A queda de quase 9% do dólar ponderado pelo comércio global desde janeiro de 2025 tem, segundo estudo divulgado pelo Itaú Unibanco, pouca relação com tarifas comerciais. O banco atribui ao fenômeno Sell America 4,7 pontos percentuais do recuo da moeda — o maior componente isolado do movimento —, enquanto 3 pontos percentuais vêm de episódios que colocaram em dúvida a independência do Federal Reserve e 1,7 ponto percentual tem origem na política monetária. Na soma, cerca de 8 dos 9 pontos percentuais de queda do dólar refletem preocupações com a condução da política doméstica americana.
O relatório interessa a quem investe do Brasil porque separa dois riscos tratados normalmente como um só. Choques tarifários tendem a ter efeito setorial e a se dissipar quando a política comercial muda de direção; a desconfiança institucional — decisões consideradas erráticas, incertezas e questionamentos sobre a autonomia do banco central americano — costuma cobrar prêmio mais amplo e mais duradouro. O próprio Itaú sustenta que esse componente poderia ser revertido num cenário de maior previsibilidade das políticas públicas, de fortalecimento institucional e de sinais mais claros de responsabilidade fiscal.
O que o modelo do Itaú isola
Os economistas do banco recorreram a um modelo estatístico para separar o efeito de choques econômicos e políticos distintos sobre os preços dos ativos. Entram na conta tarifas comerciais, política monetária, independência do Federal Reserve, commodities, inteligência artificial e o próprio Sell America. A conclusão central aponta a aversão crescente dos investidores aos ativos americanos como principal causa da queda do dólar e de parte relevante das mudanças observadas na curva de juros dos Estados Unidos.
| Ativo | Variação desde janeiro de 2025 |
|---|---|
| Dólar ponderado pelo comércio global | -9% |
| Ouro | +50% |
| S&P 500 | +26% |
Curva de juros: 20 pontos-base de prêmio institucional
A abertura entre os títulos de 10 e 2 anos dos Estados Unidos — a curva de juros, que mede a diferença entre as taxas pagas em prazos longos e curtos — não se explica apenas pelas expectativas para a política do Federal Reserve. Segundo os cálculos do Itaú, o Sell America contribuiu com cerca de 20 pontos-base para esse movimento, cada ponto-base equivalendo a 0,01 ponto percentual. A inteligência artificial aparece com magnitude semelhante: o avanço da tecnologia elevou as expectativas de crescimento de longo prazo e a demanda por investimentos, pressionando os rendimentos dos títulos mais longos.
Na direção oposta, os choques ligados às commodities reduziram a inclinação da curva em cerca de 14 pontos-base, ao elevar as expectativas de inflação e pressionar com mais força os juros de curto prazo. Conforme a percepção de risco institucional aumentava, investidores passaram a exigir prêmios maiores para manter posições em ativos americanos de prazo mais longo.
Ouro e commodities: cada choque no seu ativo
O ouro, que acumula alta de cerca de 50% desde o começo de 2025, responde ao mesmo impulso. Choques associados ao Sell America e à independência do Federal Reserve estão entre os principais responsáveis pela valorização do metal, num movimento de migração para ativos considerados porto seguro diante do aumento da percepção de risco sobre os Estados Unidos. Os choques tarifários, por sua vez, pesaram mais sobre as bolsas e as commodities cíclicas no início de 2025, pressionando ativos ligados ao crescimento econômico global, como o cobre e o petróleo Brent.
O que muda para quem investe do Brasil
Para quem tem exposição ao dólar, a ativos americanos ou a companhias cuja receita depende do ciclo global, o foco muda de lugar: o risco que domina o relatório não é tarifário, e sim institucional. Isso tende a deixar a moeda americana e a curva longa dos EUA mais sensíveis a notícias sobre a autonomia do Fed, a embates políticos e a sinais fiscais — variáveis que historicamente costumam provocar reprecificação rápida e de alcance amplo.
O caráter reversível apontado pelo banco funciona nos dois sentidos. Se a fraqueza do dólar nasce de percepção, um ambiente de política mais previsível pode devolver parte do prêmio embutido nos preços, com efeito equivalente sobre a curva longa e sobre o ouro. A contrapartida é a ausência de calendário: sem datas definidas para essa melhora, a volatilidade tende a permanecer elevada em ativos expostos ao risco institucional americano. O relatório não traz leitura direta sobre a bolsa brasileira ou sobre o câmbio local; o que oferece é uma chave de decomposição — separar o que é tarifa do que é instituição — para interpretar cada nova notícia vinda dos Estados Unidos.
