Nesta terça-feira (3), a B3 (B3SA3) informou que sua calculadora de títulos privados passou a cobrir 1.680 papéis — 730 CRA e 950 CRI. A referência de preço chega justamente onde a liquidez acontece. Esses ativos concentram 95% do giro de CRA e 83% do de CRI no Trademate, o ambiente eletrônico de renda fixa da bolsa.

CRA e CRI são certificados de recebíveis. Quem compra o papel financia o agronegócio (CRA) ou o setor imobiliário (CRI) e recebe juros até o vencimento. Uma ação tem cotação refeita a cada negócio fechado; esses títulos, não — podem atravessar semanas sem trocar de mãos, o que transforma a conta do preço justo em um exercício de modelagem.

“Em crédito privado, combinar uma taxa é apenas parte do processo”, afirma Fernando Bianchini, superintendente de Produtos de Renda Fixa da B3.

A ferramenta converte a taxa acertada entre as partes em preço unitário (PU), projeta o fluxo de caixa do papel, calcula a duração financeira — medida do prazo médio ponderado que indica o quanto o preço reage a mudanças na taxa — e simula valores de liquidação.

Planilhas próprias, referências divergentes

Até aqui, cada instituição chegava ao PU com seu próprio modelo, e dois participantes podiam atribuir valores distintos ao mesmo papel no mesmo dia. A calculadora da B3 oferece uma referência comum, o que tende a encurtar essa dispersão. A companhia ressalva que a ferramenta não substitui a descoberta de preço feita pelo mercado, tampouco a análise de crédito de cada emissão.

A referência de preço chega justamente onde a liquidez acontece.

Um estoque de R$ 449 bilhões em 6.730 títulos

IndicadorValor
Estoque de CRA (ago/2026)R$ 175 bilhões
Estoque de CRI (ago/2026)R$ 274 bilhões
Total CRA + CRIR$ 449 bilhões
Títulos registrados6.730 (1.350 CRA e 5.380 CRI)
Títulos cobertos pela CALC1.680 (730 CRA e 950 CRI)
Negócios no Trademate (1º sem/2026)R$ 797 bilhões
Operações no período3,25 milhões

Os 1.680 papéis contemplados são uma fração dos 6.730 que a bolsa mantém registrados — mas a fração que responde pela maior parte do giro, conforme os percentuais informados pela própria companhia.

Trademate cresce 40% em um ano

O balanço que a B3 divulgou em julho aponta R$ 797 bilhões movimentados no Trademate no primeiro semestre de 2026 com títulos privados, 40% acima de igual intervalo de 2025. As operações chegaram a 3,25 milhões, alta de 39% — números que incluem debêntures e cotas de fundos fechados, além de CRA e CRI.

Anbima amplia base de cedentes e devedores

Em outubro, a Anbima passou a reunir na sua plataforma de dados quem cede e quem deve os recebíveis de CRA e CRI — base que já conta com 883 participantes. Cedente é quem origina o recebível, como uma trading do agronegócio ou uma incorporadora. Identificar essa cadeia é parte do mesmo esforço de transparência que a B3 persegue no cálculo.

O que muda para quem tem CRA ou CRI na carteira

Para quem já tem esses papéis, o efeito mais direto aparece na comparação de ofertas no secundário. Com um PU de referência público, a negociação deixa de depender inteiramente do modelo de quem está do outro lado — o que tende a favorecer operações com taxas e prazos mais fáceis de conferir, sobretudo em papéis de giro baixo.

O limite é conhecido. Nenhuma calculadora elimina o risco de crédito do devedor nem resolve a escassez de compradores para um papel específico. Em renda fixa privada, o preço de referência organiza a conversa; a decisão continua passando pela qualidade do emissor e pela possibilidade real de sair da posição antes do vencimento.

Para o investidor pessoa física, o anúncio padroniza uma etapa da negociação — o cálculo — num mercado de R$ 449 bilhões em estoque que cresce em ritmo acelerado, mas ainda convive com liquidez desigual entre papéis.