O primeiro turno da corrida presidencial recolocou as empresas de utilities — o segmento de energia elétrica e saneamento — no centro do debate, e o Bradesco BBI mediu o efeito de um apetite maior por risco sobre o setor. O banco calcula que, a cada 0,50 ponto percentual de recuo nos juros reais de longo prazo, os preços-alvo das companhias mais sensíveis sobem entre 5% e 6%.

Flávio Bolsonaro terminou a primeira rodada à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula — cerca de 2,2 milhões de votos de vantagem. O placar alimenta a expectativa de migração de recursos para ações domésticas mais atreladas ao ciclo econômico, o que tende a reduzir a atração relativa das defensivas.

O que difere a largada deste ciclo

A posição de partida do investidor mudou em relação às eleições anteriores. Segundo o Bradesco BBI, as carteiras chegaram ao primeiro turno de 2018 e de 2022 com exposição menor a utilities; agora, a fatia destinada ao setor é maior. Esse detalhe importa: com mais gente já posicionada, o espaço para valorização adicional em bloco fica mais estreito caso os recursos migrem para nomes cíclicos.

A avaliação é assinada pelos analistas Francisco Navarrete, João Fagundes e Matheus Caruso, do Bradesco BBI, que enxergam duas forças disputando o setor: a saída dos investidores das defensivas e um possível recuo das taxas reais longas.

Duration: quem sente mais cada 0,50 ponto

Duration, aqui, é a medida de quanto o preço de uma ação reage a mudanças nas taxas longas — quanto maior, mais o papel se move quando o juro real cede. Cinco empresas se destacam nesse quesito: Sabesp (SBSP3), Energisa (ENGI11), Equatorial (EQTL3), Copasa (CSMG3) e Auren (AURE3).

CenárioEmpresas citadasTickers
Queda dos juros reaisSabesp, Energisa, Equatorial, Copasa, AurenSBSP3, ENGI11, EQTL3, CSMG3, AURE3
Juros sem quedaISA, Copel, AxiaISAE3, CPLE6, AXIA3
Resiliência em vários cenáriosEneva, Sabesp, CopasaENEV3, SBSP3, CSMG3

No grupo mais sensível à duration, o BBI projeta expansão real de 27% a 68% no lucro e de 12% a 30% no EBITDA — o resultado operacional antes dos juros, dos tributos e das parcelas de depreciação e amortização — entre 2026 e 2029.

Quando o juro não cede, a duration vira risco

Se a queda das taxas longas não se materializar, a mesma sensibilidade que favorece o primeiro grupo passa a pesar. Nesse cenário, o banco destaca ISA (ISAE3), Copel (CPLE6) e Axia (AXIA3), que combinam menor duration com resultados mais previsíveis ou dividend yield — o retorno em proventos sobre o preço da ação — suficiente para remunerar quem espera.

Eneva, Sabesp e Copasa em qualquer cenário

Três companhias aparecem como as mais resistentes a cenários macroeconômicos distintos: Eneva (ENEV3), Sabesp e Copasa. A Eneva se apoia na previsibilidade da receita dos contratos de capacidade, com correção inflacionária. Já Sabesp e Copasa têm como diferencial a regulação atrelada à base de ativos regulatórios, com correções anuais de tarifa e revisões em intervalos regulares — o que confere ao lucro dessas empresas uma previsibilidade maior do que a das distribuidoras de energia.

Recomendações e preços-alvo sem alteração

O Bradesco BBI ressalta que não promoveu mudanças em suas recomendações nem em seus preços-alvo. O estudo serve para identificar quais companhias respondem mais a cada fator do setor, deixando a combinação desses fatores a critério do investidor.

O posicionamento mais carregado do investidor é o fator que mais altera o cenário. Com mais gente já alocada, a valorização do segmento como bloco tende a encontrar barreira maior, e a disputa relativa entre as empresas — mais do que a direção do setor — passa a definir os resultados.