Itaú e Bradesco colocaram em análise uma mudança que interessa diretamente a quem já carrega criptomoedas na carteira: aceitar Bitcoin (BTC) como lastro para empréstimos em reais. O assunto veio à tona na quinta-feira (5), no palco do OranjeBTC Summit 2026, em São Paulo, dentro do painel A Próxima Fronteira do Bitcoin. O estágio, porém, é de estudo — não existe produto, preço ou prazo definidos pelas duas instituições.

O que os dois bancos efetivamente sinalizaram

Guto Antunes, responsável pela área de ativos digitais do Itaú, e Douglas Corazza, executivo da área de produtos digitais da Bradesco Custódia e Serviços Financeiros, dividiram o mesmo painel. O diagnóstico foi convergente: a modalidade tem espaço, mas só anda quando segurança, gestão de risco e retaguarda operacional estiverem equacionadas.

Traduzindo para o dia a dia do investidor: quem tem posição em BTC e precisa de dinheiro hoje vende o ativo e encerra a exposição. Com garantia, o cliente levanta reais e mantém os bitcoins no balanço, preservando o ganho caso o preço suba. O reverso também aparece — o empréstimo vira dívida e pode ser liquidado à força numa queda forte da cotação.

Nenhum dos dois bancos anunciou data de lançamento ou condições comerciais. Também não houve indicação de juros, teto de financiamento ou desenho de custódia, o que impede qualquer leitura sobre precificação.

A mecânica: LTV, reforço de garantia e liquidação

Todo empréstimo com garantia volátil nasce de um indicador: o loan-to-value (LTV), relação entre o valor emprestado e o das garantias. Fixado em 50%, um cliente que deposita R$ 100 mil em Bitcoin consegue até R$ 50 mil — o restante funciona como colchão de proteção para o banco.

Como o preço do BTC oscila, esse colchão exige vigilância contínua. Quando a garantia desvaloriza e o LTV sobe além do limite contratual, o tomador é acionado a depositar mais cripto ou a amortizar parte da dívida. Sem resposta, o banco executa a garantia e vende os bitcoins para quitar a operação.

É justamente nesse ponto que o desenho de varejo fica mais delicado que o corporativo: a frequência de reavaliação e a velocidade de execução definem se o cliente será surpreendido por uma liquidação em momento de preço deprimido.

Dois precedentes que mostram como o desenho funciona

O modelo já roda fora do Brasil e em operações corporativas locais:

OperaçãoDataGarantiaEmpréstimoParâmetros divulgados
Coinbase, via protocolo Morpho na rede BaseJaneiro de 2025BTCUSDC, stablecoin atrelada ao dólarLiquidação automática quando a dívida alcança 86% do valor da garantia, com possível penalidade
OranjeBTC com Maple International OperationsMarço de 2026Cerca de 250 bitcoinsUS$ 10 milhões em USDCLTV inicial de 60%, reforço exigido aos 70% e liquidação aos 80%

A stablecoin, termo útil aqui, é uma cripto indexada a um ativo estável — no caso, o dólar — e por isso serve como unidade de conta da operação. Note que o desenho corporativo da OranjeBTC é mais folgado que o de varejo: cada faixa de 10 pontos de LTV dispara uma resposta diferente, do reforço de garantia à execução da posição.

O teste do Itaú não usou Bitcoin

Antes de discutir BTC, o Itaú já havia rodado uma prova de conceito. Em setembro, Antunes relatou que a instituição testou, no projeto-piloto do Drex — a moeda digital do Banco Central —, um financiamento para pessoa física usando CDB tokenizado como garantia.

A diferença é de natureza, não de detalhe. O CDB tokenizado é o título bancário representado em registro distribuído, com contratos inteligentes capazes de vincular o papel à operação de crédito — o que impede, por exemplo, que o mesmo ativo lastreie dois empréstimos simultâneos. A automação também cuida do bloqueio e da liberação da garantia conforme as cláusulas ajustadas.

Levar o mesmo raciocínio ao Bitcoin pede camada extra de proteção, porque o preço de um CDB é previsível e o da criptomoeda não. A oscilação diária do BTC transforma o monitoramento de garantias em processo praticamente em tempo real.

Os números que explicam a pressa dos bancos

A conversa sobre crédito não nasce no vácuo. Desde que ampliou a oferta de cripto ao varejo, em dezembro de 2024, o Itaú registrou avanço de 252% na base de clientes com serviços de criptomoedas. No mesmo intervalo, o número de transações cresceu 369% e o volume financeiro negociado subiu 340%.

Antunes também indicou que o banco trabalha em novas funcionalidades, entre elas compras recorrentes de criptomoedas, e avalia incluir outros ativos digitais na plataforma. A leitura dele é que os ativos digitais deixam de ser um guichê isolado e passam a permear pagamentos, liquidação de operações e crédito.

Do lado do Bradesco, Corazza explicou que a casa vinha montando infraestrutura para ir além da custódia, e que o crédito ancorado em BTC depende de acompanhar o preço das garantias de forma contínua e de agir com rapidez quando a cotação oscilar de maneira expressiva. O executivo citou ainda a necessidade de estruturas sólidas de guarda dos ativos, governança e proteção.

O que falta na parte regulatória

O Banco Central já editou regras para a prestação de serviços de ativos virtuais, com exigências de governança, segurança, controles internos e proteção dos clientes. Em setembro, Nagel Paulino, chefe de divisão do BC, declarou que o segmento de criptomoedas pode evoluir para o crédito, desde que observe as mesmas exigências impostas ao mercado financeiro — e lembrou que o crédito é território fortemente regulado.

Na prática, o produto precisa nascer com trilha de auditoria, política formal de execução de garantias e regras claras de custódia. São exatamente os itens que nenhum dos dois bancos detalhou até aqui.

O que isso muda para quem investe

Primeiro, amplia o cardápio de quem já tem BTC e não quer vendê-lo: em vez de realizar a venda para levantar caixa, o investidor poderia penhorar parte da posição. Segundo, cria risco novo — o de liquidação forçada em queda abrupta, justamente quando o preço está baixo e o desejo é manter o ativo.

Há também uma camada de decisão prática. O investidor que pretende usar essa ferramenta no futuro precisa acompanhar três informações antes de qualquer contratação: o LTV máximo aceito, a faixa que dispara reforço de garantia e a regra de execução. Sem esses três dados, não é possível calcular o quanto de oscilação a posição suporta sem ser liquidada.

Para os bancos listados, ITUB4 e BBDC4, a sinalização é estratégica e não de resultado. Sem taxa, limite, previsão de lançamento ou regra de custódia divulgados, não há como estimar receita ou impacto em margem financeira. O que se pode medir, por ora, é o avanço da pauta de ativos digitais dentro do crédito tradicional.

O movimento também ajuda a entender a ordem de prioridade das instituições: primeiro custódia e investimento, depois infraestrutura, agora crédito. Cada etapa exige controles novos, e a velocidade de cada uma dependerá menos do apetite comercial e mais da capacidade de operar garantias voláteis dentro do arcabouço regulatório brasileiro.