica, a PNAD apontou taxa de desemprego de 5,3%, ainda próxima da mínima histórica e em linha com o que os analistas esperavam. Para Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, “O dado manterá a visão do Banco Central de uma atividade que continua desacelerando, mas com mercado de trabalho apertado, apesar de observamos dados mais fracos na margem”. Leonardo Costa, economista do ASA, compartilha a leitura e vê os indicadores como sinal de acomodação paulatina da atividade, sem trancos no emprego.

Exterior e eleição entram na conta

Fora do país, o fio condutor foi a retomada do diálogo entre americanos e iranianos a respeito do Estreito de Ormuz. Na véspera, Washington havia recusado a proposta do Irã para reabrir a rota, movimento que empurrou o petróleo para cima. Com o diálogo de volta à mesa, os índices futuros operaram sem grande oscilação, e o dólar comercial abriu em baixa, devolvendo parte do avanço do dia anterior.

No terreno eleitoral, o levantamento mais recente da AtlasIntel/Bloomberg traz Lula com 45,3% das intenções no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com 42,2%. Ambos recuaram na comparação com a semana anterior. No segundo turno, a vantagem se inverte: Flávio surge 0,1 ponto à frente, dentro da margem de erro, o que reedita o empate técnico do levantamento anterior.

O que a queda muda para quem investe

Para quem acompanha a renda fixa pública, a sessão deixa duas leituras práticas. A primeira é que a ponta longa do IPCA+ é a fatia da curva mais sensível ao noticiário externo — as conversas entre americanos e iranianos mexeram com o petróleo e o dólar, e as taxas longas responderam de imediato. A segunda é que taxas menores nos papéis negociados significam retorno potencial mais modesto em novas alocações nesses vencimentos, o que interessa sobretudo a quem trabalha com horizontes longos.

O mercado de trabalho segue como o fator doméstico a observar de perto: com o desemprego em 5,3%, o ritmo de desaceleração da atividade tende a continuar no centro das decisões de política monetária, e qualquer mudança nesse quadro costuma se refletir na formação das taxas ao longo dos próximos meses.