Tese em 3 pontos

  1. Boa parte da receita gerada pelo banco foi consumida novamente pelas provisões, com o custo do crédito ainda em patamar elevado.
  2. A carteira expandida alcançou R$ 1,3 trilhão, com alta de 4,4% em pessoa física e 4,1% no agronegócio, enquanto o segmento que gera menos inadimplência recuou 2,5%.
  3. Na análise técnica, a perda de R$ 21,91 abriria espaço para um teste da região de R$ 21,27, enquanto a superação de R$ 23,28 manteria vivo o cenário de busca por R$ 24,81.

O que BofA e greve mudam — e o que não mudam — na tese de BBAS3

O Bank of America (BofA) recomenda vender as ações do Banco do Brasil neste momento, e os funcionários do banco entraram em greve. Ainda assim, os papéis chegaram a subir em determinados momentos do pregão, segundo a análise publicada pelo Ativo Virtual. Para o investidor, a pergunta prática é se esses dois eventos alteram a tese construída nos últimos meses, quando a ação saiu de um fundo e avançou cerca de 30%.

A leitura do Ativo Virtual é de que o veredito depende menos das manchetes e mais de dois números do balanço: a inadimplência acima de 90 dias, que subiu para 5,61%, e o custo do crédito, que segue consumindo parte relevante da receita. A recomendação de venda do banco americano funciona como ruído de curto prazo; o dado de crédito, não. É ele que mexe diretamente no lucro e, por consequência, na capacidade de distribuição de dividendos.

Argentina: a aposta de crescimento fora do Brasil

Enquanto o mercado discute inadimplência, capital apertado e recuperação de rentabilidade, o Banco do Brasil mandou um recado do outro lado da fronteira. O braço argentino, o Banco Patagônia — do qual o banco detém participação próxima de 80% — fechou acordo para incorporar o negócio de varejo do Banco Industrial (BIND), em Buenos Aires.

A operação inclui 28 agências, clientes, funcionários e produtos associados, além do negócio previdenciário. Antes do acordo, o Patagônia operava com aproximadamente 200 agências e 3.000 funcionários, o que significa que as unidades incorporadas representam cerca de 14% da rede física da instituição. O valor mencionado pelo mercado gira em torno de US$ 60 milhões, algo próximo de R$ 300 milhões na cotação atual, com conclusão prevista para o início de 2027, pendente de aprovação do Banco Central argentino e da autoridade de defesa da concorrência.

A lógica estratégica é de cross selling: trazer o correntista e, depois, oferecer cartão, crédito, investimento e seguro. Parte da carteira adquirida tem forte exposição a clientes que recebem benefício previdenciário pelo BIND, um público com potencial de relacionamento bancário recorrente. Soma-se a isso a integração já em curso entre Brasil e Argentina: clientes do Patagônia passaram a pagar estabelecimentos brasileiros via Pix diretamente pelo aplicativo, inclusive a partir de contas em dólares.

Greve: BB, Caixa e Correios em momentos diferentes

A paralisação do Banco do Brasil não ocorreu de forma nacional e uniforme, ao contrário do que ocorreu na Caixa Econômica. No BB, o movimento ficou restrito às bases sindicais que não aprovaram o acordo coletivo, incluindo Brasília, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Pernambuco e Florianópolis. Na base do Sindicato dos Bancários de São Paulo, os funcionários do Banco do Brasil aprovaram o acordo por 51,65% dos votos.

Na Caixa, 90% rejeitaram a proposta, levando a greve por tempo indeterminado — o que pode afetar empréstimos, financiamentos imobiliários e outros serviços com peso relevante no resultado da instituição e da Caixa Seguridade. Os Correios também aparecem no movimento, em meio a prejuízo bilionário.

Balanço: lucro cresce, mas o custo do crédito cobra a conta

O lucro líquido ajustado atingiu R$ 3,9 bilhões, alta de 13,9% na comparação trimestral e de 3,3% ano contra ano. A margem financeira bruta ficou praticamente estável na base trimestral (0,2%) e avançou 9,6% ano contra ano. As receitas com prestação de serviços somaram R$ 9,1 bilhões, com alta de 3,4% na comparação trimestral e 4,2% ano contra ano.

