Tese em 3 pontos
- O Banco do Brasil entregou um lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre de 2026.
- O custo do crédito alcançou R$ 18,5 bilhões, com alta de 16,1% na comparação anual.
- A relação P/VP aponta que a instituição negocia 44% abaixo do seu valor patrimonial.
Para responder se BBAS3 vale a pena, a leitura da fonte aponta uma assimetria clara: o banco entrega lucros recordes e múltiplos descontados, mas a deterioração da carteira de crédito pode corroer a sustentabilidade do dividendo no médio prazo.
O Banco do Brasil entregou um lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre de 2026. A alta de 13,9% na comparação trimestral e de 3,3% na base anual superou as projeções do mercado. Contudo, a reação das ações, que recuaram cerca de 4%, reflete o ceticismo com a qualidade dos ativos. O trade-off para o investidor reside entre o desconto patrimonial imediato e o risco de novas provisões.
O resultado que confunde o mercado
A máquina de receita do Banco do Brasil segue forte. A margem financeira bruta atingiu R$ 27,5 bilhões, um avanço de 9,6% em 12 meses, impulsionada pela margem com clientes. As receitas com prestação de serviços bateram R$ 9,1 bilhões. No entanto, o fôlego operacional foi consumido pelas despesas e, principalmente, pelo risco de crédito.
Enquanto as receitas crescem em ritmo acelerado, a gestão de risco exige atenção redobrada. A instituição atua como banco universal e mantém posição de destaque no varejo e no agronegócio, mas o prêmio de risco governamental e a exposição cíclica seguem na precificação.
O calcanhar de aquiles: custo de crédito e inadimplência
O custo do crédito alcançou R$ 18,5 bilhões, com alta de 16,1% na comparação anual. Esse índice mede o dinheiro separado para cobrir perdas esperadas e descontos em renegociações. O Banco do Brasil precisou renegociar R$ 31 bilhões, incluindo o novo Desenrola, o que, embora evite a perda seca, pode apenas postergar o problema se a capacidade de pagamento do tomador não se recuperar.
O reflexo mais claro desse movimento está na qualidade da carteira. A inadimplência maior que 90 dias saltou para 5,61%, saindo de 5,05% no trimestre anterior e de 3,96% no mesmo período do ano passado.
A expansão da carteira de crédito, que chegou a R$ 1,3 trilhão, ocorreu majoritariamente em segmentos que estão gerando mais dor de cabeça. A carteira de pessoa física cresceu 4,4% ao ano, enquanto a do agronegócio avançou 4,1%. Na contramão, a pessoa jurídica reduziu sua participação, justamente o segmento com menor índice de calotes. A análise do Ativo Virtual destaca que, diferentemente de pares como o Bradesco, que reformulou suas estratégias para reduzir a inadimplência, o Banco do Brasil tende a sentir mais o peso da deterioração recente.
O risco do agronegócio e a MP 1376
O agronegócio é o maior ofensor em perdas, concentrando a maior parte das provisões. A Medida Provisória 1376/2026 envolve até R$ 100 bilhões da carteira agro do banco em renegociações. Desse montante, R$ 6,7 bilhões já são operações inadimplentes e R$ 3,5 bilhões são operações prorrogadas.
A MP pode ajudar a organizar o risco, mas a redução de perdas futuras não é automática. Depende das regras da medida, da política de crédito da instituição e da capacidade real dos produtores de honrarem os compromissos frente a um cenário de juros e inflação.
Dividendos, múltiplos e a decisão do investidor
Apesar do ruído, o banco aprovou um dividendo extra. Foi anunciado um JCP complementar de pouco mais de R$ 0,10 por ação, com data-com em 1º de setembro e pagamento em 11 de setembro. A rentabilidade bruta pontual é de 0,52%.
Para quem busca renda passiva, os múltiplos atuais acendem um alerta de oportunidade, mas também de valor armadilha.
| Indicador | Valor | Leitura |
|---|---|---|
| P/L | 8,55 | Múltiplo barato após queda |
| P/VP | 0,56 | 44% abaixo do valor patrimonial |
| DY (12m) | 2,87% | Queda recente, média de 8,81% em 5 anos |
A relação P/VP aponta que a instituição negocia 44% abaixo do seu valor patrimonial. O P/L de 8,55 ficou mais atraente com a queda das cotações e o aumento dos lucros. O Dividend Yield cair para 2,87% no período recente é um fator de tensão, embora a média de 8,81% nos últimos cinco anos mostre um histórico de pagamento consistente desde 2016.
O que muda para investidores
A tese para BBAS3 depende de uma premissa fundamental: a capacidade do banco de estancar a sangria da inadimplência no agro e na pessoa física sem sacrificar a margem financeira. O desconto patrimonial oferece uma margem de segurança, mas a assimetria de risco muda. No cenário otimista, as renegociações via MP 1376 e Desenrola funcionam, a inadimplência arrefece e o dividendo é recomposto. No cenário pessimista, a inflação e os juros corroem as renegociações, as provisões continuam subindo e o lucro contábil não se converte em caixa para o acionista.
O investidor deve monitorar se a expansão da carteira será direcionada para segmentos mais seguros, como a pessoa jurídica, e se o custo do crédito começará a ceder nos próximos trimestres. A decisão de alocação passa, portanto, pelo apetite ao risco político e pela crença na resiliência do agronegócio brasileiro frente aos ciclos de alta da inadimplência.
