A USD1, stablecoin da World Liberty Financial, encolheu 9,1% em valor de mercado ao longo de duas semanas e fechou a segunda-feira com US$ 4,02 bilhões em circulação — US$ 401 milhões a menos do que os US$ 4,43 bilhões registrados em 6 de outubro. O movimento não nasceu de perda de paridade nem de migração entre redes: veio de resgate efetivo, com queima de tokens concentrada em Ethereum e na BNB Chain.

De onde saiu o dinheiro

O levantamento da Onchain Benchmark, firma de pesquisa de blockchain, separa as saídas em duas frentes. Na Ethereum, US$ 184,60 milhões deixaram a stablecoin em 63 queimas — o termo designa a destruição do token no momento em que o detentor o devolve ao emissor em troca do dólar correspondente — entre 6 e 15 de outubro. Na BNB Chain, foram US$ 200,43 milhões distribuídos em 12 queimas.

O detalhe que chama atenção está na BNB Chain: praticamente US$ 200 milhões saíram de um único endereço, ainda não identificado, com as transferências fracionadas em lotes de US$ 30 milhões a US$ 50 milhões. Os pesquisadores não conseguiram definir quem controla a carteira nem o motivo dos resgates.

A Solana não recebeu esse volume. Nos nove dias cobertos pelo relatório, a oferta de USD1 por lá seguiu estável, na casa de US$ 1,42 bilhão. As pontes entre Ethereum e BNB Chain movimentaram menos de US$ 1 milhão no período, o que descarta a hipótese de simples realocação entre redes.

A paridade com o dólar resistiu

Nenhuma das saídas derrubou a cotação. A USD1 oscilou entre US$ 0,998 e US$ 1,000 durante todo o intervalo analisado, e a Onchain Benchmark não localizou indício de ruptura prolongada do lastro. Na Ethereum, mais de 99% dos tokens levados a resgate passaram por uma carteira identificada como da BitGo, atual emissora e custodiante da moeda.

O painel de prova de reservas da World Liberty Financial — registro público que lista os ativos destinados a lastrear cada unidade em circulação — mostrava cerca de US$ 4,01 bilhões, praticamente o mesmo tamanho da oferta total. A moeda encolheu, mas a cobertura seguiu perto de um para um.

Retração mais forte que a das rivais

A contração da USD1 na Ethereum superou a de outras stablecoins atreladas ao dólar no mesmo intervalo.

Stablecoin (rede Ethereum)Variação da oferta entre 6 e 15 de outubro
USD1-11,45%
USDe-4,93%
USDC-2,18%
USDT-0,76%
IndicadorValor
Capitalização em 6 de outubroUS$ 4,43 bilhões
Capitalização na segunda-feiraUS$ 4,02 bilhões
Variação no período-US$ 401 milhões (-9,1%)
Reservas declaradasUS$ 4,01 bilhões
Resgates na EthereumUS$ 184,60 milhões (63 queimas)
Resgates na BNB ChainUS$ 200,43 milhões (12 queimas)

O que isso significa para o investidor

O tamanho da oferta de uma stablecoin funciona como termômetro de uso: quanto maior o supply, maior a presença da moeda em pares de negociação, empréstimos e liquidez on-chain. Uma retração de 11,45% em dez dias na rede onde o ativo é mais usado reduz essa profundidade e pode encarecer operações de proteção cambial e de troca para quem trafega em dólar digital.

Dois pontos merecem acompanhamento. O primeiro é a concentração: resgates partindo de uma carteira só revelam que a base de detentores da USD1 é estreita, e decisões de poucos agentes mexem no total. O segundo é a troca de emissor. A BitGo aparece no relatório como emissora e custodiante atual, sinal de transição para uma nova fiduciária dentro do grupo. O tamanho que a moeda terá sob o novo operador depende justamente de como esses grandes detentores se posicionarem nas próximas semanas.

O dado a monitorar é a oferta na Solana. Se novas emissões por lá reconstituírem o total, o episódio de outubro terá sido pontual; se o patamar ficar onde está, o mercado passará a precificar uma USD1 menor — e menos líquida — do que a observada até aqui.