A hegemonia do dólar como ativo de reserva global enfrenta uma erosão técnica, mas mantém seu pilar central intacto. Durante painel na Expert XP 2026, Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro dos EUA, foi categórica ao afirmar que nenhuma outra divisa apresenta profundidade de mercado ou liquidez equivalentes à moeda americana. Apesar da relevância incontestável, a participação do dólar nas reservas internacionais recuou de 70% nas últimas décadas para cerca de 50% atualmente, sinalizando uma lenta, porém estrutural, diversificação por parte dos bancos centrais globais.
Dinâmica das Reservas Globais e a Ascensão do Ouro
Yellen reconhece que a força da moeda norte-americana, embora dominante, opera em patamares inferiores aos observados historicamente. O movimento de diversificação é confirmado pelo aumento contínuo das posições em ouro, ativo tradicionalmente utilizado como reserva de valor em momentos de incerteza cambial. A redução da fatia do dólar não indica colapso, mas reflete a estratégia de múltiplas jurisdições em buscar mitigação de riscos geopolíticos e de liquidez.
Profundidade do Câmbio e a Moeda como Intermediária Universal
A infraestrutura do mercado de câmbio (mercado onde são negociadas as divisas estrangeiras) opera com volumes concentrados na moeda americana. Yellen ilustrou essa realidade com um cenário hipotético: uma transação comercial entre o Brasil e a França. Mesmo sendo países com divisas distintas, o fluxo financeiro muito provavelmente passará por uma dupla conversão: primeiro de reais para dólares e, em seguida, de dólares para euros. Esse fenômeno ocorre porque a profundidade do mercado (volume de ordens disponíveis em diferentes faixas de preço que permitem execução rápida sem causar volatilidade extrema) em pares cambiais que não envolvem o dólar é significativamente reduzida, tornando o ativo americano a principal ponte de liquidez global.
Regulação de Ativos Digitais e o Papel das Stablecoins
No segmento de finanças digitais, a ex-secretária destacou o funcionamento das stablecoins (criptomoedas com valor lastreado em ativos tradicionais para minimizar a volatilidade típica do setor). Segundo Yellen, esses instrumentos merecem reconhecimento regulatório por manterem conversibilidade direta ao dólar em base 1:1, ou seja, cada unidade digital equivale exatamente a uma unidade da moeda fiduciária, atuando como uma extensão digital do próprio dólar em ambientes de negociação descentralizados.
“Não existe moeda que possa substituir o dólar. Nenhum outro mercado tem sua profundidade e liquidez”, destacou Yellen.
O que isso significa para o investidor
Para o investidor pessoa física no Brasil, a manutenção do dólar como eixo do sistema financeiro internacional reforça a relevância da exposição cambial como ferramenta de hedge (proteção de carteira contra oscilações negativas). A tendência de diversificação das reservas globais sugere que choques isolados na economia americana terão impacto mais diluído, mas a dependência de fluxos comerciais da moeda mantém a volatilidade do par BRL/USD sensível às políticas monetárias do Federal Reserve. Em um cenário de Selic em patamares elevados e pressão inflacionária doméstica, a alocação em ativos dolarizados ou atrelados ao IPCA segue funcionando como mecanismo de preservação de poder de compra, independentemente da erosão marginal das reservas centrais.
Riscos Monitorados
- Erosão acelerada da participação do dólar nas reservas globais, alterando fluxos de capitais de longo prazo.
- Expansão desregulada de stablecoins sem lastro auditável, gerando riscos sistêmicos ao sistema de pagamentos.
- Baixo volume de liquidez em pares de moedas emergentes, ampliando spreads (diferença entre preços de compra e venda) em operações bilaterais diretas.
A trajetória da desdolarização parcial exigirá monitoramento contínuo dos relatórios de alocação do Fundo Monetário Internacional, dos fluxos de ouro nas principais bolsas de commodities e das diretrizes regulatórias para ativos digitais nos Estados Unidos e na União Europeia. A consolidação de mecanismos de pagamento alternativos e a evolução da produtividade trazida por novas tecnologias, ainda sem evidências claras de choque imediato, definirão o ritmo das mudanças na arquitetura financeira global.
