O Itaú Unibanco levou ao ar na sexta-feira, 30 de outubro, o Itaú Pay, botão de pagamento que dispensa a digitação de dados de cartão no comércio eletrônico e estreia na Decolar.com. A relação de parceiros seguintes já foi divulgada — Raia Drogasil, Localiza, Zig e a fintech Ebanx —, com chegada prevista ao longo das próximas semanas. O banco projeta dois efeitos: ganho de até 10 pontos percentuais na taxa de aprovação (o percentual de pedidos autorizados pelo sistema) e até 50% de acréscimo ao tíquete médio, o valor médio de cada compra, quando o parcelamento estendido é utilizado.
Um botão a menos de fricção no checkout
Na página de fechamento do pedido, o checkout, o Itaú Pay aparece como alternativa ao lado de cartão de crédito e Pix. Ao selecioná-lo, o cliente conclui a compra dentro do aplicativo do banco, sem gerar cartão virtual e sem digitar a numeração do plástico. A origem dos recursos é escolhida na hora: saldo em conta ou limite de crédito, com parcelamento estendido liberado conforme critérios de elegibilidade. O programa de pontos do Itaú também pode ser acionado para abater o valor da compra.
A ferramenta se encaixa no guarda-chuva dos pagamentos conta a conta, arranjo em que a conta do pagador se conecta à do recebedor sem depender obrigatoriamente da infraestrutura de uma bandeira de cartões. A diferença é que o Itaú Pay não fecha a porta para a rede tradicional: o cartão segue disponível como meio de pagamento dentro da mesma jornada.
O paralelo mais direto é com o NuPay, do Nubank (ROXO34), em operação desde 2022, e com a Pagaleve, que parcela compras no Pix sem exigir limite de cartão ou crédito bancário. Todos disputam o mesmo ponto: o instante em que o carrinho se transforma, ou não, em receita.
24,3% contra 15,2%: a vantagem que o banco leva na bagagem
| Frente de negócio | Itaú | Nubank |
|---|---|---|
| Emissão de cartões | 24,3% do mercado | 15,2% |
| Adquirência (via Rede) | pouco mais de 25% | não informado |
Levantamento do relatório setorial CardMonitor, citado pelo próprio banco.
Adquirência é o negócio de credenciar lojistas a aceitar cartões e de processar essas transações — o território das maquininhas, em que a Rede, empresa do Itaú, ocupa pouco mais de um quarto do setor. A instituição também lidera a emissão, com 24,3% de fatia, bem à frente do vice-colocado Nubank, que aparece com 15,2%.
Nenhum dos concorrentes citados na fonte reúne as duas pontas com esse peso. Essa combinação dá ao banco acesso simultâneo a uma base ampla de consumidores e de lojistas, o que encurta o caminho comercial do novo produto: o mesmo cliente que já tem conta no Itaú pode ser reconhecido dentro do checkout de um varejista que já opera com a Rede.
Onde a receita de pagamentos se desloca
Cada transação aprovada gera MDR, a taxa descontada do lojista a cada venda processada. No Itaú Pay, esses valores serão negociados caso a caso, e o próprio banco não antecipa se sairão necessariamente abaixo dos praticados no cartão. O ganho, na avaliação da instituição, vem de outro lugar: menos fricção significa menos carrinho abandonado e mais volume aprovado.
Há também o componente de risco. Como a autenticação acontece dentro do ecossistema do banco, a operação deixa de depender do preenchimento de formulários em sites de terceiros — o que, na visão do Itaú, tende a reduzir fraude e o custo com chargeback, o estorno de uma transação contestada pelo portador.
Para o investidor com exposição a ITUB4, o que muda é o grau de penetração em um mercado que cresce fora do cartão. Historicamente, receitas de adquirência e de emissão têm peso relevante no resultado de serviços do banco; se o conta a conta ganhar escala no varejo online, parte do volume hoje processado pelas bandeiras tende a migrar para arranjos próprios, nos quais a instituição controla a jornada inteira — e a precificação. A disputa, portanto, deixa de ser apenas por cartão e passa a ser pelo botão que o consumidor aperta no fim da compra.
O mesmo raciocínio vale na ponta oposta. Para o Nubank, o NuPay é uma via de fidelizar o cliente digital sem depender de maquininha física; para a Pagaleve, o parcelamento sem cartão é o próprio produto. A entrada de um banco com 25% da adquirência e 24,3% da emissão amplia a pressão competitiva sobre esse espaço, o que costuma se traduzir em disputa por preço e por integração técnica com os lojistas.
O que passa a ser observado
- A definição das MDRs de cada lojista: é o número que dirá se o Itaú Pay chega ao mercado com preço agressivo ou apenas equivalente ao do cartão.
- A velocidade de implantação em Raia Drogasil, Localiza, Zig e Ebanx, além da Decolar — o cronograma divulgado fala em semanas.
- A confirmação, fora da Decolar, dos 10 pontos percentuais de aprovação e dos 50% de tíquete médio, que o banco apresenta como potencial estimado, não como resultado realizado.
- A reação de NuPay e Pagaleve, que já ocupam o mesmo espaço de checkout e podem responder com condições comerciais próprias.