O problema está do outro lado da linha: as despesas administrativas cresceram 4,1% ano contra ano, mais que o lucro líquido ajustado e praticamente tanto quanto as receitas de serviços. O índice de capital principal ficou em 11,27%. Boa parte da receita gerada pelo banco foi consumida novamente pelas provisões, com o custo do crédito ainda em patamar elevado.

A carteira cresce exatamente onde o crédito está pior, e encolhe onde a inadimplência é menor.

Inadimplência: o calcanhar de Aquiles

A carteira expandida alcançou R$ 1,3 trilhão. A carteira expandida alcançou R$ 1,3 trilhão, com alta de 4,4% em pessoa física e 4,1% no agronegócio, enquanto o segmento que gera menos inadimplência recuou 2,5%. O agronegócio segue como maior ofensor, com R$ 8,4 bilhões em perdas, seguido pela pessoa física; a pessoa jurídica responde por R$ 2,8 bilhões.

O índice saiu de 3,96% no segundo trimestre de 2025 para 5,05% no primeiro trimestre de 2026 e chegou a 5,61%. É o movimento oposto ao do Bradesco, que reformulou linhas de crédito e vem reduzindo inadimplência e custo do crédito de forma gradual. Em uma carteira de R$ 1,3 trilhão, cada ponto percentual de calote tem impacto severo sobre o lucro — e sobre o dividendo.

Ainda assim, o banco mantém um diferencial competitivo no agro: são quase 600 mil clientes com crédito do agronegócio e um plano safra 2026/2027 de até R$ 210 bilhões.

Análise técnica: onde estão os gatilhos

Na análise técnica, a perda de R$ 21,91 abriria espaço para um teste da região de R$ 21,27, enquanto a superação de R$ 23,28 manteria vivo o cenário de busca por R$ 24,81. A tendência de baixa anterior foi superada com folga, e a semana mais recente teve queda de apenas 0,13%, praticamente imperceptível.

Nível citadoO que representa na análise
R$ 21,91perda do fundo do candle semanal, gatilho de reversão
R$ 21,27região de teste considerada mais provável
R$ 22,40cotação no momento da gravação da análise
R$ 23,28região de resistência sinalizada anteriormente
R$ 24,81cenário de alta menos provável no curto prazo

A ressalva obrigatória: análise técnica não é garantia, e os níveis são regiões, não pontos exatos. Quem entrou nos fundos citados anteriormente acumula ganho superior a 20%.

O que muda para investidores

  • Tese de crédito: o que enfraquece o caso é a combinação de carteira crescendo em pessoa física e agro com inadimplência acima de 90 dias em 5,61%. O que reforça é a estabilidade da margem e o avanço das receitas de serviços.
  • Dividendos: na fonte, a capacidade de distribuição aparece condicionada ao custo do crédito — quanto maior a provisão, menor o lucro e menor o dividendo.
  • Argentina: a expansão via Patagônia é aposta de médio prazo, com conclusão prevista para o início de 2027, e ainda depende de aprovações regulatórias.
  • Greve: no BB, o efeito é restrito às bases que rejeitaram o acordo; na Caixa, a paralisação por tempo indeterminado traz risco maior para resultados e serviços.

Catalisadores e o que observar

Os próximos trimestres devem mostrar se a nova safra de crédito começa a melhorar o índice de inadimplência ou se o banco segue ampliando exposição justamente nos segmentos mais problemáticos. Do lado da análise técnica, a perda de R$ 21,91 e a superação de R$ 23,28 são os dois gatilhos que o mercado monitora. No radar regulatório, a conclusão da operação argentina, prevista para o início de 2027, é o evento que valida ou adia a aposta de crescimento fora do Brasil.

O quadro não é de certeza em nenhuma direção: é de trade-off. A recomendação de venda do BofA e a greve pressionam o sentimento, enquanto o lucro de R$ 3,9 bilhões, a carteira de R$ 1,3 trilhão e a expansão internacional sustentam a narrativa de recuperação. A resposta do preço tende a vir do dado de crédito, não do noticiário.