Principais pontos

  • O recuo do consumo das famílias em 0,4% no segundo trimestre, já captado pelo PIB, e a retração do varejo em julho apontam na mesma direção: os efeitos da política monetária e do endividamento das famílias estão pesando sobre o nível de atividade.
  • As atividades sensíveis ao crédito caíram 0,5% na margem e deixaram um carrego negativo de 1,0% para o terceiro trimestre.
  • O indicador ampliado, que incorpora veículos e material de construção, subiu 0,4%, sustentado por material de construção (0,7%) e veículos (0,3%).
  • Quatro dos oito segmentos do índice restrito operam em contração anual, segundo a XP.

O volume de vendas do comércio varejista restrito recuou 0,8% em julho, resultado que os economistas leem como sinal de esgotamento da demanda e de desaceleração da economia no terceiro trimestre. A leitura, apurada pela InfoMoney com casas como XP, PicPay, Inter, Bradesco, ASA e CNC, reforça a expectativa de corte de juros na reunião do Copom (Comitê de Política Econômica) marcada para esta terça (15) e quarta-feira (16). A Selic está hoje em 14% ao ano.

O recuo do consumo das famílias em 0,4% no segundo trimestre, já captado pelo PIB, e a retração do varejo em julho apontam na mesma direção: os efeitos da política monetária e do endividamento das famílias estão pesando sobre o nível de atividade.

O gargalo é o crédito, não o preço

Móveis e eletrodomésticos recuaram 4,9%, a maior retração do grupo desde dezembro de 2023, e concentraram a principal pressão negativa sobre o resultado de julho. Vestuário cedeu 3,2%. São categorias que dependem de financiamento e de parcelamento para girar — e é nesse ponto que o custo do crédito aparece com força.

As atividades sensíveis ao crédito caíram 0,5% na margem e deixaram um carrego negativo de 1,0% para o terceiro trimestre. Os setores sensíveis à renda recuaram 0,2%, com carrego de -0,1%. Para Alexandre Maluf, economista da XP, a diferença entre os dois grupos é coerente com os efeitos defasados da política monetária contracionista sobre o crédito, mesmo com a renda do trabalho ainda amortecendo parte da queda do consumo. Quatro dos oito segmentos do índice restrito operam em contração anual, segundo a XP.

Com a Selic em 14%, o custo do parcelamento pesa mais do que o preço da etiqueta nas categorias que dependem de financiamento.

Na CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), o diagnóstico segue a mesma linha: parte do comércio depende fortemente de financiamento, e o custo do parcelamento ajuda a explicar a queda nas vendas, segundo o economista João Vitor Gonçalves.

O respiro do varejo ampliado

O indicador ampliado, que incorpora veículos e material de construção, subiu 0,4%, sustentado por material de construção (0,7%) e veículos (0,3%). A leitura dos economistas, porém, pede cautela: o avanço representa um respiro após as quedas fortes de junho, sem reverter as perdas acumuladas. O Bradesco chama atenção para os supermercados, que recuaram 0,2% e alternam resultados positivos e negativos no mesmo patamar desde fevereiro.

Matheus Pizzani, economista do PicPay, observa que a queda do varejo restrito ocorreu em um período com fatores benignos: inflação de alimentos em recuo, expansão do crédito na margem e crescimento da massa de rendimentos. Se o consumo cedeu mesmo nesse ambiente, o peso do endividamento se sobressai. Pizzani acrescenta que julho teve impulsos sazonais efêmeros, como o clima de inverno e a renovação de frotas, e projeta desempenho mais fraco à frente, quando esses efeitos se dissiparem.

O que o dado leva à mesa do Copom

O dado de atividade entra na conta da calibragem dos juros. Na avaliação de Pizzani, mais uma evidência de economia em desaceleração tende a influenciar a decisão do Copom, que deve manter o aperto monetário até uma Selic terminal projetada em 13,5% para 2026 — contra os 14% praticados hoje.

No mesmo debate, o BofA trabalha com a tese de "fadiga" da atividade econômica e reduziu suas projeções de PIB e de Selic, apontamento que a InfoMoney destacou na apuração. A reunião do Copom ocorre nesta terça (15) e quarta-feira (16).

Projeções: IBC-Br, carrego e PIB

Com a retração considerada disseminada, XP e Inter estimam queda de 0,2% para o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) em julho.

IndicadorVariação
Varejo restrito-0,8%
Varejo ampliado+0,4%
Móveis e eletrodomésticos-4,9%
Vestuário-3,2%
Supermercados-0,2%
Material de construção+0,7%
Veículos+0,3%
Setores sensíveis ao crédito-0,5%
Setores sensíveis à renda-0,2%
Consumo das famílias (2º tri)-0,4%

A XP calcula carrego estatístico negativo de 0,6% do varejo restrito para o terceiro trimestre e um tracking de PIB de -0,02% no período. O Bradesco vê viés de baixa para o consumo das famílias, estimando alta de 0,4% no trimestre, enquanto o ASA fixa a projeção do PIB trimestral em 0,2%.

O que muda para quem acompanha o mercado

André Valério, economista sênior do Inter, afirma que o dado reafirma indícios de demanda enfraquecida, com esgotamento tanto da renda quanto do crédito. Leonardo Costa, economista do ASA, sustenta a leitura de desaceleração gradual da economia. Para o investidor com exposição a setores domésticos, o conjunto reforça um cenário em que a trajetória dos juros, mais do que o volume de vendas, tende a orientar o humor dos ativos ligados ao consumo — sem sinal, até aqui, de alívio monetário em ritmo rápido.