Principais pontos

  • O Ibovespa (índice de referência da bolsa brasileira) encerrou a quarta-feira aos 185.629,04 pontos, em baixa de 0,93%, após oscilar entre 184.810,27 e 187.362,44 pontos.
  • O contrato Brent (referência internacional do petróleo) subiu 3,36%, para US$101,21 por barril, ao reacender o temor de choque de oferta.
  • Mesmo na queda, dados da B3 (bolsa brasileira) mostraram entrada líquida de R$5,3 bilhões de estrangeiros em setembro até o dia 4.

O Ibovespa (índice de referência da bolsa brasileira) encerrou a quarta-feira aos 185.629,04 pontos, em baixa de 0,93%, após oscilar entre 184.810,27 e 187.362,44 pontos. O giro financeiro totalizou R$26,7 bilhões, segundo a fonte, um dia depois de o indicador ter terminado em 187.366,84 pontos, patamar mais elevado desde 4 de maio.

A leitura do Ativo Virtual é que a sessão organizou o mercado em dois blocos claros: de um lado, petróleo e exportadoras de commodities sustentadas pelo choque de oferta; de outro, bancos, construção e consumo pressionados por juros longos mais altos e aversão global ao risco. Quem acompanha a bolsa já conhecia o fato da queda — o que muda agora é a precificação de inflação mais persistente e de menor margem para afrouxamento monetário.

Petróleo acima de US$100 recoloca inflação e Fed no centro do pregão

O contrato Brent (referência internacional do petróleo) subiu 3,36%, para US$101,21 por barril, ao reacender o temor de choque de oferta. A matéria original associa o avanço a uma nova escalada dos confrontos no Oriente Médio, com reflexos diretos sobre a oferta da matéria-prima e sobre as projeções de inflação em escala mundial.

Na avaliação de Augusto Parente, fundador da AW Capital, citada pela fonte, o petróleo mais caro alimenta a perspectiva de alta generalizada de preços e reduz a probabilidade de o Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos) elevar os juros ainda neste mês sob um ambiente já pressionado. A lógica é direta: energia cara contamina cadeias produtivas, dificulta a desinflação e mantém o custo do dinheiro elevado por mais tempo.

Em Nova York, o S&P 500 (principal índice da bolsa americana) perdeu 0,48%, enquanto o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano — o Treasury de 10 anos, referência global para o custo de capital de longo prazo — terminou o dia em 4,8406%, contra 4,804% da véspera. Juros longos em ascensão tendem historicamente a diminuir o apelo de ativos de risco, movimento descrito na fonte como risk off (fuga do risco para ativos considerados mais seguros).

A sessão paulista, após desempenho mais firme no dia anterior, quando havia registrado máxima intradia inédita desde o fim de abril, apenas refletiu esse ajuste. A apreensão com o repasse do petróleo para a inflação global minou o apetite por risco e abriu espaço para realização de lucros.

Bancos realizam e Petrobras destoa: quem perdeu e quem sustentou o índice

O setor financeiro liderou as perdas. O ITAÚ UNIBANCO PN (ITUB4) devolveu 1,98% depois de sete pregões consecutivos de valorização. O movimento acompanhou o sinal negativo do IFNC (índice financeiro da B3, que reúne bancos, seguradoras e serviços financeiros).

Papel bancárioVariação na sessão
BRADESCO PN (BBDC4)-2,36%
BTG PACTUAL UNIT (BPAC11)-2,43%
ITAÚ UNIBANCO PN (ITUB4)-1,98%
BANCO DO BRASIL ON (BBAS3)-1,86%
SANTANDER BRASIL UNIT (SANB11)-1,41%

Investidores monitoram ainda eventuais iniciativas do Banco Central para tratar do endividamento das famílias, ponto mencionado pela fonte como elemento adicional de atenção para o segmento.

Na ponta oposta, a PETROBRAS PN (PETR4) subiu 0,69% e a PETROBRAS ON (PETR3) ganhou 0,85%, mais uma vez amparadas pela valorização internacional do óleo. A leitura é que, em episódios de estresse geopolítico com alta da energia, companhias ligadas à commodity tendem a funcionar como proteção relativa dentro de índices dominados por bancos e consumo doméstico.

A VALE ON (VALE3) fechou com ganho de 0,1%, apesar da fragilidade dos contratos futuros de minério de ferro na China. O contrato mais negociado na Bolsa de Commodities de Dalian (DCIOcv1, referência asiática para o minério) encerrou o pregão diurno em baixa de 0,27%. No mesmo complexo de mineração e siderurgia, a CSN ON (CSNA3) disparou 7,4%, amparada também por relatório de analistas do BTG Pactual com início de recomendação tática de compra para os papéis.

