A Binance confirmou que, a partir de 27 de outubro, clientes brasileiros deixam de abrir novas posições em oito produtos e perdem a negociação de 22 criptomoedas na plataforma. O comunicado saiu na quinta-feira (8) e antecede o prazo de 30 de outubro, limite fixado pelo Banco Central para que empresas que já atuavam com ativos virtuais no país protocolassem pedido de autorização.
A exchange não está abandonando o mercado brasileiro. O que acontece é uma reorganização profunda: as contas de usuários migram para empresas locais do grupo, o dinheiro em reais passa a circular por uma instituição incorporada no fim de 2024 e os processos de câmbio, perfil de risco e reporte fiscal entram em nova fase.
Calendário da transição
| Data | O que muda |
|---|---|
| 8 de outubro | Comunicado oficial da Binance |
| 27 de outubro | Restrição a 8 serviços e retirada de 22 criptos |
| 29 de outubro | Migração das contas para a estrutura local |
| 30 de outubro | Prazo do Banco Central para pedido de autorização |
| 1º de novembro | Novas exigências para transferências internacionais |
Oito serviços param de aceitar novas operações
A restrição alcança Binance Loans, Binance Pool, Cloud Mining, Margem, Launchpool, Megadrop, HODLer Airdrops e Alpha 2.0. A lista mistura operações de crédito com cripto, mineração de Bitcoin e programas que distribuem tokens recém-emitidos como recompensa, conhecidos no setor como airdrops.
Nos produtos ligados a lançamentos e distribuições, o bloqueio recai sobre novas adesões. O crédito, por sua vez, entra em fase de quitação: empréstimos vigentes passam a permitir apenas o abatimento da dívida, sem novas tomadas. A Binance informou que não haverá cobrança de taxas ou penalidades extras por causa da mudança e que saldos remanescentes serão encaminhados à carteira Spot.
Quem mantém posições de margem conserva o que já está aberto, mas perde a possibilidade de abrir ordens, movimentar recursos para essas operações ou contratar novos empréstimos. A exchange não informou data para o encerramento compulsório dessas posições.
As 22 criptomoedas fora da plataforma
| Ativo | Ticker |
|---|---|
| Verge | XVG |
| Ethena USDe | USDE |
| TerraClassicUSD | USTC |
| Decred | DCR |
| Dusk | DUSK |
| PIVX | PIVX |
| BounceBit | BB |
| MANTRA | MANTRA |
| Harmony | ONE |
| GMT | GMT |
| Theta Fuel | TFUEL |
| Zilliqa | ZIL |
| Ontology | ONT |
| Ravencoin | RVN |
| Across Protocol | ACX |
| Hifi Finance | HIT |
| Vulcan Forged | PYR |
| Vanar | VANRY |
| Viction | VIC |
| ICON | ICX |
| Secret | SCRT |
| Storj | STORJ |
Sair do rol de negociação não significa venda automática. Os saldos continuam disponíveis nas contas, e o cliente pode sacar ou realocar os ativos conforme as funcionalidades ainda permitidas.
Migração das contas para empresas do grupo
Até 29 de outubro, quem reside no Brasil passa a ter uma conta de pagamento individual na Binance Brasil Corretora de Câmbio e Valores Mobiliários S.A. A razão social corresponde ao novo nome da Sim;paul, instituição absorvida pelo grupo cuja transferência de controle recebeu aval do Banco Central no fim de 2024.
Caberá a essa empresa processar as movimentações em reais, incluindo depósitos e saques via Pix. O desenho substitui o modelo anterior, no qual terceiros intermediavam os aportes destinados à compra de criptoativos. O efeito já aparece para parte dos usuários: quem tentou depositar por Pix foi conduzido ao processo de abertura da conta de pagamento vinculada à Sim;paul.
Os serviços de cripto sujeitos à regulação ficam com a BBrasil Sociedade Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais Ltda., outra empresa do grupo.
A migração é automática para clientes elegíveis, sem nova rodada de KYC — sigla para o processo de verificação de identidade — desde que os dados cadastrais estejam atualizados. O histórico de operações segue acessível. A custódia permanece com a Nest Clearing and Custody Ltd., instituição regulada em Abu Dhabi, arranjo respaldado pelas regras do Banco Central que autorizam a contratação de custodiantes profissionais no exterior.
