Os juros futuros encerraram a segunda-feira (28) em alta, mas o movimento ficou longe de ser uniforme. O DI para janeiro de 2027 passou de 13,548% para 13,565%, o contrato de janeiro de 2029 subiu de 13,814% para 13,89% e o vencimento de janeiro de 2031 saltou de 13,934% para 14,05%. A marca da sessão ficou na ponta longa.
Os DIs são contratos de Depósito Interfinanceiro negociados na B3 e funcionam como termômetro das expectativas de juros do mercado. O contraste entre as pontas é o que explica o dia: as taxas de prazo mais curto praticamente não se moveram, enquanto os vencimentos mais distantes — justamente aqueles em que o mercado cobra o prêmio de prazo, a compensação extra exigida para emprestar dinheiro por vários anos — concentraram quase todo o ajuste.
Onde o ajuste se concentrou
Medida em pontos-base, a unidade usada pelo mercado para variações de juros (cada ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual), a assimetria aparece com clareza: o vencimento de 2027 avançou 1,7 ponto-base, o de 2029 somou 7,6 e o de 2031 acrescentou 11,6.
| Vencimento | Ajuste de sexta (25) | Fechamento (28) | Variação |
|---|---|---|---|
| DI jan/2027 | 13,548% | 13,565% | +1,7 p.b. |
| DI jan/2029 | 13,814% | 13,89% | +7,6 p.b. |
| DI jan/2031 | 13,934% | 14,05% | +11,6 p.b. |
A abertura concentrada no longo prazo tende a sinalizar aumento do prêmio de risco de prazo, e não uma revisão generalizada da trajetória esperada para a Selic, a taxa básica de juros brasileira, nos próximos meses.
Treasuries nas máximas pressionam a renda fixa global
O gatilho externo veio da expectativa de que o Federal Reserve adote uma postura monetária mais restritiva. Os Treasuries — os títulos do Tesouro americano, referência para a renda fixa mundial — seguem sob pressão e operam nas máximas históricas, o que empurra os prêmios exigidos em outras economias.
Sem o chamado forward guidance, a sinalização prévia do banco central americano sobre os próximos passos da política monetária, o presidente do Fed, Kevin Warsh, deixou o mercado sem âncora explícita. Para Meghan Swiber, estrategista de juros do BofA Securities, “Vemos espaço adicional para que os juros continuem abrindo, à medida que os mercados precificam um pico mais alto para a taxa de juros do Fed”. Na avaliação dela, novas altas tendem a seguir sendo incorporadas aos preços enquanto a economia americana mostrar resiliência e a inflação não ceder.
No petróleo, a sessão foi volátil, com oscilações ligadas à falta de avanço nas negociações entre Washington e Teerã e às restrições à navegação no Estreito de Ormuz. O Brent com vencimento em dezembro terminou o dia com ganho de 0,4%, mantendo-se abaixo da marca de US$ 100 o barril, com relatos de maior fluxo no oleoduto Leste-Oeste por parte da Arábia Saudita.
Fiscal e calendário eleitoral explicam a ponta longa
Se o exterior define o tom, o risco doméstico ajuda a explicar por que o ajuste se concentrou nos vencimentos mais distantes. Otávio Oliveira, gerente de Tesouraria do Banco Daycoval, elenca uma sequência de decisões recentes que apontam para uma política fiscal mais expansionista: a medida provisória que barrou a operação das empresas de apostas no país, o reajuste do Bolsa Família, a ampliação do Desenrola — o programa de renegociação de dívidas — e as iniciativas para reduzir o preço dos combustíveis.
O calendário reforça essa percepção. O primeiro turno da eleição presidencial acontece no domingo, 4 de outubro, com disputa apertada entre os dois principais candidatos. Boa parte do mercado vem sinalizando preferência pelo campo da direita, na expectativa de consolidação fiscal em 2027.
Pesquisas: empate técnico com leve sinal pró-Lula
Os levantamentos divulgados na própria segunda-feira apontaram empate técnico, com movimento ligeiramente favorável ao presidente Lula. No BTG/Nexus, ele aparece com 46% no segundo turno, contra 44% de Flávio Bolsonaro. Na simulação de primeiro turno, Lula ganhou dois pontos na comparação com a rodada anterior e chegou a 42%, enquanto Flávio Bolsonaro repetiu 37%.
Na Quaest, o presidente subiu de 37% para 39% no primeiro turno, e o senador avançou de 33% para 34%. Na simulação de segundo turno da mesma pesquisa, ambos marcam 42%, com Lula um ponto acima da edição anterior e Flávio Bolsonaro estável.
O que muda para quem acompanha juros
A curva de DIs funciona como régua para a precificação de boa parte da renda fixa doméstica: títulos públicos, debêntures e os certificados de recebíveis imobiliários (CRIs) e do agronegócio (CRAs) de prazo mais longo costumam ser referenciados a esses vértices. Um prêmio de prazo mais alto tende a elevar o retorno exigido nesses papéis e, no mercado secundário, a reduzir o preço de quem já carrega posições marcadas a mercado.
Três frentes concentram a atenção daqui para a frente: a trajetória dos Treasuries e a comunicação de Kevin Warsh, o fluxo de decisões fiscais até o primeiro turno e o resultado das urnas em 4 de outubro. Se o prêmio de prazo continuar subindo, o efeito tende a aparecer primeiro nos vencimentos mais longos — exatamente onde a sessão de segunda deixou sua marca.