Entre as construtoras, o dia foi de correção forte. A TENDA ON (TEND3) tombou 6,03% e a DIRECIONAL ON (DIRR3) recuou 4,37%. O IMOB (índice do setor imobiliário na B3) perdeu 2,56%, com o mercado de olho na alta das taxas dos contratos de DI (Depósito Interfinanceiro, instrumento que baliza os juros futuros no Brasil e o custo do crédito imobiliário). A Tenda comunicou na véspera que Marcos Cruz passou a ocupar a presidência-executiva, em sucessão a Rodrigo Osmo.

No setor de educação, a YDUQS ON (YDUQ3) avançou 2,51% após relatório do JPMorgan que reiterou recomendação overweight (indicação de exposição acima da média do mercado) e preço-alvo de R$17, com preferência pelos papéis frente aos da Cogna (COGN3) diante de uma visão mais favorável para o segundo semestre. A COGNA ON (COGN3) caiu 3,27%.

Na visão de Rodrigo Alvarenga, sócio da One, o petróleo próximo de US$100 implica inflação maior e menos espaço para cortes de juros, o que pune ativos de risco e favorece petróleo e commodities, com as medidas sobre combustíveis gerando efeito secundário perto do impacto da cotação internacional.

Brasília, STF e combustíveis: por que o corte de R$0,63 fez pouco preço

Brasília permaneceu no radar. Investidores tentavam mensurar os desdobramentos da crise no Supremo Tribunal Federal (STF, corte constitucional brasileira) sobre a corrida presidencial. Na quarta-feira, o ministro Flávio Dino mandou reconduzir Andrei Rodrigues ao comando da direção-geral da Polícia Federal, um dia após o ministro André Mendonça ter determinado o afastamento do dirigente. No fim da tarde, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, anulou ambas as decisões sobre o chefe da PF.

Para Rodrigo Knudsen, sócio da Portogallo Family Office, o mercado reage a surpresas dentro de uma mesma temática central. Na interpretação repassada pela fonte, sem uma definição sobre o desfecho do confronto entre Estados Unidos e Irã que reduza o prêmio de risco e sem clareza sobre o processo eleitoral brasileiro, os preços tendem a oscilar em intervalos amplos.

Na última hora do pregão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou decreto que diminuiu o PIS/Cofins (tributos federais sobre faturamento) em R$0,63 por litro da gasolina e em R$0,19 por litro do etanol, zerando a carga desses tributos sobre o biocombustível. Também assinou Medida Provisória (norma editada pelo Executivo com força imediata de lei, sujeita a aprovação do Congresso) com alívio adicional de R$1 por litro do diesel. O governo publicou ainda medida provisória que reserva R$6,6 bilhões para subvenções à produção e à importação de combustíveis, além de decreto que reduz temporariamente em R$0,63 as alíquotas de PIS/Pasep e Cofins sobre a gasolina e zera as contribuições sobre o etanol hidratado.

A avaliação colhida junto a especialistas foi que a repercussão na renda variável (segmento de ações) local ficou contida. Lucas Tambellini, head de renda variável (responsável pela área de ações) da Lifetime, relatou, segundo a fonte, que as cotações quase não se alteraram após o anúncio, com espaço para embolsar ganhos recentes e com contágio do movimento global de aversão ligado ao agravamento da tensão entre americanos e iranianos. A mesma análise aponta, porém, que o valuation (avaliação do nível de preços em relação a fundamentos) da bolsa brasileira segue bastante descontado, o que pode indicar espaço para recuperação mais adiante.

Fluxo gringo segue positivo e cria contraponto à realização

Mesmo na queda, dados da B3 (bolsa brasileira) mostraram entrada líquida de R$5,3 bilhões de estrangeiros em setembro até o dia 4. O dado, divulgado na própria quarta-feira, funciona como amortecedor da narrativa mais negativa do dia.

A permanência do capital externo, mesmo em uma sessão de risk off global, pode indicar que parte dos investidores internacionais continua enxergando prêmio para manter exposição ao Brasil, sobretudo em papéis ligados a energia e exportação. Para o investidor pessoa física, a consequência prática é conviver com volatilidade elevada no curto prazo: choques de petróleo elevam o custo de oportunidade de migrar para risco doméstico, enquanto o fluxo e o valuation descontado sustentam a tese de seletividade entre setores.

O roteiro de acompanhamento inclui a decisão de juros nos Estados Unidos neste mês, a evolução do impasse entre Estados Unidos e Irã e seus efeitos sobre a oferta de petróleo, além dos desdobramentos políticos em Brasília e da tramitação das medidas sobre combustíveis.