Perfil de risco, Pix e transferências internacionais
Com as contas locais criadas, a Binance prepara mudanças no Pix. Hoje, depósitos e saques em reais só ocorrem entre contas de mesma titularidade. A intenção é habilitar, no futuro, pagamentos e recebimentos de terceiros, além de recursos como gerenciamento de chaves Pix e leitura de QR Codes.
Outra exigência é o questionário de perfil de risco. O cliente tem 30 dias, contados a partir da solicitação exibida na plataforma, para responder a quatro perguntas e ser classificado como conservador, moderado ou arrojado. Quem não concluir a avaliação dentro do prazo fica impedido de realizar novas negociações até regularizar o cadastro.
A partir de 1º de novembro, transferências internacionais de criptomoedas passam a exigir informação sobre a finalidade da operação e confirmação de dados de remetentes e destinatários. Sem essas informações, saques podem ficar pendentes e depósitos não são liberados. Os dados são reportados mensalmente ao Banco Central, conforme a Resolução BCB nº 521.
O que muda na tributação
A reestruturação altera o enquadramento dos ganhos. Operações fechadas pela entidade brasileira passam a ser tratadas como investimento em criptoativos no país, sob as regras de ganho de capital — o regime aplicado à diferença entre o valor de compra e o de venda de um ativo. Isso inclui isenção para alienações mensais de até R$ 35 mil. Quando o total alienado supera esse teto, a tributação sobre o ganho segue alíquotas progressivas de 15% a 22,5%.
Para posições mantidas na estrutura estrangeira, a referência é a Lei nº 14.754/2023, que prevê 15% sobre rendimentos de aplicações financeiras no exterior, sem a mesma isenção mensal.
A Binance sustenta que as resoluções do Banco Central não criaram tributos novos. A diferença de tratamento decorre da troca da entidade responsável pelas operações, o que pode mudar o enquadramento dos investimentos. A empresa também informou que a estrutura brasileira fará os reportes obrigatórios à Receita Federal, enquanto operações na conta internacional continuam sujeitas às regras aplicáveis a investimentos no exterior.
Derivativos e a conta internacional
Contratos futuros e derivativos de criptomoedas não são oferecidos a residentes brasileiros por causa da legislação e do entendimento dos reguladores. Ainda assim, a Binance permitirá que quem decidir usar esses instrumentos por iniciativa própria mantenha uma conta internacional separada, vinculada à operação do grupo em Abu Dhabi.
Quem não migrar posições existentes para essa conta poderá apenas reduzi-las ou encerrá-las na conta brasileira. A exchange esclarece que operações realizadas no exterior ficam fora do alcance da CVM e do Banco Central do Brasil.
Inicialmente, apenas derivativos e futuros ficam habilitados nessa estrutura internacional. Os outros oito serviços limitados não podem ser transferidos para ela.
Leitura para o investidor
A Binance está entre as primeiras grandes exchanges a transformar a nova regulação em mudanças visíveis na experiência do usuário brasileiro. O impacto extrapola a lista de produtos descontinuados: a troca de entidade altera o regime tributário aplicado aos ganhos, e a conta internacional cria um ambiente com regras distintas das brasileiras.
Para quem mantém posições em empréstimos ou margem, o caminho é acompanhar os prazos de encerramento divulgados pela própria plataforma e verificar o saldo remanescente que será transferido à carteira Spot. Quem tem saldos nas 22 moedas retiradas precisa checar as opções de saque ou realocação antes de decidir qualquer movimento. Já quem opera derivativos enfrenta uma janela apertada: entre 27 de outubro e 1º de novembro concentram-se as mudanças de cadastro, de câmbio e de enquadramento.
A consolidação da estrutura local aproxima a exchange do modelo exigido pelo Banco Central, com conta de pagamento, avaliação de perfil de risco e reporte mensal de operações. O movimento sinaliza uma tendência para o setor de ativos virtuais: a adequação regulatória tende a reduzir a oferta de produtos de risco elevado ao investidor pessoa física no Brasil, ao mesmo tempo que amplia a rastreabilidade das transferências e o controle sobre a origem e o destino dos recursos.
