O Bradesco elevou a taxa mínima do financiamento habitacional residencial de 11,7% para 15% ao ano, patamar ao qual se soma a Taxa Referencial (TR), indexador de correção que hoje está em 2% ao ano. Na quinta-feira (29), o Itaú Unibanco aplicou ajuste bem menor na mesma modalidade: a taxa mínima saiu de 11,99% e chegou a 12,95% ao ano, também mais TR. O anúncio do Bradesco é anterior, de segunda-feira (26).

A diferença de magnitude entre os dois movimentos separa o que é reprecificação de carteira do que é reação a um dia de estresse. A revisão do Bradesco saiu no primeiro dia útil depois da confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva — sessão em que os juros futuros dispararam e o mercado atravessou um episódio intenso de aversão ao risco. O Itaú, que na véspera dizia apenas acompanhar o comportamento dos mercados, comunicou sua alta três dias depois.

BancoTaxa mínima antesTaxa mínima depois
Bradesco11,7% + TR15,00% + TR
Itaú Unibanco11,99% + TR12,95% + TR
Santander11,69% + TR11,69% + TR (mantida)

Teto revisado e custo de captação: as duas justificativas

O Bradesco limitou-se a informar que revisou o teto das taxas praticadas nas linhas habitacionais por causa da alta dos juros de mercado. A instituição acrescentou que cada contrato é fechado em condições próprias, definidas conforme o cliente e a operação, mas não respondeu sobre a velocidade do reajuste. Já o Itaú afirma que a mudança serve para alinhar o crédito às condições de captação vigentes e para manter a sustentabilidade das operações.

LCI e CRI já respondem por R$ 768 bilhões do funding do setor

A poupança segue como principal fonte de recursos do crédito imobiliário, com quase 30% do total, mas vem perdendo participação relativa ao longo dos últimos anos. Em dezembro de 2025, as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) respondiam por 19% do funding do sistema, e os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), por 10%, segundo dados da Abecip. Somados, os dois papéis equivaliam a cerca de R$ 768 bilhões — o correspondente a 29% da estrutura de financiamento do mercado imobiliário.

DI de 2028 saltou de 12,859% para 14,82% e puxou a precificação

LCI e CRI têm a remuneração atrelada, de forma direta ou indireta, ao CDI e à curva de juros futuros — esta última captura as expectativas para a trajetória das taxas, além de inflação, risco fiscal e incertezas econômicas. Como os bancos combinam recursos da poupança com captações de mercado, uma alta abrupta da curva eleva a incerteza sobre quanto custará esse funding adiante e, por consequência, sobre o retorno dos empréstimos concedidos hoje.

Um contrato habitacional pode se estender por 30 anos ou mais, ao passo que uma LCI costuma vencer entre um e três anos. O banco, portanto, precisa embutir no preço atual o custo de captações que só fará no futuro — mecânica que explica por que a taxa cobrada do tomador reage tão rápido ao que acontece na curva.

No contrato de DI (Depósito Interfinanceiro, usado como termômetro das expectativas de juros) para janeiro de 2028, a taxa saltou de 12,859% no fechamento da sexta anterior para aproximadamente 14,82% após o ajuste de segunda. O vencimento de janeiro de 2031 foi de 12,642% a cerca de 15,28%.

Santander mantém 11,69% + TR; Sicredi descarta mexer no spread

Nenhuma outra instituição havia sinalizado mudança até aqui. O Santander informou que acompanha indicadores econômicos e o comportamento do mercado de crédito imobiliário e que avalia os efeitos desse ambiente sobre as taxas, mas reforçou que seus juros partem de 11,69% ao ano + TR. O Sicredi declarou não prever ajuste no spread — a diferença entre o custo de captação do banco e o que ele cobra do cliente — neste momento, citando o caráter estratégico e de fidelização do produto habitacional; a modalidade segue como prioridade, com perspectiva de expansão da carteira no médio e longo prazo. O Banco do Brasil não se manifestou porque está em período de silêncio em razão da divulgação do balanço do terceiro trimestre.

O que a alta muda para quem financia e para quem aplica em LCI

Para quem vai contratar crédito, o efeito é imediato: com a TR de 2% ao ano somada ao contrato, o desembolso final supera a taxa nominal divulgada pelo banco. Para o investidor de LCI e CRI, a remuneração desses papéis tende a acompanhar o CDI e a curva futura, o que historicamente costuma tornar esses instrumentos mais atrativos em fases de juros longos em elevação.

Uma fonte do mercado imobiliário com mais de duas décadas de atuação no sistema financeiro avalia que a reação do mercado foi exagerada e que o pregão de terça-feira já indicava algum reequilíbrio. Sob essa ótica, o reajuste do Bradesco tende a refletir mais um ambiente pontual de incerteza do que uma mudança estrutural nas condições do crédito habitacional — leitura que só será confirmada ou descartada com o comportamento da curva nos próximos pregões.